quarta-feira, setembro 07, 2016

Da utilidade de rabiscar livros


Não-leitores muitas vezes se entregam de bandeja. Há duas oportunidades de destaque para reconhecer, com alguma garantia, um não-leitor. Primeiro, ele vai à sua casa, vê estantes abarrotadas de livros e pergunta se você já leu todos. Você, que é de certa forma um bibliófilo – conforme finanças e espaço permitem –, mas não vive de ler livros porque precisa trabalhar, cozinhar, sair para pesquisar se ainda existe alguma loja vendendo blusas de lã sintética que não provenham da China (conclui que não existe, aliás). Você, que dorme, e dorme todas as preciosas oito horas porque leitor com sono é leitor que não presta atenção direito, que lê mecanicamente, que boceja diante do verso mais bonito de Goethe. Você, que não consegue se dedicar à leitura enquanto termina uma garrafa de vinho e duvida da apreensão de conteúdo dos beatniks que dizem beber e fumar enquanto leem (os mais peculiares talvez aleguem tocar piano e fazer a barba também). Isso porque o não-leitor não sabe quanto tempo leva para se ler um livro. Porque ele não sabe que a maioria de nós não é nem Sérgio Buarque de Holanda nem José Guilherme Merquior para se trancar no escritório e engatar uma leitura na outra, em extrema glutonice. O não-leitor, que não lê nem quatro livros por ano, não resiste: vê a estante cheia de alguém e já quer saber se tudo foi lido. A outra oportunidade de reconhecimento do não-leitor é sua exaltada repulsa sobre livros riscados. É verdade, esse sinal é um pouco menos certeiro, porque há mesmo leitores, metódicos e hospitalares, que consideram sacrilégio apertar o bumbunzinho de uma lapiseira ao se estar na presença de um livro aberto. Mas se o leitor “pode ser” que se horrorize ao ver um parágrafo sublinhado, o não-leitor não pode ser, ele “é”. Acha “feio”. Um desperdício. “Como outra pessoa vai ler o livro desse jeito?” O não-leitor não entende, na cabecinha de prego dele, que a função de um bom livro não é permitir o refúgio do tédio de quem não sabe como proceder com tanta liberdade e enxerga na leitura um jogo de canastra cuja função é fazer o tempo passar para que logo se esteja reclamando que o Natal vem cada vez mais rápido. Não entende que um bom leitor jamais vai passar um livro adiante só porque já foi lido: um livro maravilhoso terminado acaba de dar mais uma razão para ficar. Ninguém, em sã consciência emocional, vai tratar Kafka como leitores da Agatha Christie a tratam (e com razão): como algo a ser enfiado numa lista e marcado ao lado com “lido” e nada mais, o que significa que não há sentido nenhum em reler, em buscar “aquele trecho”, porque é como um item colocado num papelete sobre o que precisa ser enfiado no carrinho do supermercado. Ninguém “relê” Agatha Christie, porque seus livros são descartáveis, são livros de férias na praia, livros para presentear o adolescente que os pais permitiram “ter seu próprio temperamento” e agora, tarde, descobriram que era apenas falta de educação deixar uma criança tonta ficar à própria sorte com estudos e leituras – Hercule Poirot vem para tentar salvá-lo da estupidez à qual se encaminha toda vez que é colocado diante da TV. Assim, ninguém rabisca livros que poderiam muito bem ser publicados pela Coquetel. Mas como não rabiscar A idade do serrote, de Murilo Mendes, que é um primor do cabo ao rabo? Como não rabiscar os Ensaios, de Montaigne? Quem é a pedra disfarçada de leitor que vai ler os Ensaios, considerar que o serviço está feito e passar o livro adiante sem manter uma cópia? Quem é o obsessivo-compulsivo que vai ler Apologia da história, não sentir necessidade de marcar nada, assumir que é excelente e mesmo assim doar para alguém? Existe uma abismal diferença entre olhar um livro pensando “ensine-me” e “entretenha-me”. Rabiscar um bom livro é quase um dever. Um não-leitor não entende isso porque para ele livros são como atrações de circo (adoro circos, desde que não haja animais sendo escravizados neles), e um livro lido é um serviço cumprido. 

Nem todas as minhas experiências com rabiscos de livros são boas. Há alguns anos, comecei a ler Introdução à sociologia, do Adorno (editora Unesp). Rabisquei o livro logo que veio: coloquei meu nome e a data nele, com caneta. Conforme prossegui a leitura, rabiscava uma coisa ou outra. Até perceber, já depois de algum estrago, que eu não estava gostando do livro. Não era péssimo, mas, com tanto material bom para ler, jamais seria um livro que eu salvaria de um incêndio na minha casa. Se não tivesse rabiscado o livro – se tivesse sido mais ponderada e esperasse pelo menos até a página 40 para ver se valia a pena mantê-lo comigo –, poderia vendê-lo. Inutilizei-o com sublinhados. Ocorreu o mesmo com O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais, de Lucien Febvre (editora Companhia das Letras). Comprei porque o tema me interessava: incredulidade, Rabelais, Idade Moderna. Febvre também sempre teve ótima fama. Recebi o livro, marquei-o como propriedade, comecei a rabiscar o pouco que achava que devia. Insisti. O estilo de Febvre é horroroso, com floreios poéticos piegas e muito uso de frases reticentes. Li mais um pouco, tentei marcar algumas outras coisas. Mas não consigo ler textos compridos em estilo ruim. Dão-me agonia da mesma forma como sofro para ler textos mal pontuados. Ali estava outro livro que eu não deveria ter marcado desde o início, porque me permitiria revendê-lo, passar para alguém que apreciasse historiografia nas nuvens. Errei ao maculá-lo. Mas aprendi, finalmente, como agir com livros desconhecidos que caem nas minhas mãos sem muito conhecimento de teor e forma. A imensa maioria dos livros que adquiri nos últimos anos vieram de lojas virtuais. (Apoio apego a livrarias pequenas prestes a serem engolidas por gigantes como Amazon e Saraiva, mas em São Paulo não tenho intimidade com nenhuma que satisfaça esse requisito; e mesmo que apareça alguma hipotética Livraria do Seu Pedro, desde 1952, não tenho a missão de salvar pequenas empresas quando a diferença de valor pelo mesmo produto é muito alta. Se a diferença for pouca, opto sempre pelo pequeno empresário.) E existe um probleminha com alguns livros comprados na internet cujos trechos não estão disponíveis para leitura prévia, que é o de você não saber exatamente o que vai receber em casa. Hoje, portanto, recebo minha caixa de livros e nem marco meu nome neles. Espero. Leio algumas páginas. Vou lendo, lendo, e em poucas dezenas de folhas já consigo perceber se é algo para manter, consumir de rabiscos, ou passar para outros. 

“Consumir de rabiscos”. É isso o que eu penso que as pessoas deveriam considerar a respeito de livros: material de consumo. Não é um quadro, não é a nega de cerâmica que o branquelo trouxe da Bahia para tornar sua casa mais “exótica”. É para ser estraçalhado, no bom sentido. É para ser lido, relido, marcado, repensado, consultado. Está ali para servir, mas sem ser subalterno. Não me entra nas dobras cerebrais que alguém leia um livro excelente e passe adiante. Como esse sujeito não sente falta do livro? Como não sente falta de viver outra vez aquela passagem, aquela descrição? Precisamos ver nossos bons calhamaços como dicionários, dos quais ninguém se desfaz porque são constante fonte de consulta. Imagine se vou passar os livros de Jacques Le Goff para frente como se fossem moedas. Minha cabeça é limitadíssima, como a de todo mundo, e vai chegar um momento – sempre chega para quem gosta de saber as coisas de fato – em que me perguntarei “mas como era mesmo aquela história que ele contava em A bolsa e a vida?”, levantarei do sofá, abrirei o armário, puxarei seu livrinho e terei, instantaneamente, a resposta para minha dúvida, além de uma ressurreição. Em minutos eu revivo Le Goff, não somente graças ao fato de possuir seu livro como ao fato de tê-lo rabiscado. 

Falemos, agora, entre leitores habituais. Leio em média três livros por mês, o que é considerável para quem não trabalha com pesquisa. Digamos que ano passado eu tenha mantido essa média, portanto eu teria lido 36 livros. E digamos que no ano anterior eu também tenha lido 36 livros. São 72 livros em apenas dois anos. Desses, suponhamos que 32 não eram “eternos”: eram livros não tão bons, livros não tão marcantes, livros que não me fariam falta se sumissem. Sobram 40 bons livros lidos em dois anos. Eu inquiro: alguém que tenha a mesma quantidade/qualidade de leituras que a minha e tenha preservado uns 40 livros de dois anos de leituras, alguém que mantenha esses livros, mas não os rabisque – em que estado de angústia ficará quando tentar lembrar de uma passagem recordada vagamente e que está num dos dez livros sobre evolução das espécies, por exemplo? Porque se o livro na estante não for tratado como um mero troféu – “vejam, ali está e eu o li” –, será buscado. Será fácil buscá-lo sem marcações? Não será. 

Há dois livros realmente bons que li este ano sobre evolução, e acabei fazendo uma leitura seguida da outra: As origens da virtude: um estudo biológico da solidariedade, do zoólogo Matt Ridley (editora Record), e A história do corpo humano: história, saúde e doença, do professor de biologia evolutiva humana de Harvard Daniel E. Lieberman (editora Zahar) (também conhecido como “professor descalço” por defender que deveríamos correr de pés nus, quando possível, por causa do modo como a evolução moldou nossos pés). Precisei escrever um artigo de conclusão de curso para a especialização que fiz em Direito Penal. Poderia escrever sem muita pretensão sobre qualquer assunto jurídico que a nota viria, e com ela a fácil aprovação (gostaria de ver quais os critérios usados pelo MEC para manter certas instituições funcionando), mas preferi me dedicar a algo que me interessasse e acabasse como um bom artigo para mim mesma. Escrevi sobre o aborto, trabalhei temas como fetos anencéfalos e morte cerebral. Lá pelas tantas lembrei de ter lido que o feto compete com a mãe por recursos dentro dela, gerando desajustes e funcionando como parasita. Quis a citação indireta desse trecho, mas não lembrava em que livro estava. Sabia que estava num dos dois que tinha lido no começo do ano. Vistoriei minhas marcações nas bordas e não achei nada no livro do Lieberman. Só podia estar no do Ridley. Estava. Na parte superior da página 32 eu havia escrito “a luta na gravidez” e “o feto como parasita” para fichar o que havia naquela página. Meus rabiscos facilitaram minha busca para o artigo, o que foi ótimo, mas eu não fico escrevendo artigos o tempo todo – só que esses rabiscos salvam minha tranquilidade mental e minha vontade de saber sempre. Ali estou eu, tomando sol na varanda enquanto leio uma National Geographic. Uma matéria sobre agrotóxicos me faz lembrar algo que li num livro. Vou para dentro, procuro o livro, começo a ler o que escrevi em suas beiradas ou o que sublinhei com “cobrinhas” – meu sinal para mim mesma para “trecho muitíssimo interessante” – e logo acho o que quero. Leio. Fico satisfeita. Reaprendi aquela coisinha. Volto para meu sol e minha revista. As conexões estão perfeitas e não preciso forçar meu cérebro a lembrar de todas as passagens importantes dos 40 livros bons que li nos últimos dois anos. Lido com a realidade e não passarei ansiedade por não conseguir achar onde li isso ou aquilo há alguns meses ou anos. Dentro de cada livro de minha biblioteca há uma pequena biblioteca, com capítulos e páginas catalogados conforme os assuntos. 

Não consegui convencer sobre a utilidade de um bom rabiscar? Logo ali darei um exemplo ainda mais prático, mas permitam-me falar de mais uma dádiva que a organização oferece ao rabiscador de livros. Há alguns anos li um livro que comprei no sebo, O comunismo, do historiador Richard Pipes (editora Objetiva). Um bom livro com uma visão mais liberal das revoluções socialistas, já que Pipes parece considerar o comunismo, tanto praticado (visão muito justa) quanto idealizado (visão talvez muito dura, já que há, sim, uns poucos sonhadores comunistas de boa vontade), uma catástrofe. Esses dias peguei o livro para “relê-lo”. Não o estou lendo por inteiro: estou lendo somente os trechos que pontuei no fichamento no próprio livro que fiz na primeira leitura. Quando um trecho marcado instigante é seguido por um não marcado, leio também o não marcado. Assim, consigo reler livros sem que precise tratá-los como se fosse a primeira vez. Há livros, claro, que lemos por completo algumas vezes durante a vida (no meu caso, principalmente literatura), mas há outros que bastam ser revividos pelas marcações. Marca-se o que é mais relevante e essencial: quando se tem pouco tempo – ou muito tempo, só que voltado para tantas outras coisas –, um livro rabiscado facilita muito a vida. Quem gosta de seriados muitas vezes não vê várias vezes certos episódios? Acredito que já assisti a quase todos os desenhos do Pernalonga, mas se estiver cansada e com vontade de rever algum, verei qualquer um dos episódios em que ele é maestro ou personagem de alguma música clássica (como em “Coelho de Sevilha”). E que mal há nisso? Com livros, o mesmo acontece. Você pode ler os Ensaios todos de uma vez, marcar os aforismos mais interessantes, deixá-lo na cabeceira e reler aqueles que marcou. Rabiscar livros não apenas organiza a leitura como presta um favor à releitura. 


Recentemente finalizei a leitura de Ética prática, do Peter Singer (editora Martins Fontes). Até então eu só tinha lido quatro ou cinco capítulos sobre assuntos que me eram caros: o estatuto ético dos animais, aborto, “o que há de errado em matar”. Todos os assuntos do livro, todavia, deveriam ser caros a todos nós: imigrantes, meio ambiente, que responsabilidade os que têm dinheiro (sim, você que está lendo, por exemplo; pare de fingir que é pobre porque isso é uma tremenda falta de respeito com quem é realmente pobre) têm com os que não têm (não, você não é pobre só porque está há dez anos sem trocar de carro; por favor, situe-se em seu ridículo), por que devemos agir moralmente. O livro é ótimo, então valeu cada rabiscada. O que estou fazendo agora que terminei de lê-lo e rabiscá-lo? Estou relendo o que marquei. Por quê? Porque é muito difícil apreender tudo de um livro de uma leitura só. A primeira leitura serviu para meu entendimento amplo de tudo, para que eu tentasse organizar os conhecimentos do livro. Agora posso reler o que está organizado de acordo com o meu gosto de ordem (não marco somente as passagens com as quais concordo, porque minha intenção é entender o texto, não revisá-lo para o autor conforme meu narcísico parecer). Muitas coisas na vida nós primeiro organizamos para depois tomá-las em seu verdadeiro sentido. Não vejo por que com o conhecimento seria diferente. 

Na primeira folha dos livros muitas vezes escrevo frases curtas que expressam muita coisa, e coloco a página onde estão ao final da citação. Em Ética prática há lá três trechos na primeira página, sendo um deles: “O status de igualdade não depende da inteligência. Os racistas que afirmam o contrário correm o risco de ser forçados a se ajoelhar diante do primeiro gênio que encontrarem. (p. 40)”. A importância desse trecho está em sua síntese de tudo que Singer trabalha na obra: o fato de um camundongo não apreciar ópera como você, o fato de um angolano não fazer os cálculos que você faz e o fato de um índio não saber ler não fazem com que você seja superior a eles em merecimento de tratamento compassivo – se se achar superior por essas coisas, precisará virar escravo dos inúmeros sujeitos muito mais inteligentes que você que estão por aí. Em seguida, outro excerto que sintetiza o pensamento ético de Singer: “Se um ser sofre, não pode haver nenhuma justificativa de ordem moral para nos recusarmos a levar esse sofrimento em consideração. (p. 67)”. E ainda: “O princípio da igual consideração de interesses não permite que os interesses maiores sejam sacrificados em função dos interesses menores. (p. 73)”, ou seja, é justificável que um esquimó, impossibilitado de exercer a agricultura, mate um animal para comer, prática que é totalmente imoral quando você, citadino, pensa que é justificável ceifar uma vida com interesses e senciência por mero prazer do paladar, da mesma forma como não se justifica sua insistência em comprar roupas de marcas de fast-fashion reconhecidamente responsáveis por trabalho análogo ao escravo só porque “são muito bonitas e baratas” – seu interesse menor, gastar pouco dinheiro com uma peça bonita, não justifica o sacrifício de um interesse maior, que é o de um trabalhador ser tratado no mínimo conforme o que apregoa a CLT. 

Livros que se transformam em cadernos por
praticidade: aos que não querem isso, que
comprem cadernos, desde que os usem

Agora vejamos alguns dos rabiscos explicativos e ordenados que fiz no decorrer das primeiras páginas do livro, rabiscos que já me auxiliaram, mas vão me auxiliar ainda mais no futuro, quando minha memória começar a apagar boa parte do que li: 

Reação ao livro nos países de língua alemã; 
Ética e Deus;
Kant e o código moral;
Sobre o relativismo;
Aos marxistas: “se toda moralidade é relativa, o que há de tão especial no comunismo?”;
Relativismo ético;
Universalidade da ética;
Kant;
Ética como reflexão sobre todos os interesses envolvidos;
O racismo se tornou “feio”;
Princípio da igual consideração de interesses;
“A raça é irrelevante para a consideração dos interesses, pois o que conta são os interesses em si.”;
Caso hipotético das duas pessoas feridas desigualmente e das duas doses de morfina;
Princípio da diminuição da utilidade marginal;
“Caso da perna e do dedo do pé”;
Uma suposta diferença entre o QI de duas etnias poderia justificar tratamentos desiguais para elas?;
Diferenças entre homens e mulheres, biologia ou cultura;
O papel da mulher no mercado de trabalho;
Diferenças entre os sexos e estar fora do padrão biológico;
É difícil mensurar a igualdade de oportunidades;
Fuga de cérebros;
O problema do “socialismo em um só país”

Isso tudo foi o que escrevi – organizei – em bordas e beiradas até a página 50. Não há como negar que é uma bela catalogação. Se daqui a três anos eu me lembrar de quando Singer comenta sobre o problema do socialismo em um só país – que é um problema que gera as tais fugas de cérebros, quando o governante socialista permite que as pessoas emigrem, pois muitos gênios anseiam ser bem remunerados por sua contribuição à sociedade em vez de receber quase o mesmo que varredores de rua – e quiser reler o que ele diz sobre isso, basta ir às beiradas. Se não houvesse marcações nelas, eu demoraria talvez horas para encontrar o que quero: não há capítulo com esse nome, não há subtítulo chamado “socialismo num só país”, nem índice remissivo no final do livro. Meus rabiscos salvam meu eu futuro de agonia. 

Hostilizado em países de língua alemã por debater
o tema da eutanásia, Singer teve seus óculos
arrancados e jogados ao chão, e eu sei onde
está esse trecho porque o marquei

Livros rabiscados são lindos para seu dono, mas emprestá-los é um erro, geralmente. A marcação feita por outra pessoa influencia nossa leitura, nossa atenção. Além do mais, às vezes pode soar pedante emprestar um livro rabiscado. Se hoje eu já não empresto livros rabiscados (nem os que não estão rabiscados, na verdade, porque sempre tive azar ao emprestar coisas), no passado seria pior ainda, porque houve época, ali nos meus 17 ou 18 anos, em que eu não somente fazia marcações nos livros: eu colocava minhas opiniões nas bordas. Achava o ápice da crítica atilada escrever “estúpido” ao lado de um parágrafo de que não gostara (não cheguei ao ponto-Schopenhauer de desenhar orelhas de burro ao lado de trechos de Hegel ou Fichte). 

O que vivo, agora, é uma situação engraçada: não sou mais uma pessoa sozinha como leitora numa casa. Tenho um namorado com quem compartilho coisas (muitos insistem que devo chamá-lo de marido; não sei por que se importam tanto com terminologias esses abelhudos). Todos os livros que compramos, compramos juntos. Dividimos água, luz, condomínio, feira – e livros. Ocorre que às vezes posso querer ler um livro que André comprou para ele. Não, não consigo não rabiscá-lo. O que faço é tentar ser o mais discreta possível: se um trecho me interessa, faço um leve traçado com grafite ao lado do parágrafo. Fiz isso com Nada a invejar: vidas comuns na Coreia do Norte, da jornalista Barbara Demick (editora Companhia das Letras), que pretendo resenhar em uma postagem em outro momento. Quem leu sobre ele foi o André, quem quis comprá-lo foi o André. Mas eu acabei lendo o livro antes. Se não fizesse um fichamentozinho, uma marcaçãozinha que me ajudasse, posteriormente, a achar o trecho em que Demick fala das pessoas comendo grama e não podendo reclamar do Grande Líder, por exemplo, eu ficaria ansiosa. Em casas de casais, talvez os rabiscos tenham que ser mais moderados. Para maiores marcações, recomendo que se compre um caderno só para se colocar espécies de frases-chave, como aquelas que elenquei acima no livro do Peter Singer, com a página ao lado. Por exemplo: 

Como dividir a Coreia após a II Guerra (p. 36);
Sistema de castas (p. 43);
O sistema filosófico do juche (p. 65);
Vitrines para estrangeiros, frutas falsas (p. 87)

Um caderno de 100 folhas vai durar para muitos livros desse jeito. Para mim essa ideia não dá muito certo porque tenho o hábito de ler deitada em 80% do tempo. Já vou para a cama ou para o sofá com o livro e uma lapiseira, que é para ir marcando e rabiscando o que me interessa (não me importo com a caligrafia, desde que fique legível). Mas é uma boa opção para quem quer manter seus livros limpos e costuma ler sentado (ou lê deitado, mas não faz cerimônia para levantar e escrever coisas no caderno; ou lê deitado e consegue escrever em cadernos mesmo deitado). 

Forma mais sutil de marcar trechos de livros
que poderão ser lidos por outra pessoa

Aos que leem e não marcam, não organizam, não sintetizam: não sei como vocês vivem. Ou leem tão pouco que a memória limitada basta para os pouquinhos livros anuais, ou leem como quem está na aventura do livro para passar o tempo entre as datas festivas, ou ainda não ficaram cientes da real condição de desespero em que deveriam estar por não manterem tão elementares conhecimentos organizados de forma a que estejam com fácil acesso. Não quero incentivar o desespero, a queima de cidades e bibliotecas por causa do pânico (“meu deus, Barbara, todo o conhecimento que li está espalhado por aí e não sei como começar a juntar!”). Mas acho que é hora de rever o modo como se lê, que é quase tão importante quanto aquilo que se lê. Seja o tipo de leitor que você gostaria de ter se fosse um bom autor.

Retornando


Senhores que me leem, que bom encontrá-los de novo. Sumi um pouco porque estava terminando rodopios com certos estudos formais. Não se equiparam aos estudos formais de vocês, certamente, porque eu entrei nessa por motivo de trabalho – nosso salário evolui quando apresentamos certificados e diplomas – e fiz inscrição em qualquer à distância que aparecesse pela frente. Por acaso gostei muito de estudar Direito Penal. Entrei por dinheiro – critico mercenários e agora dou esse espetáculo de franqueza; meu maior problema, contudo, sempre foi com os que alegam amor àquilo que fizeram só por pecúnia ou conveniência, atentem bem – e gostei dos assuntos sem querer. Assim, agora que terminei os tais estudos formais estou pronta para estudar o Direito Penal brasileiro do jeito informal, que é mais agradável, genuíno e ao meu tempo. Tomada pela presunção positiva que acossa os outros, continuo aguardando os "amo o que faço" aparecerem com leituras sérias sem que professores os tenham obrigado a isso – vá e leia um livro de Keynes à beira do mar, tire uma semana de férias para entender aquele ponto difícil de Kotler, fique ansioso para ver os julgamentos do STF na TV Justiça após o expediente – ou sem que sirva para a olimpíada do Lattes. Enquanto não houver linguista lendo Bakhtin no próprio aniversário sem nenhuma pretensão acadêmica ou suposto amante de música clássica trocando banquete gratuito em festinha da repartição para ouvir Brahms, poupem-me desse saco de balelas. Pronto, terminei meu micro-protesto que parece saído de uma letra de hip-hop. Volto logo.

sábado, julho 09, 2016

Rápidas e soltas 12: Escola sem partido, gênero, mulheres no jornalismo


A polêmica do momento é o avanço da aceitação do programa (transformado em projeto de lei) "Escola sem partido". O que leio? Dois lados. Quem está certo? Nenhum deles. Tenho a fortíssima impressão de que a reação mais comum a um extremismo é o surgimento de outro extremismo: oposto, mas igualmente estrondoso. Desponta uma opinião extrema que se transforma no pensamento de um grupo. Quem fará o contraponto? Raramente um grupo equilibrado, moderado, cauteloso. Possivelmente um grupo que vai propor o avesso de tudo que o primeiro propôs e também tacará fogo na civilização em nome do erguimento de uma nova. Acredito que muitas das minhas convicções precisam ser repensadas ou polidas – não faz tanto tempo que abandonei certos extremismos –, mas mesmo assim tenho me sentido, num meio dicotômico, uma pária. Não é diferente com o caso da escola sem partido. Em artigo para a morta-viva Revista de História da Biblioteca Nacional (aparentava ter morrido em novembro, implorou por doações para fechar as contas de 2015, não publicou nada desde dezembro e depois apareceu com uma edição solta em maio), Fernando de Araujo Penna critica a "criminalização da prática docente" e o que ele alega ser a proibição de o professor trazer para a aula assuntos do cotidiano. Foi isso o que ele entendeu do seguinte trecho do site que divulga o programa: “Você pode estar sendo vítima de doutrinação ideológica quando seu professor se desvia frequentemente da matéria objeto da disciplina para assuntos relacionados ao noticiário político ou internacional”. Não entendi a indignação. Penna é professor universitário. Há quanto tempo está afastado das escolas de ensino básico? Existe uma abismal diferença entre um professor de história levar para a sala de aula assuntos controversos do momento para gerar algum debate e um professor chegar com aquela cara pedante, que inúmeros professores de história gostam de fazer (rivalizam, nesse ponto, com os de filosofia, e a marca que o tempo deixa no rosto os fará serem enterrados com essa estranha expressão de pato sabido), e soltar para os alunos o que está longe de ser um “incentivo ao diálogo”: “viram o golpe à democracia que acabamos de viver? Agora vocês entendem o que aconteceu em 1964”. Esses mesmos professores que levam esquerdismo para a sala – lobo trajado de “formação cidadã e crítica” – só execram o autoritarismo alheio: o deles é salutar e com finalidade ética. Quando descobrem que outro professor está defendendo, nas aulas, ideias abraçadas pela direita, passam a querer ser censores. 

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Ensino básico não é universidade. Quer fazer uma aula mais autoral em que assuntos de grande porte serão discutidos entre adultos e com a relativa igualdade que uma discussão entre adultos proporciona? Estude e vá lecionar na universidade, professor. Pare de querer achar que o ensino fundamental é campo para você brincar de ser importante ao estilo Hegel versus Schopenhauer vamos-ver-quem-consegue-mais-inscritos, porque os alunos não têm a opção de não ir a suas aulas e é uma tremenda covardia querer seduzir crianças a aderir a um discurso porque o professor bacanão – o “roqueiro”, o que “fala mesmo”, o maconheiro politizado de dreads, o tatuado, o motoqueiro selvagem, o que parece saído do presídio, o que conversa “na língua da galera” – sabe que é persuasivo. Na dúvida se está abrindo um debate ou se está doutrinando, pense se outro professor com opinião oposta (desde que não aberrante, como seria a defesa da tortura e do assassinato em massa) teria o direito de levantar as opiniões dele numa aula para o seu filho. Ninguém merece chegar a casa e ser chamado de racista pelo filho porque o professor simplista disse que todos que são contra cotas raciais são racistas. Assim como eu não mandaria uma criança para a escola para que ela aprendesse que o Collor foi um homem bom que foi traído, eu também não quereria que ela aprendesse que o Lula foi um homem bom que foi traído. “Ah, mas não conseguiram provar nada contra o Lula até agora.” E contra o Collor? Em 2014 o STF encerrou o caso da investigação de Collor por falta de provas. Se na falta de provas presumimos a inocência de Lula – mesmo que esteja há muitos anos sendo delatado e que tenha inúmeros amigos íntimos corruptos –, devemos presumir a inocência de Collor, e o professor de história não tem que usar dois pesos e duas medidas na hora de persuadir meu filho de que um é Sócrates e o outro é cicuta. 

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Quanto à discussão sobre gênero em salas de aula, que os adeptos da Escola sem partido rejeitam, não há motivo para fingir que transgêneros não existem ou achar que é “natural” que outras crianças não saibam respeitá-los. Por mais que os pais considerem que “homens são homens e mulheres são mulheres”, os transgêneros estão no mundo e merecem ser tratados com urbanidade, concorde-se ou não com o que fazem com suas posturas e corpos. Falar sobre gênero na escola não é trocar a trigonometria por uma dinâmica de experimentação de papéis em que os meninos terão que vestir saias e passar batom enquanto as meninas lerão revistas sobre carros sentadas com pernas bem abertas. A escola não vai ensinar ninguém a trocar de gênero. Se esse tipo de abordagem tivesse aparecido nas aulas de sociologia e filosofia na minha infância e adolescência, por exemplo, teria sido muito mais fácil lidar comigo mesma num momento em que eu não sabia quem eu deveria ser. Eu adorava o universo masculino e queria tomar muitas coisas dele, mas também não estava disposta a abandonar o chamado universo feminino com tantas atribuições maravilhosas que estão no edital do concurso para ser mulher. Querendo viver nos dois âmbitos, fui expulsa dos dois clubes: as meninas não me queriam porque eu não era menina o suficiente e os meninos não me aceitaram porque eu não era, de fato e nem bem disfarçada, um menino. Revoltada com essa determinação de conduta tão taxativa – ou você é isso, ou é aquilo, não pode ser os dois –, fiquei em estado de graça quando descobri, no final do ensino fundamental, a proposta do feminismo de acabar com essa história de que por ser mulher tenho que falar assim, tenho que me vestir assado e ter um comportamento condizente com o gênero que me obrigaram a adotar. Também me apaixonei por figuras andróginas como David Bowie e Grace Jones, que tinham a sorte de poder usar calças e vestidos quando bem entendessem por causa da licença artística. Proibir que explicações sobre gênero apareçam na escola é impedir, na verdade, que crianças e adolescentes possam ser quem quiserem ser. Às vezes parece que pessoas como Marco Feliciano temem que falar sobre gênero possa transformar todos os garotos em travestis e todas as garotas em Thammy Miranda – uma visão estereotipada sobre o que significa entender que não precisamos nos portar como manda o peso dos séculos. Quando a primeira mulher apareceu de calças, havia uma questão de gênero ali. Quando uma mulher reivindica, em seu local de trabalho, que não é justo que ela tenha que usar salto para fazer a mesma coisa que um homem faz de tênis, há uma questão de gênero aí. Quando um homem, heterossexual, decide usar “roupas de mulher” porque acha que são mais bonitas, estamos falando de transgressão contra imposições de gênero. O que há de mais nisso? 

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Sempre tive receio de emitir julgamento sobre a sexualidade alheia por causa da postura. Pelo menos das pessoas que eu gosto. Havia esse rapaz. Ele era gentil, tinha mais amigas mulheres que amigos homens, nunca brincou de puxar a cueca dos outros. Diziam que ele era gay. Podia ser, é verdade, mas eu preferia não determinar isso. No fim, ele era gay. Eu estava errada em achar que não era? Não achei que não era por não querer que fosse, porque para mim tanto faz com quem as pessoas dormem e por quem seus sinos sexuais dobram, mas eu achei que não era gay porque considerava cansativo e de senso comum supor que só porque um rapaz é mais delicado isso significa que ele é homossexual. Questões hormonais podem influenciar o jeito de muitos homossexuais, mas isso não é regra. Lembro de uma amiga ter sido perguntada por colegas limitadas de um empreguinho ruim se era lésbica. O motivo que deram: porque ela usava tênis e mochila. Não é nenhum xingamento quando presumem que alguém é gay, mas essa presunção não costuma ser suave e complacente para o bem. É claro que reservamos maldades para nossos inimigos – não vejo problema em comentar em particular sobre um sujeito asqueroso que suponho viver no armário “ih, lá vai a bicha” –, mas acho estranho quando perseguimos nossos amigos ou os amigos de nossos amigos com julgamentos genéricos. Pior: quando difamamos alguém por uma hipotética sexualidade genuína não revelada. A maioria das pessoas que não são gays não querem que comentem que elas são. Uma amiga com mais de quarenta, solteira, diz que já acharam inúmeras vezes que ela era lésbica. Por quê? Porque ela é uma mulher mais velha solteira. Está proibido passar dos quarenta sem carregar parceiros do sexo oposto para o cinema, porque isso é sinal de “ser gay”. Um outro conhecido, homem, mas também mais velho, era alvo de comentários sobre ser gay porque nunca tinha sido visto com uma mulher. Mas ele adorava mulheres, elas é que o rejeitavam. Se sabia que suspeitavam que era gay, não sei, e perdi o contato com ele. Até espero que não saiba. 

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A sociedade comum não está preparada para destruir (nada de “desconstruir”, essa palavra medonha que deveria ser enterrada com “pró-ativo” e “problematizar”) os blocos de gênero a fim de deixar todo mundo mais à vontade, mas muitas vezes precisamos ter paciência e compreensão com isso. No último ano em que trabalhei numa creche, peguei uma turminha de dois anos. Havia um menino que sempre observava quando eu e minha colega de sala arrumávamos os cabelos das meninas. Um dia, ele pediu para que fizéssemos uma “maria-chiquinha” no cabelo dele. Minha colega ficou muito constrangida e esperando que eu ajudasse a nos livrarmos da situação. Ajudei: disse para ela fazer (ele tinha pedido a ela) porque não havia nenhum problema nisso. Envergonhada – e entendo a reação dela, que sempre viveu no interior e achava que era bom que Patati e Patatá existissem (esses palhaços insuportáveis, mercenários e forçados) –, ela fez. Quando isso aconteceu de novo, na hora de ir embora o menino ia ficar com uma senhora porque eu saía meia hora antes de a creche fechar. No dia seguinte, ela veio até mim com tom repressor você-pensa-que-estamos-em-San-Francisco e disse que o pai pedira para que nunca mais fizessem chiquinhas no cabelo do filho. Não fiz. Mas deixei para minha colega explicar a ele, que pediu outras vezes, que aquilo “era coisa de menina”. Eu não tinha que desafiar o pai num ponto tão sensível. É claro que um novo penteado na infância não faria com que o menino, quando adulto, fosse trazer Carlos e Juan para passar as noites em seu quarto fazendo guerra de travesseiros, mas o pai achava isso e eu precisei entender que no lugar dele e com a formação dele eu pensaria o mesmo. Mantive meu combate às regras de gênero em outras coisas: pedindo “mãe, por favor, pare de mandar sua filha de sandálias para a creche, não é confortável brincar de sandálias”, ou “mãe, deixe o vestido para a missa, mande sua filha de bermuda ou de calça”, ou escolhendo brincadeiras que envolvessem todos em papéis, como quando brincávamos de casinha e os meninos lavavam a louça enquanto as meninas saíam para trabalhar. Obviamente muitas dessas coisas me transformavam em “Barbara, a estranha”, só que sem poderes paranormais, perante muitas pedagogas antiquadas. Eu é que devo achar estranho que em pleno século XXI muitas creches sejam centrais de reprodução dos anos 40. Não é um bom jeito de brincar de máquina do tempo. 

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O maior motivo para eu ter assinado a Folha de S. Paulo digital foi para poder ler colunas. As notícias o Uol disponibilizava de graça (o texto não parece tão bom e a própria fonte é desagradável, mas é válido que você só tenha que olhar anúncios para poder ler a página). Só hoje percebi que quase só gosto das colunas de homens. Leio tudo que o Ruy Castro escreve (ele é tão atraente que me faz querer ler sobre assuntos que nunca me interessaram – a vida de Carmen Miranda, por exemplo – só porque ele é o biógrafo). Bernardo Mello Franco é uma joia. Toda segunda leio Gregório Duvivier e Pondé – geralmente para passar raiva com ambos, mas leio, porque são melhores que muito escritor mosca-morta. Cony é aquele que eu queria que fosse meu vizinho. João Pereira Coutinho é precioso, apesar de venerar o capitalismo. Demétrio Magnoli e Elio Gaspari têm uma inteligência assombrosa. Há outros que leio quando o primeiro parágrafo me chama a atenção. Há os que não leio, porque são enfadonhos, como Antonio Prata, Kim Kataguiri e André Singer. Da parte das escritoras mulheres, que já são em menor número, a única que vale a sentada é a Fernanda Torres. As outras, ou têm vitalidade, mas não têm inteligência, ou têm inteligência, mas não têm vitalidade. Algumas são confusas. Tati Bernardi às vezes quer ser um corpo, às vezes quer ser um cérebro, e os homens que não acompanharem essa instabilidade receberão críticas. Então ela desanda a escrever sobre assuntos chatíssimos como celulite, magreza, gordura, sexo no tanque, fetiche com comida; ofende a si mesma e a outras mulheres que, como eu, saem piores do que quando entraram na coluna. De repente, lembra que é um ser humano e tenta ser um pouco profunda, um pouco feminista, mas não convence. Passa a achar que não é engraçada o suficiente quando fala de assuntos mais sérios e volta a falar sobre chocolate, papada, peito caído. Com Mariliz Pereira Jorge é parecido, apesar de ela ser um pouco melhor. Passa um tempo falando de futilidades femininas que só trazem doença, física e mental. Faz protesto contra invejosos, fala de ter uma bunda linda brilhando no sol, reclama da celulite, provoca que vai ali comer uma costela de porco ao falar de vegetarianos. Então lembra que tem coisas importantes a dizer e começa a escrever sobre tudo que há de podre no Rio de Janeiro romantizado que há muito tempo deixou de ser bacana, critica o sofrimento por que passam animais em parques aquáticos, pede aos pais que não limitem os desejos de suas filhas nesse mundo machista que oprime mulheres. Quer falar de opressão à mulher e ditadura da beleza, mas também do quanto é amedrontador levar uma vida com um corpo mais ou menos e que a idade assusta quando cria braços flácidos. O que essas colunistas têm de relevante no geral? Por que alguém deve ler coisas que induzam ao pavor de envelhecer? Sinto falta de uma mulher escrevendo como todos os homens que citei acima. Mulheres inteligentes, mas divertidas, com sacadas irônicas, talento literário. Mulheres que acrescentem. A Folha não faria mal convidando a nem sempre justa, mas ótima, Vilma Gryzinski para compor o quadro de colunistas. 

domingo, junho 26, 2016

Quem convidar para a festa e quem expulsar dela


Meu ateísmo não é o melhor dos mundos. Não o adotei por querer, mas por dever cético. É claro que seria muito mais agradável saber que todos os grandes vigaristas do planeta serão julgados no momento da morte, e que toda essa gente hipócrita que nos presenteia à helênica, corriqueiramente, com palestras não requisitadas sobre ela mesma, mas que não faz nada de muito útil ou realmente revolucionário, vai se afogar no Aqueronte num dia de mormaço intenso. Isso se eu acreditasse nessas mitologias, e se a mitologia fosse de fato ao meu gosto: pode ser que um possível Deus fosse antiquado e condenasse quem bebe, tem um humor escrachado e não faz louvor em rituais. Nesse caso – minha danação eterna –, prefiro acreditar que o inferno é o lugar dos malditos em que vou beber no balcão não para tornar os outros mais interessantes (ou me tornar mais imune à chatice alheia), mas para atingir aquele nível de passarinho encantado sibilando valsas, que é como sou ao beber em casa, despreocupada por não ter que fingir tolerar nada. 

Duvidando de qualquer dessas histórias que são apenas isso mesmo – histórias –, considero que a vida é isso que está aí. E ponto. Eu vou acabar, você vai acabar, e tudo o que é nosso e considerávamos tão precioso servirá para fertilizar a terra. Esse entendimento pode gerar duas reações genéricas: uma delas, a de espanto metafísico, um desejo Woody Allen (do tempo dos bons filmes, que não eram como alguns outros dele que vemos numa semana e na outra já esquecemos a trama – indicativo de irrelevância; exemplo: Para Roma, com amor) de ser inoperante, porque existir não faz sentido, e passar a encarnar a Rê Bordosa com seu live fast, die young; a outra, de amor louco a essa efêmera coisinha que podemos aproveitar porque milhares de antepassados – humanos rudes, meio-macacos, seres recém saídos das águas, peixes, agrupamentos celulares – nos deram a oportunidade de participar desse evento que é a vida. Optei pela segunda alternativa. Acho-a justa. Sou diariamente grata à natureza e ao destino por ter pernas, lucidez, um emprego, dedos, visão, vontade de aprender: ou seja, sou grata pela vida – num sentido prático e sério, e não de quem acha que o melhor de todas as culturas são as danças circulares e os chás. Isso não me torna uma “pessoa positiva”: acho que as coisas são o que são, o que podemos e queremos mudar, que mudemos, o que não podemos mudar devemos deixar como está (por exemplo, estressar-se no trânsito é estupidez porque o estresse não vai fazer com que os carros fluam mais rápido). Mas isso me torna muito seletiva a respeito do que vale a pena fazer parte da parte da minha vida que controlo: minha intimidade e meus pensamentos. Assim, não quero ocupar nem minha intimidade, nem meus pensamentos com itens e sujeitos que nada me acrescentam ou que, pior, me diminuem. Venho fazendo uma seleção de tudo isso há anos. No concernente a itens, evito ter que ver, participar, ouvir falar de coisas desinteressantes que só vão ocupar espaço na minha memória limitada: se entrar muito entulho na minha cabeça, terei menos espaço para o que é valioso, ou mesmo as coisas valiosas ficarão pouco concentradas porque precisarão dar lugar a inutilidades. É o tipo de fórmula que pode nos levar a parecer agrestes: já pedi para interlocutores pararem de falar sobre determinados assuntos porque eu não ia conseguir prestar atenção, e, se prestasse, não gravaria a informação nem por cinco minutos. O tempo é muito precioso para que façamos com que nos falem de temas que não nos importam. (A alternativa a essa rusticidade quando encontramos alguém dado à tagarelice contínua – a.k.a. monólogo – é a introspecção: por fora, dizemos “hm”, “uhum” e “ah, é mesmo?”, por dentro estamos fazendo listas de compras, treinando a tabuada, lembrando a discografia do Killing Joke e planejando viagens. Se surpreendentemente o falante voraz parar sua conferência para nos fazer uma pergunta e não tivermos ouvido porque estávamos escolhendo que marca de aveia comprar mais tarde, podemos nos sair com “olha… não sei” ou fingir surdez com “o quê? desculpe, não entendi”.) No concernente a pessoas, evito inúmeros tipos, primeiro porque não gosto deles, segundo porque não tenho tempo para eles. Vejam, se tudo der certo, daqui a muitas décadas vou morrer. Até lá, terei lido tudo que quero ler? Terei aprendido tudo que gostaria de aprender? Terei visto todos os filmes que coloquei na Watchlist do IMDB? Terei ouvido todos os álbuns de black metal, jazz e cold wave que pretendi ouvir? Com certeza não. (Numa remotíssima hipótese de eu já ter esgotado tudo isso, digamos, aos 80 anos – “pronto, não há mais nada que eu precise ler, ver ou aprender” –, aí eu poderia explodir meus miolos, porque seria lamentável ter que passar as tardes vendo televisão por não haver mais nada para fazer enquanto a morte não chega.) 

Muito bem, se uma vida não bastará para fazer tudo que planejo – e já me conformei com isso, não é algo que falo quebrando grilhões na fuga do calabouço –, por que é que vou piorar essa situação colocando pessoas desagradáveis para ocupar minha solidão? Já disse, e repito: quando estou lendo um bom livro, estou lendo a melhor parte do que seu autor tinha para me oferecer. Às vezes o autor por completo é um patife. Um chato. Um pitoresco que jamais daria certo com o meu gênio. E eu não preciso do autor completo quando tenho o melhor dele inserido num livro: o livro dele me basta. Ao assistir a um filme, estou lidando com o melhor que seu roteirista, diretor, argumentador e tantos outros componentes puderam realizar: lido com pessoas, dependo de pessoas para que toda essa nobreza artística chegue a mim, mas trato com o que há de mais interessante nelas. O mesmo não acontece com as inúmeras figuras sem atrativos que tantos insistem em colocar para dentro de suas intimidades. Resultado: espíritos fedorentos estão trocando vapores em salões de festa, “jantar entre amigos da faculdade”, salas de estar, páginas pessoais. Não foi para esse teatrinho fajuto que me tornei a ponta de uma longa cadeia geracional de luta pela existência. Claro, todos atuamos um bocado porque precisamos disso para viver em sociedade e às vezes não atuar é uma tremenda falta de educação: a moça da padaria que te atende, trabalha nos finais de semana e ganha um salário exíguo não merece receber seu olhar de desprezo (trabalhei numa padaria por um mês, sei que mesmo o Zé Pintor é capaz de chegar para uma moça que está atrás de uma cesta de pão e achar que é superior a ela) só porque você, sujeito pelo qual os astros se movem, acordou de mau humor. Também não me lembro de nenhum “sou eu mesmo sempre” ter sido aprovado em entrevistas de emprego que incluem dinâmicas de grupo e farsas do tipo “meu maior defeito é o perfeccionismo”. O problema sucede quando atuamos mesmo onde não precisamos atuar, que é a nossa privacidade. Ninguém está obrigado a levar para casa pessoas que não têm com o que contribuir. Parece um manifesto contra a amizade e a favor do profundo egoísmo de só ficar com aquilo que é magnífico dos que nos cercam, mas não é. Ocorre que há defeitos e defeitos. Nossos amigos não podem nos suprir com utilidades o tempo todo, mas e no tempo em que não nos acrescentam nada, o que oferecem? Indignação com a feliz vida financeira alheia? Opiniões mancas de quem quer falar sobre qualquer assunto, mas tem preguiça de dar uma estudada antes de encerrar o caso? Apenas lembranças de histórias que já foram chafurdadas inúmeras vezes? Competições que só geram ansiedade desnecessária? Posso ajudar com alguns perfis que merecem ser expulsos da festividade única que é a nossa vida. Se você está num dos perfis, recomendo ir tomar um banho, fazer silêncio por três dias e refletir. Se você acha que não sou sequer um mosquito para recomendar o que cada um faz com sua vida, por que está lendo este texto? Jeez

O EXIBIDO – É um visualizador de oportunidades. Gosta de ter amigos de diversas profissões para sempre ter a quem recorrer num momento de necessidade. Gosta de dizer “tenho uma amiga cozinheira” quando a moda da Gastronomia está em alta e “tenho um amigo gay” desde que foi criado esse fetiche obtuso de que é o máximo ter um amigo gay. Gosta de ter amigos que fazem coisas “incríveis”, então você será visado se viaja para lugares exóticos ou se vive expondo trabalhos em feiras de arquitetura. Se você se tornar famoso, vai aproveitar para crescer em popularidade em cima da sua fama. 

O INVEJOSO – Mais comum do que se pensa, o invejoso pode ser o livro aberto da inveja ou ter artimanhas para esconder seus sentimentos pérfidos. Comportamento: não fica muito feliz quando algo bom acontece na sua vida (quando 10% disso ocorre na vida dele, é motivo para simpósio e champagne), se você consegue um emprego melhor já vai perguntando quanto é o salário (para comparar se você o ultrapassou e quantos reais a mais você tem de felicidade por mês), situações que você vê como boas na sua vida recebem um novo olhar do invejoso – você é mulher que trabalha fora e seu marido está alguns meses sem emprego e cuidando da casa: para vocês, ótimo, para o invejoso, “será que não seria bom que o Alberto trabalhasse fora? Não é estranho que você trabalhe e ele fique desempregado cuidando dos filhos em casa?” (é diferente de você achar algo ruim na sua vida e um amigo concordar; ou seu amigo abrir seus olhos sobre algo ruim que você não via) –, parece vibrar quando algo na sua bela vida dá errado e até acha que você tem o direito de ser feliz, desde que não ouse ser mais feliz que ele. 

O UMBIGO TAGARELA – Muitas pessoas assim passaram pela festa da minha vida. Chegaram como se trajassem Azzedine Alaïa, tomaram conta das jarras de ponche, roubaram o microfone dos rapazes da banda e falaram sobre suas vidas as coisas mais insossas que fariam um coala se tornar maratonista. Urinaram na piscina, trocaram a música do Depeche Mode “por outra muito melhor” e depois foram embora dizendo que foi o evento mais sensacional a que já foram e que “devíamos fazer outras vezes”. Não percebem que estão falando sozinhas no que não é uma conversa. Repetem histórias. Perguntam coisas somente quando querem ganchos para contar seus sonhos e experiências – “já foi a Zurique?” “sim, eu...” “pois é, eu adoro Zurique, quero ver se faço doutorado lá, porque na maior universidade deles há uma linha de pesquisa que...”. Voltam de viagens de três dias à Rússia fazendo análises antropológicas e achando que já podem escrever etnografias sobre o povo russo. Narram cada passo de suas rotinas. Você não fala nada nem em um vigésimo do tempo, mas é chamado de pessoa amiga, simpática, querida. O tagarela é um sanguessuga. 

O PROVOCADOR – Esse é comum desde que determinei que todos os comes e bebes seriam veganos. Não costumo começar nenhuma conversa sobre veganismo. Não tento “converter” ninguém, todo mundo acha que o sabor de pedaços e pus de animais é argumento para comê-los e eu acho isso o cúmulo do hedonismo imoral. Só falo que sou vegana para que cessem de me oferecer comidas. Mas o provocador gosta de aparecer com “desafios”. Suas feições são irônicas (tenho horror a quem dorme e acorda com expressão irônica) porque ele acha que ironia é, obrigatoriamente, sinal de inteligência. Ele aparece e diz, peremptório: “hoje li que algumas marcas de pneu levam cartilagem bovina, fiquei me perguntando se você pega ônibus por ser vegana”. Não é uma dúvida de alguém que ignora e quer saber. É uma provocação. O arzinho é outro. Ele não chega e fala o bom português camaradão. Ele insinua, porque acha que é o maioral, o que sabe das coisas. Chato, cansativo e bobo. 

O DAS INDIRETAS – Você tem o cabelo crespo. Ele diz, numa roda de conversa: “tem gente, por exemplo, que tem aquele cabelo crespo seco e deixa ele solto, por que não fazem um corte melhor ou amarram o cabelo?” Seu namorado é mais novo que você. Ele diz, falando sobre uma mulher mais velha que tentou seduzi-lo: “ah, não, é ridículo namorar uma velha, ela que tire o cavalinho da chuva”. Você está com uma barriguinha, mas numa relação amigável. Ele, magro, diz, quando vai comer um pedaço de bolo: “tenho que me cuidar, estou virando um porco”. Você é uma senhora, mas isso não te impede de usar saias curtas e decotes em festas. Você chega à festa e ele diz sobre uma senhora um pouco mais velha que está com trajes parecidos: “meu deus, lá vai ela achando que é Madonna”. Se você acusa o recebimento da indireta, recebe a contemporização falsa: “ah, mas você não é velha como ela; e a roupa dela é diferente”. Você não tem empregada doméstica nem diarista em casa. Depois de te visitar, ele comenta: “nossa, tenho que ligar para a Fátima, porque hoje em dia qualquer casa sem uma diarista vira um antro de ratos”. As indiretas costumam ser sobre assuntos fúteis. Mas quem quer na festinha da própria vida alguém que sente prazer em sentir desprezo pelos “amigos”? Precisamos que nos elevem (mesmo com críticas, desde que bem intencionadas), não que nos menosprezem.

O QUE SE RECUSA A APRENDER – Interessantemente, nunca gosta muito das nossas recomendações. É avesso a admitir que pode aprender coisas incríveis com pessoas normais como você. Aquele disco que você recomendou? Não achou tão bom. Aquele livro? Era “bonzinho”, mas há melhores. Jamais dirá: “esse autor que você me recomendou se tornou um dos meus preferidos, obrigado” ou “não consigo parar de ouvir aquela música que você me mostrou”. Mas ele gosta muito de recomendar as coisas que ele “descobriu por si”. Às vezes é apenas a recomendação de uma outra pessoa, que pessoalmente ele também trata com certo desdém. Odeia admitir que admira os amigos próximos, porque é tão calhorda que acha que ao elogiar alguém “comum” está se rebaixando. Admirável é o jornalista que recomendou ler Gertrude Stein, não vocêzinho que é metido a intelectual e disse que Mary McCarthy é uma escritora portentosa. Por ser um tipo de arrogante, não merece ódio, mas pena. 

O FÚTIL – Gosta de se atolar na vida das pessoas – dos chefes, dos colegas de trabalho, dos colegas de curso, dos vizinhos – para extrair qualquer coisa curiosa. Gosta de comentar sobre o carro que o vizinho comprou, mas não porque é fã de automóveis, e sim porque em cima disso vai se perder nas questões em série: “como comprou? Por que comprou? Mas com o que ganha poderia comprar? Vai se endividar, só pode”. Faz comentários como “Lucinda é bonita demais para Túlio, devia arranjar outro namorado”, por mais que Lucinda e Túlio sejam muito felizes juntos. Repara se as pessoas têm furos ou manchas nas roupas. Não é idoso e diz aberrações como “Joana está saindo com um moreninho que é até bonito” – quando o “moreninho” é um negro, sem dúvida. Acha que velhos precisam se vestir como estereotipados velhos, gordos têm que se vestir como gordos e chama qualquer excêntrico de “esquisito”. Sente vergonha quando está com alguém “mal vestido”. Adora dinheiro e pessoas com dinheiro. Acha que viver é uma eterna ambição financeira. É difícil falar com ele sobre livros, filmes, música, a menos que sejam os do momento. 

Basicamente, essas são as personas das quais me esquivo. Há outras. E também há aquelas coisas que nos deixam boquiabertos, mas que não são de tamanho suficiente para um rompimento de amizade ou afastamento, como quando um amigo nos cobra os dez centavos que gastamos a mais num café ou nos presenteia com algo sem sentido (uma porcaria barata e feia, porque ele não quis gastar tempo nem dinheiro com o presente). E quem convidar para a festa? Acho que, no fundo, todos nós sabemos quais pessoas nos fazem bem e quais nos fazem mal. O motivo de mantermos tanta gente pavorosa transitando na nossa varandinha e dando pitaco no que fazemos é de ordem cultural: fomos ensinados pelo mundo que a solidão é algo ruim, que todo mundo tem amigos e que as redes sociais só funcionam justamente porque temos um círculo de contatos. Você deve ter contatos. Se não tiver, talvez não saiba lidar com isso, e talvez acabe agravando a situação geral da depressão, um dos grandes males do século. Para mim, é algo difícil de entender: “estou aqui, nesse bar, com essa pessoa modorrenta que não para de falar de si mesma, quando poderia estar em casa vendo um filme; e mais tarde, certamente, tiraremos uma foto para mostrar para todo mundo que estamos por aí, que estamos nos mexendo”. Esse teatro íntimo patético pode ser evitado. Se não sobrar ninguém, isso não será novidade: pessoas louváveis e elegíveis como amigas são raríssimas. Não é à toa que os filósofos se debatem há milênios sobre o problema da amizade: ela é tão excepcional na sua forma verdadeira que aquele que encontra um bom amigo pode se dizer afortunado – é o que diz qualquer filósofo que preste algum bocado. Quem não encontra não precisa se entristecer. Ninguém disse que uma festa não pode ocorrer porque há apenas um convidado nela.

quarta-feira, junho 15, 2016

Rápidas e soltas 11: Duvivier e Millôr, Cosac Naify, Temer


Novamente Gregório Duvivier quer adaptar Millôr Fernandes, o múltiplo, a seus esquadros politicamente corretos. Não é a primeira vez que vem, em coluna, insinuar que Millôr tinha um humor atilado, revolucionário, "crítico", contra-hegemônico. Talvez queira adorar Millôr, mas sabe que não pode porque o humorista-tradutor-autodidata não se encaixa em seu novo espírito de censor que se confunde com amor ao coitado do próximo. Para poder adorar Millôr sem ser apedrejado pela esquerda que promove justiçamentos virtuais, Gregório resolveu "esquecer" o desenho de muitas das facetas de Millôr. "Esqueceu" que já nos anos 70 e 80 Millôr criticava o vocabulário politicamente correto. "Esqueceu" que Millôr criticava o comunismo e o socialismo por seu autoritarismo inerente. "Esqueceu" que Millôr tinha asco do Chico Buarque porque, como dito no Roda Viva, desconfiava "de todo idealista que lucra com o seu ideal". "Esqueceu" que Millôr repudiava outro grupo além dos médicos, dos políticos e dos psicanalistas: o das feministas (aquelas que difamaram o "feministo" Gregório quando ele apareceu numa capa de revista defendendo o aborto: para elas, em outras palavras e de acordo com seu jargão de clube, "roubando protagonismo"). "Esqueceu" que Millôr falava coisas sobre as mulheres – e as meninas de treze anos – que provocariam gritos de seios pelados na Avenida Paulista. Enfim, o Millôr que Gregório louva não existe. Para que Millôr pudesse deixar de ser o desbocado que era e se tornasse o cristão promotor de lava-pés que Duvivier quer que ele seja, seria preciso cortar, queimar e enterrar mais da metade de sua obra. A gente lê A Bíblia do caos e se pergunta se aquele que escreve e aquele que Gregório elogia em colunas esquerdistas é o mesmo sujeito. 

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Algumas de Millôr que foram compiladas no Millôr definitivo: a Bíblia do caos: “Murilo Mendes, mineiro e poeta, sempre com aquele ar de quem compra queijo-de-minas em Amsterdã”; “A boca é o aparelho excretor do cérebro”; “Esnobar/ É exigir café fervendo/ E deixar esfriar”; “Quando um intelectual para de falar parece que está desempregado”; “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!”; “Todo mundo tem uma porção de amigos que detesta e um ou outro inimigo de que gosta”; “Hay gobierno? Soy contra. No hay gobierno? También soy”; “Sempre tive o bom senso de não me aliar nem a grupos de escoteiros nem a grupos políticos, ou mesmo intelectuais e artísticos. Todos os grupos (sobretudo os altamente filantrópicos), ao fim e ao cabo, são apenas agências de emprego para seus membros”; “Uma vida passada entre quadros não faz um conhecedor de arte (vide vigias de museu)”. 

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Comecei a ler Millôr quando estava na sétima ou oitava série. Tomava emprestados alguns livros dele da biblioteca municipal. (Na mesma época, eu lia Agatha Christie com voracidade. Hoje, na estante da minha casa em São Paulo, só faço questão de ter O caso dos dez negrinhos.) Desde sempre gosto de humor e Millôr é muito fácil de ler. Mas mesmo naquele tempo eu já me horrorizava com algumas coisas: os ataques à psicanálise, o endeusamento de mulheres bonitas como as melhores mulheres (não à toa Katharine Hepburn dizia que as mulheres feias entendiam mais dos homens do que as bonitas), o tratamento rude dado às feministas, a crítica a qualquer coisa, seja porque fosse muito conservadora ou muito revolucionária. Millôr era bom, mas não escapava de vaias: como muitos humoristas, usa sarcasmo para encobrir a ignorância sobre certos assuntos. É mais fácil zombar daquilo que se desconhece do que tentar entender e perder a piada. O lema de muitos: "não entendo nada sobre isso, então vou tirar sarro".

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As coisas boas sobrevivem ao tempo. E me parece que somente as boas pessoas valorizam as coisas boas que sobrevivem ao tempo. Quando vejo gentes se debatendo para ir ao encontro de novidades (filmes, música, livros), eu me questiono se isso é amor ou é temporada. Uma novidade pode ser boa, é claro, apesar de ser muito mais fácil que não seja. Mas resistirá ao apelo por modernidade máxima de seus atuais discípulos? Todas aquelas pessoas que ouviam euro dance nos anos 90 e alegavam que aquele era o ritmo de uma era, que aquilo era para dançar ou morrer – nunca mais as encontrei ouvindo AB Logic ou 2 Brothers On The 4th Floor (eu, aliás, ouço). E para onde vão todos os medonhos livros de listas de “mais lidos” após dez ou vinte anos, já que perdemos contato com a maioria deles? 

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Há somente dois seriados que acompanhei por completo: Friends (pela comédia; as cenas de amor são para ir buscar algo na geladeira ou trocar o novelo do tricô) e Sex and the city (pela tremenda empáfia: que mulheres são essas vivendo desse jeito?). Podem me julgar à vontade. Também me julguei. Para me julgar menos, eu colocava legendas em inglês, porque então pensava: “pelo menos estou aprendendo algo”. E aprendi muito. Foi graças a Samantha Jones que entendi o que David Bowie queria dizer com “suck, baby, suck/ give me your head”, de Cracked actor – até então, eu não captava o que era “give a head” para alguém, até porque na época eu ainda não conhecia o ótimo Urban Dictionary (que não é apenas um lugar para conhecimento, mas para diversão: entrar lá e acompanhar as palavras de cada dia é se perder). Recentemente baixei Seinfeld, que tenho visto aos poucos. Mas não entendo se sobra tempo – e para quê – na vida de quem trabalha, dorme, come e acompanha os diversos seriados que surgem a cada estação. E também não entendo como esse tipo de maratonista deprimente se julga no supremo direito de criticar quem assiste a diversas novelas. A falta de critério é muito similar, a fuga para um lugar falso e bobo como uma constante é muito similar. Para mim, sempre foi difícil respeitar quem vê muita televisão: quem mora na rua me parece menos fracassado que isso. Alguns respeitáveis me disseram que Downton Abbey é bom. Talvez eu veja algum dia. 

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Ainda não consegui superar a morte da Cosac Naify, a editora que era como uma xícara de porcelana cheia de café (descafeinado) numa noite fria, como um bolo de fubá com goiabada recém-saído do forno, como o cair da tarde no inverno, como andar de trem na República Tcheca. A Cosac nos proporcionava maravilhas. Existirá outra editora como ela? Tenho sentido a dor da saudade toda semana, porque às terças-feiras a Amazon faz promoção de livros da Cosac a partir do meio-dia (com o fechamento da loja virtual da editora, os livros passaram a ser vendidos pela Amazon) e toda semana tenho aproveitado para comprar o que me interessa. Na quarta os livros já estão aqui. Eu abro a caixa e são só encantos. Quem era o curador dessas obras? Quem escolhia o papel de dentro, o papel de fora, as fotografias, a diagramação, a cor do texto? Quem quase nos mata de sentimento afetivo toda vez que a gente abre um livro da Cosac para ficar estupefato? Eu até sinto vergonha de pagar o valor módico que estou pagando por essas pequenas delicadezas artísticas: os Contos completos de Tolstói, três livros lindos de chorar, numa caixinha graciosa por menos de cem reais é uma mixaria (que é uma palavra que nem combina com a Cosac). Como gosto muito do universo infantil, também compro, de vez em quando, livros infantis da editora: dá vontade de arranjar uma criança educadinha na rua e contar todas as histórias para ela de dentro de uma cabana montada no tapete da sala. Não há dia ruim que resista a ir para debaixo do edredom com Ter um patinho é útil. Quem folheia (sem ler – estou falando, no momento, apenas de apreciar a beleza física dos livros) as Novelas exemplares, do Cervantes, e não se sente emocionado com o trabalho concedido àquele volume não é digno de empatia. 

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Dilma Rousseff é culpada duas vezes, no mínimo: por fazer um governo tão ruim e por nos legar um substituto tão incompetente. Para Temer, eu poderia usar palavras obscuras tiradas de um vocabulário prolixo, mas nenhuma delas teria tanta perfeição de vestimenta quanto: bundão. Bundão porque toma decisões e volta atrás. Não que as decisões sejam acertadas (algumas são, outras, não) e que ele não devesse voltar atrás, mas basta alguém se manifestar – e em São Paulo, é incrível, há manifestação sobre alguma coisa quase todos os dias, seja de taxista, de artista, de feminista, de corintiano ou de sindicato – e tecer críticas um pouco mais severas ao governo que ele coloca o rabo entre as pernas e muda o rumo. “Ah, mas pelo menos nesse ponto ele é democrático, ele está ouvindo o clamor das ruas.” Não é por democracia que ele volta atrás, é por medo. Medo de ser detestado, medo de ser desrespeitado (não chegou a alegar que estavam destratando seu psicológico?), medo de falhar em seu governo provisório. Se espera admiração, não entende muito do espírito das massas. Afinal, quem é que idolatra gente frouxa?

domingo, junho 05, 2016

Textos dos outros: A esquerda e a universidade - Hélio Schwartsman (Folha)


Antes da coluna, um breve comentário meu.

Nas vezes em que discuti sobre universidade pública paga com esquerdistas, ouvi o mesmo argumento, que eles dão como se fosse o encerramento glorioso da discussão: “se alguns tivessem que pagar para estudar, perderíamos a ideia da universidade pública e gratuita para todos”. Se isso pode ser chamado de um argumento completo – eu acho que é apenas o antebraço de um argumento, porque está faltando muita coisa para ter nexo –, é, pelo menos, muito ruim. Que sentido faz o rapaz que sempre estudou em colégios particulares caríssimos ir para a universidade pública sem pagar nada por isso – já que ele pode pagar? Eu certamente não me identifico com os dois grandes blocos posicionais políticos, porque, contra a direita, eu não defendo o Estado Mínimo imediato num ambiente de absurda desigualdade social, e, contra a esquerda, eu não acho que precisamos ser todos o mais iguais possível: uma certa desigualdade é que move o mundo das ideias, infelizmente (ou os românticos acham que as pessoas estudam tanto para entupir o Lattes só por amor ao conhecimento?), e o real problema é quando a desigualdade é avassaladora em vez de natural e saudável. Com exceção das licenciaturas e um ou outro curso marginalizado (como Enfermagem e Biblioteconomia), em que a concorrência para entrada é baixa, grande parte dos acadêmicos das outras áreas provém de famílias com excelente renda. Estudam gratuitamente às custas do governo durante o ensino superior, depois se formam e não retribuem ao Estado o que lhes foi fornecido, porque obviamente não são obrigados: o recém-médico quer montar consultório ou trabalhar em hospitais de renome; não pensa em passar uns anos atuando em postos de saúde e no pronto-socorro de hospitais públicos. Se alguns estudantes precisam de incentivo financeiro para prosseguir com os estudos – como faria a jovem pobre que veio do interior, está morando sozinha num quartinho barato e não pode trabalhar para se custear porque seu curso de Economia é em período integral? –, outros podem pagar, tranquilamente, para se beneficiar do ensino superior público a que sempre almejaram. É lamentável – e estranho, como pontua o colunista Hélio Schwartsman – que a esquerda não perceba essa questão tão essencial. E ela não condiz, afinal, com um dos interessantes lemas esquerdistas: “de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme sua necessidade”? 

*

A coluna, de 31 de maio: 

"O fato de que (...) sejam 'gratuitos' também os estabelecimentos de ensino superior significa tão somente que as classes altas pagam suas despesas de educação às custas do fundo de impostos gerais". Se interpretarmos a frase acima segundo o "Zeitgeist" (espírito do tempo) atual, concluiremos que ela partiu de um neoliberal, ou, pior, de um membro do governo Temer – ambos incapazes de esconder seu ranço direitista.

Seria uma boa aposta. O novo ministro da Educação, afinal, já insinuou que seria favorável à cobrança de mensalidades para alguns tipos de curso em universidades públicas. No mais, estaria no DNA da direita tentar destruir conquistas sociais como a "universidade pública gratuita e de qualidade".

Como o mundo é sempre mais complicado do que nossas palavras de ordem, sinto-me obrigado a revelar que a frase não tem como autor um entusiasta do Estado mínimo como Milton Friedman ou Friedrich Hayek, mas o insuspeito Karl Marx. Ela consta da "Crítica ao Programa de Gotha", de 1875, em que o pai do comunismo faz comentários às teses que os social democratas alemães defenderiam no congresso do partido.

E as críticas do pensador alemão não param por aí: "Isso de 'educação popular a cargo do Estado' é completamente inadmissível. (...) Longe disso, o que deve ser feito é livrar a escola tanto da influência por parte do governo como por parte da igreja".

Como todos os filósofos que pretenderam criar sistemas, Marx cometeu alguns equívocos graves, mas isso não tira dele o mérito de ter sido um grande sociólogo e um arguto observador da realidade. Ao criticar a "universidade pública gratuita", ele só viu o que ela de fato representa: um subsídio que os mais pobres dão aos mais ricos – algo que não combina muito com as ideias socialistas. Seria interessante tentar entender como a esquerda contemporânea ficou tão míope nessa matéria.

quinta-feira, maio 26, 2016

Textos dos outros: A poética da cultura, III - Marshall Sahlins (do livro "Esperando Foucault, ainda", Cosac)


Antes do texto, breves comentários meus. 

Quando estava numa das faculdades que tentei fazer, Ciências Sociais, Foucault era uma sensação, principalmente nas disciplinas ministradas por professores da área de História, que pareciam querer se travestir dele. Fazer um trabalho acadêmico sem citar alguma coisa de Foucault era como ministrar uma palestra sobre frutas e não citar a banana. O micro-poder e o "tudo é poder, escancarado ou simbólico" parecia capaz de explicar qualquer coisa a que quiséssemos nos referir em artigos científicos. Cheguei a ouvir uma professora dizer para um aluno cheio de referências bibliográficas: "sabe o que está faltando e pode melhorar o seu trabalho? Foucault". 

Eu era jovem e influenciável. Por muito tempo achei que Foucault estava trajando roupas nobres e monárquicas que somente eu não enxergava. Depois que passei a ter horror a prolixos desnecessários e teóricos do tudo, comecei a repudiar o que Foucault representava e as pessoas que ele havia influenciado. Procurei por livros que o criticassem de uma maneira acadêmica que eu não seria competente para adotar. Quase nada havia. No meio do quase nada, um livro do Baudrillard que está esgotado há umas duas décadas: Esquecer Foucault (Rocco). Por estar esgotado, mesmo sendo pequenininho custava uma fortuna na Estante Virtual (muitos vendedores de livros antigos supervalorizam livros que não são mais publicados, mesmo que não exista procura), mas comprei, esperando esclarecimentos classudos para as minhas críticas birrentas. Descobri que quem não aprecia o estilo de escrita de Foucault não tem como gostar do estilo de Baudrillard, tão ou mais fresco. Escrito com a caneta do pedantismo francesinho, Esquecer Foucault é difícil de entender, se é que é para ser entendido: nem maçante é a palavra correta para defini-lo. O outro livro do universo do quase nada é o do esquecido erudito carioca José Guilherme Merquior (esquecido, provavelmente, por causa de seus envolvimentos políticos), que estou esperando chegar da Estante Virtual porque também não é mais publicado: Michel Foucault ou o niilismo de cátedra (Nova Fronteira). A obra, que só saberei se é boa depois da leitura, é chamada por Merquior de "antipanegírico". O neologismo é acertado, já que esse francês tem, até hoje, as botas lambidas por universitários e intelectuais preocupados em nomear os bois, mesmo que estejam numa matilha. 



Esperando Foucault, ainda é um livro ao mesmo tempo sério e humorístico do antropólogo americano Marshall Sahlins. Lançado na coleção Portátil da infelizmente finada Cosac Naify, pode ser lido em uma tarde sem filhos. Achei-o por acaso nas promoções dos livros da Cosac que a Amazon tem feito. Nem tudo me interessou nele, mas a parte central, que é a crítica ao delírio pós-modernista do qual Foucault faz parte, é perspicaz e sem rodeios. Num dos curtos textos, Sahlins comenta o modismo dos novos tempos de considerar que tudo pode ser uma cultura, e que qualquer dessas "culturas" merece estudo. Na Universidade de Chicago, um colega de Sahlins ofereceu um curso chamado "blues de Chicago, estudo intensivo de uma cultura". Se o blues de Chicago podia ser chamado de cultura, o futebol americano de Michigan, apreciado por Sahlins, também merecia o mesmo status. Provocador, ele escreveu no quadro de avisos do departamento que ministraria o curso. 

"Devido à impossibilidade da Presença pura, o material do curso consistirá em transmissões de vídeo – consideradas, entretanto, em sua textualidade. Não há pretensão alguma de enunciar uma narrativa-mestra ou totalizada sobre o futebol de Michigan. Quer-se apenas tematizar certas aporias da Power-I formation – ou seja, da subjetividade pós-moderna."

Era uma piada, é claro. O que Sahlins considerou "assustador"? A quantidade de alunos, mesmo pós-graduandos, que solicitaram a inscrição no curso. Qualquer semelhança com o que ocorre no caso que resultou no ótimo Imposturas intelectuais*, de Alan Sokal e Jean Bricmont (Record, esgotado, mas que pode ser baixado AQUI), sobre o qual qualquer hora quero escrever umas palavrinhas, não é apenas coincidência. 
*Aos que têm pouco tempo, mas gostam de livros realmente interessantes que façam alguma diferença num universo de meras árvores mortas processadas, recomendo a leitura, pelo menos, da introdução e do capítulo primeiro, sobre Jacques Lacan. Quem puder ler o livro inteiro, ótimo. Para quem não puder, essas partes já são suficientes para entender a proposta. 

Agora, o texto que tive o prazer de digitar para disponibilizar na internet: A poética da cultura, III

*

A corrente obsessão foucaulti-gramsci-nietzscheana com o poder é a encarnação mais recente do incurável funcionalismo da antropologia. Como seus antecedentes estrutural-funcionalistas e utilitaristas, a hegemonização é homogeneização  a dissolução de formas culturais específicas em efeitos instrumentais genéricos. Tudo o que era preciso saber sobre, digamos, as relações jocosas prescritivas  sua "raison d'être" même  era que contribuíam para a manutenção da ordem social, do mesmo modo que as cerimônias totêmicas ou a magia agrícola organizavam a produção alimentar. Agora, porém, no lugar da "solidariedade social" ou da "vantagem material", o "poder" é o buraco negro intelectual para o qual todo e qualquer conteúdo cultural acaba sendo sugado. Repetidamente fazemos essa barganha idiota com as realidades etnográficas, abrindo mão do que sabemos sobre elas a fim de compreendê-las. Como disse Sartre sobre um certo marxismo vulgar, somos impelidos a tomar o conteúdo real de um pensamento ou ato como mera aparência, e, tendo dissolvido esse particular em um universal (no caso, no interesse econômico), comprazemo-nos em acreditar que reduzimos a aparência à verdade. Max Weber, criticando certas explicações utilitaristas dos fenômenos religiosos, observou que o fato de uma instituição ser relevante para a economia não significa que ela seja economicamente determinada. Mas, se seguirmos Gramsci e Foucault, o atual neofuncionalismo do poder afigura-se ainda mais completo: como se tudo o que pudesse ser relevante para o poder fosse poder.

Assombrosa, então, vem a ser a variedade de coisas que os antropólogos podem agora explicar em termos de poder e resistência, hegemonia e contra-hegemonia. Digo "explicar" porque o argumento consiste inteiramente em categorizar a forma cultural em pauta em termos de dominação, como se isso desse conta dela. Eis aqui alguns exemplos, extraídos dos últimos anos de American Ethnologist e Cultural Anthropology:

1. Apelidos em Nápoles: "prática discursiva empregada para construir uma representação particular do mundo social, [o ato de conferir apelidos] pode tornar-se um mecanismo para reforçar a hegemonia de grupos nacionalmente dominantes sobre grupos locais que ameaçam a reprodução do poder social" [Fora!: não se sabe o que há em um nome, quanto mais em um apelido...].

2. Poesia lírica beduína: esta é contra-hegemônica [Viva!].

3. Moda feminina em La Paz: contra-hegemônica [Viva!].

4. A categorização social de escravos libertos dominicanos como "camponeses": hegemônico [Fora...].

5. O sistema andino de fiestas no período colonial: hegemônico.

6. A "espiritualidade" construída das mulheres bengalesas de classe média, tal como expressa em sua dieta e vestimenta: nacionalismo hegemônico e patriarcado.

7. Certos pronomes vietnamitas: hegemônicos.

8. Lamento funerário dos índios Warao, Venezuela: contra-hegemônico.

9. Construção de casas na base do "faça-você-mesmo" por trabalhadores brasileiros: uma prática aparentemente contra-hegemônica que introduz uma hegemonia ainda pior.

10. O humor físico e escatológico dos homens desempregados da classe trabalhadora mexicano-americana: "uma ruptura opositiva na hegemonia alienante da cultura e da sociedade dominantes".

11. Senso comum: "pensamentos e sentimentos de senso comum não necessariamente tranquilizam uma população inquieta, mas podem incitar à rebelião violenta, ainda que contida".

12. O conceito de cultura como totalidade sem falhas e o de sociedade como entidade de fronteiras bem marcadas: ideias hegemônicas que "mascararam efetivamente a miséria humana e abafaram as vozes dissidentes".

"Uma hiperinflação de significância" seria outra maneira de descrever esse novo funcionalismo que traduz o aparentemente trivial no politicamente retumbante por meio de uma retórica que, tipicamente, lança mão de um dicionário de nomes e conceitos modernosos, muitos deles franceses, uma verdadeira La Ruse* do pós-modernismo. Evidentemente o efeito final, ao invés de amplificar a significância dos apelidos napolitanos ou dos pronomes vietnamitas, trivializa termos como "dominação", "resistência", "colonização", e mesmo "violência" e "poder". Privadas de referência real-política, essas palavras tornam-se puros valores, cheios de som e fúria, que não significam nada... exceto o falante.

* Jogo de palavras entre Larousse, o dicionário, e "la ruse", "a manha" ou "a astúcia". [N. T.]

Em SAHLINS, Marshall. Esperando Foucault, ainda. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 

Há, ainda, uma resenha de Lilia Moritz Schwarcz sobre o livro: AQUI.

segunda-feira, maio 16, 2016

Rápidas e soltas 10: Temer, Doria Jr., Ainda saltos altos, Aborto


Quando faço críticas à esquerda e à direita brasileiras, baseio-me nesse corporativismo do “quem está errando?”, quando o certo seria perguntar “mas o que estão fazendo?” É isso que devemos, na maior parte do tempo, pautar quando falamos de políticos, porque o partido ao qual alguém é filiado não deveria servir como atenuante na hora de definir a pena inicial. Mas isso é algo a se pensar a respeito do Brasil. Aqui é que um partido social-democrata se une ao DEM (antigo PFL, cujas origens todos conhecemos) e um partido “que sempre foi oposição e a voz do povo” se une ao PMDB e ao PP de Maluf. Esquerda e direita politicamente teorizadas não fazem nenhum sentido com a esquerda e a direita praticadas. Enfim, estou chovendo no molhado. 

*

Petistas que se sentem arruinados com a saída provisória daquela que chamavam, antiquadamente, de “Dilmãe”, dizem que Temer não pode assumir “porque não foi eleito”. É verdade, Temer não foi eleito e nem seria eleito caso se candidatasse sozinho. Mas Dilma só se aliou a ele e seu partido porque isso angariaria votos. Com a pequena diferença entre ela e Aécio no segundo turno, se não fosse a aliança com Temer, Dilma não teria vencido as eleições. Isso nos leva à conclusão de que Temer foi muito útil para que a presidente, que agora descansa, pudesse se reeleger. O vice decorativo não foi tão decorativo. 


Não entendo de política e sistema eleitoral tanto quanto eu gostaria (dezenas de assuntos me agradam e não consigo me dedicar plenamente a todos), mas na minha opinião o correto seria que Dilma e Temer fossem cassados juntos. O programa de governo que foi divulgado em campanha e depois não foi implantado pertenceu à chapa deles. Temer não demonstrou, em nenhum momento, discordância sobre as pedaladas e os créditos suplementares praticados pela titular – foi conivente e cúmplice. Com a chapa cassada ainda este ano, teríamos novas eleições. Gilmar Mendes, ministro do STF que muitos execram simplesmente por ser tão legalista (coisa que muito juiz é por dever – o que deveria nos conduzir a uma crítica mais forte às leis que aos juízes que apenas têm a obrigação de aplicá-las), disse que a possível cassação de Temer é algo para se discutir após o término da investigação sobre os crimes de responsabilidade de Dilma. Nesse ritmo, mesmo que Temer venha a ser cassado com ela, isso aconteceria somente no ano que vem. Acontecendo somente no ano que vem, adeus eleições diretas. Falar em reforma política nunca pareceu tão necessário. Nem nunca pareceu tão utópico, se observarmos quem votaria a possível reforma – os “representantes do povo” eleitos pelo povo. Cada vez mais questiono o benefício da democracia. Para mim, é como alguém dizer que a Coca-Cola é algo excelente porque a maioria das pessoas opta por tomá-la – mesmo que faça mal à saúde e represente “as grandes corporações” que sobrevivem de manipulação propagandística (não é em vão que marcas de imenso porte como ela investem fortunas em publicidade). A democracia tornou presidente das Filipinas um homem que defende a matança de criminosos (usuários de drogas são, lá, criminosos) e debocha do estupro. Em 1989, depois de uma missionária australiana ser feita refém com outras mulheres em uma rebelião presidiária, ter sido estuprada e morta, ele disse, enquanto prefeito da cidade onde ocorreu o crime: “Quando vi seu rosto, pensei: 'que merda, que lástima!' Estupraram-na e fizeram fila para isso. Era tão bonita que o prefeito deveria ter sido o primeiro”. Esse homem foi eleito presidente pela maioria dos filipinos. Aqui, também temos casos aberrantes eleitos pelo povo: Bolsonaro, seu filho, Eduardo Cunha, toda a bancada evangélica que defende a internação dos homossexuais, os débeis do PCdoB que apoiam a Coreia do Norte, deputados que fazem vista grossa sobre o que ocorre na Venezuela (pessoas passando fome e oposição sendo assassinada em manifestações – os mesmos deputados que rechaçam o gás de pimenta dos policiais brasileiros parecem achar “merecido” que manifestantes sejam mortos no país hermano). A quem serve esse modelo em países pobres e/ou de pouca educação em que as pessoas são fantoches? Um povo sem instrução só pode fazer uma democracia perversa. 

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João Doria Jr., candidato pelo PSDB à prefeitura de São Paulo, disse em entrevista qual seria sua primeira medida como prefeito: voltar a aumentar a velocidade permitida nas Marginais. Já se provou que a diminuição do limite evitou mortes e possibilitou que mais carros pudessem transitar pelo espaço num dado tempo, mas Doria Jr., que tem pressa e acha que a questão do limite de velocidade é urgente para uma cidade como São Paulo, pensa que é isso que ele tem que apresentar ao eleitor. A violência e os alagamentos são coisas secundárias. O que importa é que o playboy – ninguém deve se sentir culpado por ter meramente nascido em um lar de ricos, mas agir como se a sociedade lhe devesse sandálias de ouro é algo para se envergonhar – possa chegar mais rápido a seus jantares de negócios. 

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“Julia Roberts subiu os degraus do famoso tapete vermelho do Festival de Cinema de Cannes descalça, um ano depois que várias mulheres foram impedidas de entrar em uma première do festival por não estarem de salto alto.” (Estadão) Li essa matéria poucos dias depois de ler que uma mulher tinha sido demitida por se recusar a usar salto alto no trabalho, já que não havia justificativa de que os saltos fossem imprescindíveis para a realização do serviço (tanto é que os homens, na mesma função, não usavam salto). Sei que muita gente acha salto uma coisa linda, que muitas mulheres têm horror a suas baixas estaturas e por isso usam salto e que esse estilo de sapato está associado ao glamour. Mas é simplesmente ridículo que mulheres se submetam a certos tipos de salto, na maioria das vezes por desejo (e não por exigências empregatícias), para viver o cotidiano. Que tipo de esclarecimento postural tem uma pessoa que por vontade própria calce algo desconfortável que se tem pressa de tirar ao final do dia? Não sou contra o estilo, a beleza, as passarelas. Leio revistas de moda desde que sou criança, acho incríveis as propostas da Stella McCartney e as cores predominantes (vermelho e preto!) da Dolce & Gabbana, vivo arrancando páginas da Harper's para colocar na minha pasta quero-costurar-isso/preciso-encontrar-isso-num-brechó. Mas beleza não chama, necessariamente, desconforto. Podemos ser belas, estilosas – e confortáveis. Ninguém precisa sofrer para estar bonita. Para roupas e acessórios, aplico a mesma regra que aplico ao clima: se estou pensando demais a respeito, é porque não está agradável. Estou pensando que minha blusa está apertada e por isso fico a “folgando” o tempo todo? Deve ser uma blusa errada. Estou pensando no quanto esse sapato me aperta? É sinal de que o sapato não presta. Tenho que tomar quinze cuidados toda vez que vou me abaixar com esta saia? Tchau, saia, ou apenas sirva para ensaio em fotos. 

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Não estou imune aos erros do discurso coletivizante de rebanho. Ao ouvir tantas feministas dizendo que “o aborto deve ser permitido por lei porque muitas mulheres já o praticam clandestinamente”, reproduzi essa bobagem. Depois fiquei arisca a respeito desse argumento e fui ler o que diziam os contrários ao aborto (repito: é sempre bom lermos o que aqueles que discordam de nós têm a dizer, até porque muitas vezes eles nos obrigam a melhorarmos nossas assertivas). Um jurista disse o óbvio: então tudo que é praticado fora da lei deve deixar de ser crime? Vamos descriminalizar o roubo, o estelionato, o homicídio. Em resumo, a abordagem “todo mundo já está fazendo” não vale nada. O sujeito que é contra o aborto não quer saber se mulheres pobres estão matando fetos desde sempre. Para ele, um feto é uma vida que precisa ser preservada, até mesmo de sua depositária. O que é importante fazer é contrariar esse sujeito em sua crença de que uma porção de células sem sistema nervoso, capaz de gerar interesses e dor, é uma “vida”. Se declaramos que alguém está morto e apto para doar órgãos após a morte cerebral, não faz sentido que achemos que aquele que não tem vida cerebral precisa de proteção estatal. Claro, sou favorável ao aborto somente até esse ponto em que o embrião não é capaz de sentir nada, em que é apenas um agrupamento celular (como minhas unhas o são). Radicais do “meu corpo, minhas regras” que acham que um bebê de seis meses poderia ser abortado “pelo direito da mulher de decidir” não têm meu apoio. Nem o apoio de nações civilizadas. Os inúmeros países europeus que permitem o aborto estabelecem limites: a média consensual é de 14 semanas. Por que não copiamos essas nações? Porque nosso Estado não é laico e as religiões dominam espaços públicos. Portugal, França e Itália, países católicos, permitem o aborto. No mapa das leis do aborto (é excelente vê-lo e explorá-lo: AQUI), o Brasil está em vermelho, junto a países atrasadíssimos da África. Alguma esperança de que deixem de tratar punhadinhos de células como indivíduos? Nenhuma, da minha parte, já que mesmo o governo provisório de Temer fez inúmeras alianças com lideranças evangélicas. Se Dilma, mulher e autointitulada esquerdista, não fez nada por esse avanço – sequer levantou o mérito da questão –, que diremos de um interino que tem a indecência intelectual de cogitar colocar um criacionista para cuidar da Ciência no país? Num país tão pobre e populoso, crianças indesejadas devem continuar vindo ao mundo para satisfazer os anseios de retrógrados. Onde costumam nascer? Em comunidades pobres. O que geram com seu nascimento indesejado? Mais pobreza. 

*

Falo tanto de controle de natalidade que podem achar que considero a ideia uma solução mágica. E considero, mesmo. Um filho tende a ser melhor educado, nutrido, amado que quatro. Quando um casal pobre tem quatro filhos, a tendência é que a pobreza aumente. Dificilmente o casal conseguirá transformar sua família numa grande história de superação da miséria econômica e educacional (tanto é que quando algo assim acontece vira matéria especial de jornal). Esquerdistas fanáticos dizem: “o problema não são os pobres que têm filhos, pois eles já têm bem menos filhos que no passado!; o problema é o governo que não dá assistência!” Sim, os pobres têm menos filhos que no passado. Antes, eram nove ou dez por família. Agora são três ou quatro. Mas três ou quatro ainda é demais para quem não tem condições nem de cuidar de si mesmo. Isso que defendo não é sintoma de horror aos pobres. É sintoma de horror à pobreza, que é um dever moral.