quinta-feira, dezembro 08, 2016

Textos dos outros: No caso Renan, Cármen Lúcia foi mais 'articuladora política' que magistrada - Josias de Souza (UOL)


Um breve comentário meu antes da coluna. Em tempo de opção por atalhos de ideias, em que se pega carona nas postagens de formadores de opinião das redes sociais para poder papagaiar sobre todos os assuntos (essa preguiça intelectual não é exceção, é regra; e não estou dizendo isso para mandar indiretas para meus inimigos, não, porque meus próprios amigos fazem isso, o que é vergonhoso), acho recomendável voltar a alguns bons e velhos opinadores de jornais. Desses que vão pegar o fato no ato, que quebram a cabeça para não publicar besteiras, que vivem de pesquisar para escrever (em vez de escrever para conquistar, coisa de vaidosos mais preocupados com suas imagens que com a verdade). E, claro, preferencialmente devemos voltar aos opinadores sóbrios e razoáveis, que não se deixam encantar por belos oradores políticos nem defendem fórmulas abjetas como "para os amigos tudo, para os inimigos a lei", tão vezeiras entre fanáticos ideológicos. Opinadores sóbrios costumam estar cercados de livros (que são lidos, não apenas decorativos). Opinadores sóbrios costumam não arder de febre nem espumar pela boca ao tratar de figuras apodrecidas particulares que são como tantas outras figuras apodrecidas, ou seja, eles não criam obsessões sobre certos personagens, não têm fixação num determinado sujeito X. Por essa já sabemos que Marco Antonio Villa e Guilherme Boulos não são sóbrios. Opinadores sóbrios não costumam gerar alvoroço no populacho, porque o populacho gosta de opinadores calientes, maniqueístas, que batem na mesa, abusam dos pontos de exclamação, confundem ser debochado com ser atilado (no sentido de que todo debochado é, necessariamente, um perspicaz), acham que vieram para instaurar uma revolução das ideias, têm-se em altíssima conta. Por último, opinadores sóbrios embaralham a mente "quem presta versus quem não presta" daqueles que têm espaço craniano para guardar um sanduíche (baguete), pois esses terminam uma coluna, uma série de postagens ou um livro do opinador sóbrio e se perguntam, sem corar: "mas de que lado ele está?" Num país broncamente dividido em lados, querer servir à verdade é ocupar o espaço ínfimo e desconfortável de uma aresta. 

Aos avarentos: o Blog do Josias de Souza fica hospedado no UOL. Portanto, não é preciso ser assinante para acessar. 

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Quem dispõem de poder e o exerce de forma arbitrária, erra o alvo. Quem abre mão de exercer o poder de que dispõe vira o alvo. Nas 48 horas que antecederam o julgamento da ação envolvendo Renan Calheiros, a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, atuou mais como articuladora política do que como magistrada. Com isso, contribuiu para solidificar a ideia de que a democracia moderna no Brasil é constituída por três poderes: o Executivo, o Judiciário e, acima de ambos, Renan Calheiros.

O blog ouviu duas das pessoas com assento no plenário do Senado que conversaram com Cármen Lúcia. Uma procurou a ministra. Outra foi procurada por ela. Ambas traçaram um cenário apocalíptico. Era como se a liminar do ministro Marco Aurélio Mello ordenando o afastamento de Renan do comando do Senado tivesse eliminado o chão da República. Diante da novidade, os políticos comportavam-se como se vivessem uma cena de desenho animado.

Nos desenhos animados, quando acaba o chão, os personagens continuam caminhando no vazio. Só caem quando percebem que estão pisando o nada. Se não se dessem conta, atravessariam o abismo. Os interlocutores de Cármen Lúcia defenderam, em essência, a tese segundo a qual o plenário do Supremo deveria eliminar o abismo aberto por Marco Aurélio com rapidez, antes que a República olhasse para baixo.

“Me ajude a pacificar essa Casa”, rogou Cármen Lúcia em telefonema a uma das pessoas às quais recorreu no Senado. “Se tirar o Renan daquela cadeira, o governo do Michel Temer acaba”, disse a voz do outro lado da linha, segundo relato feito ao blog. “O vice do Renan é do PT, Jorge Viana. Ele não tem compromisso nenhum com a agenda econômica do governo. O PT quer implodir os planos do governo.”

A tese de que Renan é um pilar da República tornou-se um conto do vigário no qual Cármen Lúcia caiu. Convencida de que Renan é o outro nome de governabilidade, a ministra entregou-se à abertura da trilha que levaria à porta de incêndio. Reuniu-se com o vice de Renan, o petista Jorge Viana. Franqueou os ouvidos às ponderações do presidente do PSDB, Aécio Neves. Chamou colegas de tribunal ao seu gabinete. Tocou o telefone para outros.

Ao votar na sessão em que o Supremo brindou Renan com um afastamento meia-sola —ficará proibido de substituir o presidente da República, mas permanecerá no comando do Senado— Cármen Lúcia como que resumiu o sentimento que a norteou: “Em benefício do Brasil e da Constituição da qual somos guardiões, neste momento impõe-se de forma muito especial a prudência do Direito e dos magistrados. Estamos tentando reiteradamente atuar no máximo de respeito e observância dos pilares da República e da democracia.”

Quatro dos seis ministros que votaram a favor da fórmula que levou Renan a soltar fogos na noite da véspera do julgamento mencionaram razões políticas em seus votos. A manifestação de Luiz Fux beirou o escracho. Ele disse que o Brasil vive uma “anomalia institucional”. Acrescentou que o afastamento de Renan seria mais ruinoso que sua permanência. Sem ele, estaria comprometida toda uma agenda nacional que exige deliberação imediata do Congresso.

Ficaram boiando na atmosfera as palavras do relator Marco Aurélio: “Hoje, pensa o leigo que o Senado da República é o senador Renan Calheiros. […] Diz-se que, sem ele, tomado como um salvador da pátria amada, não teremos a aprovação de medidas emergenciais visando combater o mal maior, que é a crise econômico-financeira. […] Quanto poder! Faço justiça ao senador Renan Calheiros. Tempos estranhos os vivenciados nesta sofrida República.”

Na sua vez de falar, o procurador-geral da República Rodrigo Janot também borrifou desalento no plenário. Como que antevendo o triunfo de Renan, ele indagou: como compatibilizar a situação do senador “com o princípio da moralidade”? Mais: “Como valorizar o primado das leis e do Estado de Direito com um réu em ação penal à frente da chefia do Estado brasileiro.” Pior: “Que mensagem e que exemplo que esse estado de coisas daria para as nossas crianças, adolescentes, brasileiros do povo em geral?”

Quando a posteridade puder falar sem pudores sobre o striptease que o Supremo Tribunal Federal teve de fazer, sob Cármen Lúcia, para dispensar a Renan Calheiros o tratamento que a moralidade e a Constituição sonegaram a Eduardo Cunha, os livros de história irão realçar: a pretexto de salvar o Brasil do Apocalipse que sobreviria ao afastamento de Renan de uma poltrona que ele só vai ocupar por mais dez dias, o Supremo Tribunal Federal expôs seus glúteos na frente das crianças.

segunda-feira, novembro 28, 2016

O inferno são os outros e o Estado


Falemos sobre tagarelas. Mas de um tipo específico, já que há tantos. Desses tantos poderíamos citar alguns exemplos muito comuns. Existe o tagarela narcisista que não se cansa de falar sobre si em redes sociais ("isso é muito eu", e dá-lhe astrologia e outras besteiras que não acrescentam nada a ninguém, e não faltam idiotas para aplaudir outro idiota autocentrado) ou em presença, o que inibe a fuga. Existe o tagarela inculto que acha que é culto (talvez você que esteja me lendo e começou a pensar "é isso, Barbara, fale desse pessoal") porque "se preocupa com o baixo nível educacional do país". Basta assistir a entrevistas genéricas sobre educação feitas com o povo, que não é "educado" nesse sentido, em que se obtêm respostas como "ah, é muito ruim" sem que ninguém se veja como parte do problema... ou mesmo ler comentadores no site da Folha de S. Paulo esbanjando péssima ortografia em reportagens sobre a performance do Brasil no IDEB... ou acompanhar papudos que vivem, e isso não é mera força de expressão, conectados reclamando da educação, e então você se pergunta quando, entre dormir-comer-trabalhar-e-estar-conectado, essa turma tira um tempo de qualidade para se educar. Tudo bem, talvez achem que já estão participando da nata intelectual do país e por isso não precisam estudar mais. É o velho provérbio de que o tolo pensa que sabe tudo e o sábio admite que há muito para se aprender ainda. Sugiro que alguns dos que se acham cultos aproveitem o finalzinho do ano, peguem um papel, uma caneta e anotem todos os livros que leram na íntegra em 2016. A miséria de leituras, ou a miséria de leituras sérias, talvez dê um basta em tanta patifaria nos ilustres "preocupados com a educação" que só leem na internet e pegam atalhos sobre assuntos sérios junto aos “formadores de opinião”. Isso também vale para a imensa maioria dos estudantes de crânio ventoso que estão invadindo escolas. Existe o tagarela esquerdista, que pelo vício severo da problematização acaba mergulhando num oceano de contradições. Ele precisa opinar, precisa criar um problema sensibilizador em cima de qualquer piada, notícia, cabelo crespo e “homem que se diz feminista mas não namora trans”. A da vez: é errado que populares, ao encontrarem Cunha em aeroporto, comecem a xingá-lo e empurrá-lo, assim como é errado e irracional que o vídeo de Garotinho se debatendo pateticamente numa maca seja visto com escárnio. Há pouco mais de um ano esses mesmos problematizadores estavam dizendo que o jornal Charlie Hebdo foi atacado e seus jornalistas foram assassinados porque “ninguém mandou brincar com a religião alheia”. Quem não disse isso com essas palavras francas, contemporizou: “não sei quem é pior, não sei quem defender – se os jornalistas que debocharam da fé de um povo ou os assassinos”. Eles não sabiam se defendiam os assassinados por causa de uma charge ou os assassinos, repito. Cunha e Garotinho, ladrões que surrupiaram milhões, ladrões que gastaram dinheiro que era para ser público com roupas de grife, hotéis luxuosos, viagens, joias, ladrões que viviam na farra enquanto o povo os custeava – não podem ser motivo de zombaria nem de quase-surras de populares. Mas jornalistas que fizeram charge com Maomé “praticamente pediram o que tiveram”. Benditos aqueles que não têm nada a dizer e não dizem, escreveu algum pensador que era avesso a tagarelas. Sobre Fidel Castro que fuzilou pessoas quando já não estava mais em rebelião para tomar o poder? Silêncio. Ou contornos imorais: “Fidel matou, mas o capitalismo mata muito mais”. Aécio Neves supostamente bateu na mulher numa festa? Fogueira, histeria, urros. Um almofadinha não pode bater em mulher, mas um esquerdista pode fuzilar dezenas de inimigos em nome da “revolução”. Algo cheira muito mal no bueiro que é a boca desse tipo de falante. Só gritam rasgando a camisa quando o problema atinge sua ideologia ou corporação. Não vejo outro nome para isso senão canalhice

A figura pitoresca da vez, que é, sim, um tagarela (a maior parte dos males humanos passa pela tagarelice, e é por isso que nunca temos coisas más para falar dos animais – em não tagarelar reside parte de sua grandeza), pensa que o inferno são os outros e o Estado. Não que eu também não pense isso em alguns casos. Mas a cada dia trabalho para me afastar da vertente pérfida desse pensamento.

O bordão daquele que pensa que o inferno são os outros e o Estado é “alguém tem que fazer alguma coisa”. Alguém. Quem? Alguém. Alguém nunca sou eu, meus pais, meus familiares, meus amigos. Alguém está sempre adiante ou ocupando um cargo político que eu espero ser patronal. Alguém. Um cachorro agoniza na calçada da minha casa. Alguém tem que fazer alguma coisa. Há gente pobre morando nas ruas. Alguém tem que fazer alguma coisa. A educação do país é um espanto. Alguém tem que fazer alguma coisa. Empresas gigantes estão comprando empresas pequenas e criando oligopólios com ânsia de futuro monopólio. Alguém tem que fazer alguma coisa. Empresas das quais todo mundo sabe o nome utilizam trabalho escravo. Alguém tem que fazer alguma coisa. Grande parte dos produtos chineses vem de exploração humana retribuída com ninharia. Alguém tem que fazer alguma coisa. O chefe de uma repartição pública criou esquemas para ganhar dinheiro ilegal em licitações. Alguém tem que fazer alguma coisa. O problema nunca sou eu. E a solução nunca sou eu. O problema são os outros. E quem tem que resolver são os outros – e o Estado.

Um casal pobre e preguiçoso da cidade de São Paulo tem quatro filhos. Não foram planejados. Não estão recebendo educação adequada. Para quem pensa que o inferno são os outros e o Estado – vamos chamá-lo de infernizado –, talvez seja obrigação do Estado arranjar lugar para todas essas crianças. Em tempo de campanha política, ele vai gritar “mais creches!” porque acha que é função do Estado, pai bunda-mole, aceitar qualquer escultura de papel machê que seus filhos trazem para casa e chamar isso de arte. E colocar na estante da sala. Porque o Estado paternal está aqui para cuidar de você, e não para também receber contrapartida, que é você lutar para cuidar dele. O papel do Estado é aceitar que seus filhos tenham a prole que bem entenderem, e crie, de um dinheiro que aparentemente cai do céu (parece que muitas vezes é isso que o infernizado pensa sobre o dinheiro estatal), o número de creches que seus filhos precisarem. Grita-se “mais creches!” em vez de “mais políticas de controle de natalidade!” porque o Estado tem que dar assistência. Ou é incompetente. Ou é contra os pobres. Se o Estado aceitar criar mais creches, mas passar a cobrar mais impostos da população por isso, o infernizado chiará. A falta de creches é problema do Estado, não do infernizado, então o infernizado não pode ser cobrado por isso. O Estado, esse ente mágico que cria creches cruzando os bracinhos após sair de uma lâmpada. Pista: esse Estado é loiro e vive dizendo “sim, amo”.

Uma rede de fast-fashion é associada a trabalho escravo. Colônias de trabalho escravo são noticiadas não uma vez, mas várias. Quando a notícia é apresentada, o infernizado se comove, arregala os olhos ao ver a condição em que trabalham e vivem os bolivianos, faz uma palestrinha para os colegas sobre “como é dura a vida de quem é escravizado pela empresa X”. Alguém tem que fazer alguma coisa. O Estado tem que fechar a empresa. Algum órgão regulador deve multá-la com um valor exorbitante. Mas eu, bom, eu, o infernizado, continuarei comprando desta marca e de marcas similares, pois é função do Estado fechar a empresa, e não é minha função parar de comprar. Além do mais, uma belíssima blusa dessa marca custa setenta reais, enquanto uma similar feita por assalariados com direitos trabalhistas respeitados custa cem. Eu até boicotaria a empresa, caso os preços não fossem tão atraentes. O problema não sou eu que compro roupa oriunda de exploração humana, o problema é o Estado não fechar a rede de lojas dessa marca. E vou seguir reclamando que o Estado é o maior culpado pelo trabalho escravo promovido pela marca. E vou continuar achando “horrorosos” aqueles senhores de escravos que se utilizavam de trabalho humano forçado no século XVIII.

Eu, o infernizado, vejo no YouTube a entrevista que o Professor Pasquale concedeu ao Antônio Abujamra no antigo programa Provocações, da TV Cultura(1). Considero importantíssimo o que ele fala sobre educação; sobre o Brasil ser um país que não lê; que, quando lê, lê mal; que muitos têm desgosto pela leitura porque não gostam da solidão, o que prova que não gostam de si mesmos. Acho uma crítica acertada e bonita. Quero falar para todo mundo dessa entrevista e também protestar para que o governo invista mais em educação, porque do jeito que está não dá, há universitários que não sabem interpretar textos simples, etc. Saio do YouTube, vou para uma rede social. Posto o vídeo para meus amigos. Escrevo uma pequena queixa sobre o desleixo que é o sistema de ensino do país, e repito que ninguém lê livros. Depois, passo horas no computador vendo vídeos de outros revoltados como eu. Então assisto ao jornal. Vou comer. Vejo se recebi algum e-mail ou curtida. Vou dormir. Acordo e vou checar minhas redes sociais. Saio mais cedo de casa para comprar um videogame para presentear meu afilhado, “aquele figuraça” que passa noites jogando. Vou para o trabalho. No intervalo, almoço e converso com colegas sobre banalidades e fofocamos sobre outros colegas. No final do dia, volto para casa. Faço maratona de séries. Tiro fotos minhas com ar PJ Harvey. Posto na internet. Vejo que um amigo curtiu minha postagem sobre o problema da educação no Brasil e recomendou outro vídeo, de um vlogueiro que comenta, com estatísticas e comparações com outros países, o quanto somos atrasados. Escrevo que é por isso que o país não vai para a frente e digo que o professor é mal valorizado. Também lembro que meu TCC que está na biblioteca da universidade nunca foi tomado emprestado por ninguém, ou seja, ninguém quer saber desse conhecimento maravilhoso sobre o qual me debrucei obrigatoriamente (para poder me formar) enquanto estava na faculdade, esse conhecimento sobre qual era a relação entre patrões e empregadas na indústria têxtil de Brusque nos anos 60. Reflito com meus contatos que, poxa, um tema tão instigante não foi buscado espontaneamente por ninguém na biblioteca. Termino minha apresentação diária para o mundo, minha farsa, vou dormir. Não costumo ler livros, não tenho tempo. Talvez leia dois ou três por ano. Não estudo idiomas porque acho que os cursos são caros e estou pagando prestações do meu carro. Nunca li o TCC de ninguém na biblioteca da universidade, exceto o meu. Entreguei meu TCC em cima da hora porque não tinha paciência para terminar a parte terceira e fazer a conclusão. Encerrei o texto às pressas e acho que isso pode ser chamado de conhecimento científico. Quando estou em casa à noite, gosto de ver séries. Um dia quero fazer uma pós-graduação em Sociologia, porque sempre gostei dessa matéria. Não compro livros de Sociologia para ler. Lerei quando um professor me obrigar a isso na pós-graduação, que é quando a leitura terá alguma utilidade para artigos e seminários. Mas o problema da educação no país é muito grave. Ninguém quer saber de ler livros, como disse o Pasquale. Somos vergonhosos no ranking de proficiência no inglês como segunda língua. A maior prova de que não há vontade de conhecimento é que ninguém nunca tomou emprestado meu TCC na biblioteca. O governo tem que fazer alguma coisa, por exemplo, investir mais em educação. As pessoas deveriam ler mais. O problema da falta de cultura intelectual do Brasil não sou eu, que passo muito tempo na internet, faço maratona de séries, prefiro papo-furado a uma leitura na hora do intervalo no trabalho, finjo que livros são caros demais para mim, mesmo ganhando mais do que a média. O problema são as pessoas que não leem livros. O problema é quem assiste ao Faustão. O problema são os nordestinos que “falam errado”. O problema são os adolescentes que “não querem saber de nada além de diversão barata”. O problema é o governo que não investe 30% do PIB em educação.

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Acho bizarras essas leituras de mundo. “Vejo o problema. Faço parte do problema. Mas não faço nada. Não faço nem a migalha que está ao meu alcance, porque meu negócio não é fazer, é tagarelar. Eu poderia simplesmente calar a boca. Mas como vou me vender com a boca calada?”

Outro bom exemplo sobre o inferno que são os outros vem da minha história de empregos. Posso dizer que cresci financeiramente no decorrer dos anos, o que foi muito reconfortante não só porque é bom ter dinheiro, mas porque vim de uma família que sempre viveu quebrada – e eu, de certa forma, consegui sair da inércia da pobreza que poderia me estar destinada. É uma dádiva você querer alguma coisa e poder comprá-la sem se preocupar se o valor gasto num novo tênis vai fazer falta na feira da última semana do mês. Estou muito satisfeita com o que recebo em contrapartida pelo que faço. Mas em nenhum emprego em que trabalhei deixei de conhecer imensos insatisfeitos, e insatisfeitos que achavam que a real mordomia, o privilégio e a abundância estavam no andar de cima. Comecei como estagiária. Achava que ganhava pouco, como os outros estagiários também achavam. Achava pouco, e naquela época não havia férias, mas na verdade era o bastante para o que fazíamos e para a oportunidade de aprender e adquirir experiência. Depois trabalhei por um mês numa padaria, num período da minha vida que costumo chamar de “a treva”. Para minhas colegas de trabalho, o problema local eram os funcionários públicos, principalmente os da prefeitura, vistos quase como marajás – ideia que valia tanto para os amigos do prefeito quanto para aquele auxiliar administrativo seboso que ainda passava gel no cabelo. Passei num concurso da prefeitura, fui trabalhar numa creche. Anos depois, começaram a construir um prédio de Instituto Federal em frente à creche. “Esse pessoal ganha bem”, era o que se dizia, e muitas vezes isso era dito com ranço. Abriu o concurso. Fiz, passei. Atravessei a rua. Meu salário era ótimo para o nível de ensino requisitado: com a exigência de ensino fundamental eu ganhava mais que pessoas graduadas do meu convívio trabalhando para empresas privadas. Quando fiz greve, pedi reajuste, e não aumento salarial. Meus colegas estavam satisfeitos? Não. Além de alguns quererem que coisas absurdas virassem pauta de reivindicação – o governo pagar a gasolina dos funcionários para que se deslocassem de suas casas até o trabalho –, havia o monstro do andar de cima que era o câncer do país: o pessoal administrativo do Judiciário. Não existiu greve em que o Judiciário não ocupasse seu lugar como parâmetro, como coisa enojante, como parasita, como “o vale-alimentação dos ricos”. E qual foi uma das primeiras reclamações que ouvi ao entrar para o corpo administrativo do Judiciário, onde eu ilusoriamente pensei que estaria entre gente grata? Que o salário dos juízes era muito alto e que “o nosso” salário não é o bastante. Hoje eu me pergunto de que salário os juízes devem reclamar. Porque ninguém está satisfeito e ninguém é parte do problema. O outro é que ganha demais, e todo mundo tem um outro para querer se equiparar. Deve ter sido assim que certos cargos públicos acabaram sugando tantos recursos, num efeito cascata assustador. Você conhece alguém que admite ganhar o suficiente? Nem faxineiras, nem gerentes, nem políticos. 

A esquerda brasileira fala de taxar grandes fortunas. Eu concordo, até que alguém me convença do contrário – sou sincera quando digo que estou aberta a mudar de opinião e a prova de que isso é verdade está no fato de que já mudei muitas vezes de opinião. A questão é que essa medida não substituiria a PEC dos gastos. Mesmo que fortunas sejam taxadas, o problema da dívida brasileira estará longe de ser resolvido. Mas o mais interessante é quando você vê, por exemplo, professores universitários muitíssimo bem remunerados defendendo que grandes fortunas sejam taxadas. O negócio não é com eles, claro, porque o que recebem não pode ser chamado de fortuna. Mas não será na faixa de salário de muitos desses professores universitários que o governo deveria começar a cobrar mais impostos? Se o salário médio no Brasil gira em torno de R$2.300, o que leva alguém que recebe 12 mil por mês a achar que é o andar de cima, o da fortuna, que deve pagar a conta sozinho? É claro que nós não vamos ouvir ninguém dizendo “nós, desta faixa salarial, deveríamos ajudar a pagar a conta”, porque ninguém acha que é parte do problema. O inferno são os irrisórios afortunados. Até os procuradores que recebem acima do teto constitucional acham que seus salários são apenas justos, e não demasiados. Quando um político diz “olha, acho que já ganhamos o bastante”, a fala vira manchete, e inquirimos se isso é um pronunciamento autêntico ou demagogia de quem sabe que vai se destacar com o populacho sem que seu salário congele de fato. Na hora de pagar impostos, todo mundo se considera pobre demais para participar. O esquerdista romântico que grita “mais creches!” está disposto a pagar mais impostos para que essas creches sejam construídas? Se ele visse, discriminado num comprovante, o quanto paga por mês de impostos para que seja possível a construção de mais creches para seu vizinho pobre que deseja viver na cidade aplicando a lógica reprodutiva do sítio, talvez ele mudasse a fala. Não vê. E quer que o Estado resolva, não interessa como, a falta de vagas para pequeninos que deveriam ter permanecido como óvulos e espermatozoides num mundo superpovoado demais. 

E, claro, eu não poderia deixar de falar dos avarentos humanitários que sempre esperam que os outros – ou o governo – façam todo o trabalho de ajuda a pessoas e animais necessitados. Há duas coisas que me comovem nos que aderem a uma causa, seja à causa dos pobres, das vítimas de guerra ou dos animais: a doação de tempo e dinheiro (desde que isso não seja motivo para o narcisístico “vejam o que eu faço, vejam”). Doa tempo aquele que sai pelas ruas realizando panfletagem, distribuindo refeições, passeando com cães abandonados em centros de zoonoses, cuidando de animais feridos, fazendo trabalho voluntário (limpando, ensinando, brincando de graça). Doa dinheiro aquele que vê a imensidão de instituições pelo mundo precisando de ajuda para conseguir prosseguir em seu trabalho, vê que não está apertado e sabe que não há sentido em esconder dinheiro embaixo do colchão ou acumular imóveis, e doa. Mas doa de verdade, mensalmente, e sem achar que é um ser precioso e único digno de aplausos porque desembolsou vinte reais para a Unicef no Natal passado. O calcanhar de Aquiles de muitos ativistas tagarelas está justamente no relógio e no bolso. Não são capazes de doar tempo e dinheiro para nada porque acham que debater na internet já é uma forma suficiente de ativismo, que estão conscientizando voluntariamente. É interessante, mas não basta. A criança que está morrendo de uma doença simples de ser tratada porque você, acumulador de dinheiro (outra doença), não é capaz de tirar cinquenta reais por mês para doar ao Médicos Sem Fronteiras, não quer saber se você acha que o Estado deveria fazer alguma coisa por ela ou se você vai à missa, crê em Deus e reza pelos mais fracos. Ela precisa que você deixe de ser mesquinho. E que você entenda que se Deus existisse e visse você agindo como age – inoperante, alheio, frio, falso –, certamente o inferno seria seu destino. Seu Deus bíblico manda para o paraíso o bom samaritano e encaminha ao inferno o fariseu, que é papudo, formalista (segue preceitos religiosos no ritual, não no sentido prático) e insensível ao apelo do próximo. Não sei que divindade é essa que todo mundo trata com tanto desrespeito para considerar um mero amuleto usado como adesivo de carro, penduricalho de espelho do carro (que péssimo lugar para se estar se é necessária tanta parafernália celestial) ou recurso na doença. Há muito espaço reservado para religiosos tagarelas nos galpões de Lúcifer, certamente.

Se espera algo de Deus quando vê alguém sofrendo, espera errado: se Ele não existe, não fará nada; se existe, espera que você faça para provar a Ele que merece sossegar entre nuvens na posteridade (o Deus bíblico tem essa característica de testar as pessoas). Acumular bens está muito longe da recomendação de “viver como Jesus viveu”, e já dizia o belo livro de contos que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. (Nesse excerto bíblico, infelizmente, todo mundo passa a achar que rico é o outro, é o chefe, é o desembargador, o Sarney, o Silvio Santos.) Se espera do Estado, espera errado: o Estado faz menos do que pode e não é a sua mera esperança que o fará agir – mesmo que aja, não conseguirá fazer tudo(2). Se espera dos outros, também espera errado: os outros na maioria dos casos são tão tolos quanto você e estão esperando que seus outros (cada um tem seus outros, que levam todas as culpas) ajam. O principal inferno dos que sofrem não são os outros e o Estado: é você.

Se somos parte do problema, devemos ser parte da solução. E se não queremos ser parte da solução porque estamos no mundo somente para comer, procriar, gerar lixo e virar matéria orgânica no final, que, pelo menos, façamos silêncio. Muito se compromete quem muito tagarela. 

(1) Essa entrevista do Pasquale no Provocações teria sido melhor se o Abujamra não interrompesse o tempo todo, não sei se por ansiedade ou presunção.

(2) Não se preocupem. Não esqueci que parte da inépcia do Estado brasileiro em atender o povo é oriunda da má conduta de políticos corruptos, que parecem ser maioria. Ainda assim, se um dia a corrupção for erradicada e o dinheiro público conseguir voltar a escoar para o público, espero que o apliquem em políticas de controle de natalidade em vez de novas creches. Sugiro mais: que o Estado pague para que pessoas realizem, voluntariamente, procedimentos de vasectomia e laqueadura. Não será gasto. Será investimento. Não é belo oferecer dinheiro para que uma família deixe de dar à luz crianças mal assistidas, mas nem tudo que é necessário é belo.

domingo, novembro 06, 2016

Rápidas e soltas 13: Estive viajando, máquinas, Dilma & Temer, eleições, liberais


Esse recente hiato se deveu às minhas férias. Fui viajar por trinta e dois dias. Tomei muita chuva em Glasgow (Escócia), bati ponto anual em Berlim (já tenho restaurantes prediletos e uma loja de tecidos que visito sempre), morri de encanto outra vez por Estocolmo (é estranho que uma capital seja tão linda e limpa), encontrei dezenas de brasileiros em Dublim (que é bonita, mas não justifica tanto frisson) e fui a um festival pós-punk sensacional em Wroclaw (Polônia), o Return to the batcave. Viajar para a Europa é ótimo; só não é melhor porque os chuveiros são horrorosos em nove de cada dez hotéis. Brasileiro pode se gabar de fazer um bom feijão-preto e construir práticas áreas de banhos. 

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Berlim me parece a cidade de um bom futuro: cosmopolita, pouco violenta e com inúmeras possibilidades para veganos. E quando eu digo inúmeras, são inúmeras, e não algumas, como é em São Paulo, onde ainda há um estrago adicional: boa parte dos estabelecimentos veganos acha que veganismo é não maltratar animais sem necessidade (certo) e não beber cerveja (muito, muito errado). Num restaurante novo chamado Valladares, bebi cervejas IPA – um dos meus tipos favoritos –, comi cachorro-quente com chucrute (com exceção de Blumenau e região, onde mais se encontra chucrute em cachorro-quente no Brasil?) e de sobremesa saboreei um cheesecake com berries e um cappuccino descafeinado. Isso é Berlim. Um lugar onde veganos conseguem comer feito padres e não são advertidos por namastês de que álcool faz mal. 


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Mau futuro é aquilo que se vê em casa de parentes que não sabem o que fazer com o próprio dinheiro: gadgets sobrando e máquinas elétricas de fazer arroz. Muitas vezes eu subestimo o apelo da publicidade sobre as pessoas, o que me torna bastante ingênua. A indústria inventa máquinas especializadas em fazer uma coisa banal, o aparelho é lançado, eu penso que será um fracasso como seria uma bicicleta de rodas quadradas. Penso coisas como: "mas quem é que vai querer enfiar uma máquina só para fazer arroz em casa?, arroz, que é uma coisa tão fácil de se fazer" ou "quem é que vai achar melhor uma máquina para fazer pipoca quando se tem a boa e velha panela, que faz isso e muito mais?". Não, as pessoas gostam de enfiar tralhas dentro de suas casas porque publicitários souberam criar certas necessidades em suas cabeças. Ou os publicitários são muito espertos, ou as pessoas são muito tolas. Vejam, não estou criticando a máquina de fazer pão, que realmente poupa tempo e trabalho (não, não tenho uma nem terei). Nem estou praguejando contra a dádiva da máquina de lavar roupas (apesar de eu ainda achar muito bonito colocar uma musiquinha e esfregar roupas no tanque à noite). Isso não é um manifesto contra as máquinas, é um manifesto contra máquinas bobas que só servem para torrar o seu dinheiro, entupir a sua casa de parafernálias capazes de fazer uma coisa fácil muito específica ("essa máquina faz pipoca, essa faz arroz e não vejo a hora de inventarem a máquina que cozinha macarrão") e alienar. Nem eu fiquei imune a isso, na verdade. Comprei, com meu namorado, a tal fritadeira elétrica que não usa óleo. O fato de termos levado meio ano para usá-la pela primeira vez já foi uma demonstração de que a compra foi vã. Fiz coxinhas de cogumelo e de palmito, resolvi estreá-la. Sem óleo as coxinhas da primeira leva não ficaram saborosas. Coloquei azeite. Muito. E ainda assim as coxinhas não ficaram apetitosas como as que são fritas em óleo. Deve ser uma máquina boa para quem faz frituras semanalmente. Não é nosso caso. Não sendo nosso caso, não há nenhum perigo de câncer em fritar petiscos numa panela cheia de óleo uma vez a cada algumas semanas. Um bom rol de perguntas ao se comprar uma nova máquina talvez seja: 1. Vou usar com tal frequência que seja justificável não terceirizar o serviço? (Uma máquina de costura numa casa onde será usada somente uma vez por ano para fazer barras de calça é um contrassenso. Você pode mandar as calças para uma costureira: vai gerar renda para quem vive disso e vai liberar espaço na sua casa.) 2. Não é um modismo, algo que vou comprar porque está em alta? (Fabricantes de bicicletas ergométricas teriam sido muito inteligentes se tivessem feito bicicletas em massa para durar por apenas um ano de uso contínuo. Os poucos que não as usassem como cabideiro após um ano e percebessem o desgaste poderiam receber novas bicicletas realmente boas como substituição.) 3. Não é ridículo o que essa máquina se propõe a fazer? (Exemplo: máquina de fazer arroz. A menos que você não tenha panelas em casa. A menos que ache muito difícil a instrução de três linhas na embalagem sobre como fazer arroz em panelas. A menos que considere trabalhoso ter que verificar a panela duas vezes: numa para deixar o fogo brando após a fervura e noutra para desligar o arroz pronto.) 


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Desde que se deu início o processo de impeachment de Dilma Rousseff – ao qual fui favorável –, pensei ser dever da Justiça fazer com que Temer caísse junto o quanto antes e novas eleições fossem propostas à população. Já estava claro que isso não aconteceria no tempo necessário, mas ficou certo quando a ministra Cármen Lúcia deu uma entrevista no Roda Viva há poucas semanas dizendo que seria impossível o julgamento da cassação da chapa Dilma-Temer ocorrer ainda este ano porque a instrução do processo é, por si, muito demorada. Ainda espero que Temer caia, mas uma nova eleição, que seria o correto, não gera mais nenhuma esperança. Temer deve cair porque foi beneficiado com a maquiagem econômica feita pela titular. Dilma venceu as eleições de forma apertada, e parte do seu sucesso se deveu à máscara que colocou sobre as contas do país em seu primeiro mandato. Até que pudesse se sentir segura na reeleição, sequer havia crise instalada, segundo ela mesma, e o uso do dinheiro público estava seguindo o roteiro programado. Com sua campanha mentirosa de “está tudo sob controle e quem vai entregar o Brasil aos banqueiros é a Marina”, pôde vencer, e assim também venceu seu vice, cúmplice. Decorativo, mas nada trouxa, e nada causador de indignação pelos apoiadores do PT – até se tornar um “traidor”. O PT fez as alianças mais repugnantes e deveu favores às pessoas mais tacanhas – Collor, Renan Calheiros, Marcelo Crivella, Cunha (para os que têm pouca memória, favor consultar jornais na internet) –, mas muitos de seus defensores preferem fechar os olhos para esses problemas que não surgiram somente nos últimos anos. Com tanto tempo de poder, rabo preso com figurões de tudo quanto é partido, quadrilhas de corrupção em que nos perguntamos se alguém se salva, sua queda foi boa para mostrar a seus soberbos porta-vozes que eles não eram donos do país. Também foi boa para que pudéssemos ver quantos “esquerdistas” são adeptos do provérbio malufista “rouba, mas faz”, já que muito deve ser perdoado ao PT pois foi “o partido que tirou 40 milhões da miséria”. Se Temer não cai ao agir com total laissez passer diante dos crimes orçamentários perpetrados por sua titular – crimes que o beneficiaram e ainda o beneficiam –, sua posição como vice se torna muito cômoda, muito sem responsabilidades. Espero que o TSE não o permita lavar suas mãos, como vem lavando. 


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O PT não foi o partido que tirou 40 milhões da miséria, como bem mostrou pesquisa velha do IPEA. Para chegar ao número de 36 milhões (era 40, depois passou a 36, mas costumo ouvir petistas fanáticos escolhendo o 40), o partido simplesmente utilizou o número de beneficiários do Bolsa Família em 2011. Cortou o número de pessoas que já vinham sendo beneficiadas com políticas assistencialistas iniciadas no governo FHC e que por causa delas saíram da miséria? Não. (É bom lembrar, novamente, que Lula criticava muito essas medidas, chamadas de “eleitoreiras”, quando criadas e aplicadas no período anterior ao seu.) Cortou o número de pessoas que recebem o Bolsa Família sem se adequarem ao perfil socioeconômico? Não (*). Segundo o IPEA, o número correto para mérito dos primeiros dez anos de administração petista seria de 8 milhões. Isso faz uma diferença e tanto num debate acalorado com um crente do PT. Há muitas estatísticas mentirosas nas quais insistimos em acreditar porque vestem bem as roupas dos nossos achismos. 


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Precisávamos de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para controlar os gastos do país. Mas por que temos que nos amarrar a um projeto que não se sabe se dará certo – no sentido de frear os gastos e ao mesmo tempo não massacrar a população – por vinte anos? “Em dez anos será feita uma revisão.” Ainda assim, muito tempo: dez anos é muita vida, são muitos anos para prosperar, amadurecer ou acabar em destruição. Que planos o atual governo tem para querer implantar uma medida severa dessas por vinte anos? 


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Causa-me assombro ver alguém pedindo mais Estado e menos impostos. E me causa confusão mental ver candidatos oferecendo mais Estado e menos impostos e sendo ovacionados nessa completa falta de lógica. 


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Muitos liberais esperam que o Estado nos dê o mínimo possível para que possamos agir com liberdade e independência. Acham que é função de cada pessoa saber o que oferecer para os outros – bens, serviços – que sejam atraentes e gerem sua renda. Querem que cada um saia de casa para lutar contra um leão por dia, porque alguém pode estar concebendo uma ideia genial no comércio ao lado. Acham que a penúria pode estimular a criatividade: “veja essa pessoa que era pobre e é um exemplo de superação criativa, pois hoje ganha milhões por mês com sua empresa que vende serviços domésticos sob medida”. Alguns vibram com o discurso do personagem de Alec Baldwin no início de Glengarry Glen Ross (O sucesso a qualquer preço, 1992). Gostam de citar aquele trecho conhecido de Adam Smith: “Não é pela benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas pelo cuidado que eles têm em relação aos seus interesses. Nós apelamos não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas antes das vantagens para eles.”. Como diz João Pereira Coutinho em As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários (Editora Três Estrelas), “o mercado livre surge como um sistema no qual deságuam interesses próprios, porém reconciliáveis”. Parece bonito, e é mesmo um tanto bonito (com exceção da figura do açougueiro) quando pensamos nisso de maneira moderada. O problema é que muitos liberais querem levar esse pensamento às últimas consequências, abolindo o estado de bem-estar social (na cabeça de muitos desses utópicos – vejam como não é só a esquerda que vive de utopias –, num mundo de alguns necessitados sem Estado assistencialista as pessoas vão se unir para ajudar aqueles que precisam, como provam as condutas bondosas espontâneas de milionários filantropos como Bill Gates e George Soros) e fazendo com que cada um arranje seu sustento oferecendo aos outros algo que gere interesse. É uma fórmula fácil quando já se é bem estabelecido. Mas será justa? É justo que eu tire de uma pessoa pobre sua ajuda oriunda do Estado e diga a ela que “crie, apenas crie” um bem ou um serviço que interesse a seus pares e possa gerar sua renda de forma independente – quando essa pessoa pobre é pobre porque há gerações abusam de sua condição para explorá-la? Um dia, quando as terras eram mais ou menos de todos (somos animais, lutamos por território; mas na selva, se algum outro animal toma seu território, você pode lutar com ele ou ir ali ao lado e se estabelecer em outro espaço), graças ao poder alguém decidiu que algumas terras eram suas. Não acho que a propriedade privada seja um roubo, como disse Proudhon, mas o acúmulo de várias propriedades privadas foi, certamente, um roubo. No passado, alguns começaram a acumular terras e bens; consequentemente, muitos ficaram sem ter nada seu e passaram a depender daqueles poderosos que acumularam terras e bens. Foi por falta de criatividade que esses miseráveis se tornaram miseráveis? Foi porque não souberam “criar bens e serviços” que atendessem às necessidades de seus vizinhos e gerassem renda? Não. Se os liberais brasileiros, por exemplo, estivessem dispostos a concentrar tudo que é valioso financeiramente e dividir igualmente entre todos para então começarmos a tal sociedade liberal, até que seria interessante. O dono de uma empresa bilionária e o zelador do meu prédio iniciariam essa sociedade liberal com o mesmíssimo valor e cada um poderia começar a criar, a pensar em bens e serviços que agradem aos outros e produzam renda. Parece-me um pouco mais justo. Mas ainda assim é injusto, já que o zelador não tem o conhecimento de mercado e manipulação do consumidor que o dono da empresa tem. Em pouco tempo veríamos uma sociedade profundamente desigual se formar, com os mesmos sujeitos no topo e os mesmos sujeitos na base. Não defendo grandes Estados. Essas experiências fracassaram de forma muito grotesca para que eu confiasse que um punhado de senhores pudesse gerir meu dinheiro da melhor e mais honesta forma possível. E não me agrada quando o cidadão vê o governante como um pai, criando mitos superprotetores como Stálin, Getúlio Vargas e Lula. Também não defendo pequenos Estados, que gerarão concentração de renda nas mãos de poucos espertos ou psicopatas. Um estado moderado é do que precisamos. E isso nem PSOL, nem PT, nem PMDB, nem PSDB, nem PRB podem nos oferecer. 


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Muitas eleições municipais foram um fracasso. O povo não sabe votar. E não digo que o povo não sabe votar como dizem os esquerdistas desesperados ao ver que Crivella venceu no Rio e Dória em São Paulo (os mesmos para os quais “a voz do povo é a voz de Deus” quando o PT vencia a presidência do país por anos seguidos). Que o povo não vota por projetos políticos coesos, todos sabemos. Que o povo não tem muita coerência partidária, sabemos também (eu não duvido que muitos eleitores paulistanos que votaram no Dória por sua “simpatia e jeito para administrar” também votaram em Eduardo Suplicy “porque é bonzinho, simpático e simples”). Mas o que mais me incomoda é ver o povo votando em famigerados corruptos. Candidatos que quase não puderam concorrer nas eleições por ter pilantragem no currículo venceram pleitos em primeiro turno. O demagogo do interior que rouba e muita gente sabe vence a eleição porque “atravessa a rua para apertar a mão das pessoas”. O povo prefere votar em corruptos conhecidos a votar em honestos desconhecidos, de partido pequeno e pouco dinheiro para a campanha. Não se dá chance ao candidato novo que ainda não tem malandragem simplesmente porque ele “é coisa pouca”, “não vai vencer, mesmo”. Vota-se num rosto, numa lábia, num disfarce, numa grandiosidade. A quem serve a democracia quando o povo é estúpido a esse ponto? Quem elege um conhecido ladrão para ser o porteiro da própria casa só porque ele se veste bem e é carismático?


quarta-feira, setembro 07, 2016

Da utilidade de rabiscar livros


Não-leitores muitas vezes se entregam de bandeja. Há duas oportunidades de destaque para reconhecer, com alguma garantia, um não-leitor. Primeiro, ele vai à sua casa, vê estantes abarrotadas de livros e pergunta se você já leu todos. Você, que é de certa forma um bibliófilo – conforme finanças e espaço permitem –, mas não vive de ler livros porque precisa trabalhar, cozinhar, sair para pesquisar se ainda existe alguma loja vendendo blusas de lã sintética que não provenham da China (conclui que não existe, aliás). Você, que dorme, e dorme todas as preciosas oito horas porque leitor com sono é leitor que não presta atenção direito, que lê mecanicamente, que boceja diante do verso mais bonito de Goethe. Você, que não consegue se dedicar à leitura enquanto termina uma garrafa de vinho e duvida da apreensão de conteúdo dos beatniks que dizem beber e fumar enquanto leem (os mais peculiares talvez aleguem tocar piano e fazer a barba também). Isso porque o não-leitor não sabe quanto tempo leva para se ler um livro. Porque ele não sabe que a maioria de nós não é nem Sérgio Buarque de Holanda nem José Guilherme Merquior para se trancar no escritório e engatar uma leitura na outra, em extrema glutonice. O não-leitor, que não lê nem quatro livros por ano, não resiste: vê a estante cheia de alguém e já quer saber se tudo foi lido. A outra oportunidade de reconhecimento do não-leitor é sua exaltada repulsa sobre livros riscados. É verdade, esse sinal é um pouco menos certeiro, porque há mesmo leitores, metódicos e hospitalares, que consideram sacrilégio apertar o bumbunzinho de uma lapiseira ao se estar na presença de um livro aberto. Mas se o leitor “pode ser” que se horrorize ao ver um parágrafo sublinhado, o não-leitor não pode ser, ele “é”. Acha “feio”. Um desperdício. “Como outra pessoa vai ler o livro desse jeito?” O não-leitor não entende, na cabecinha de prego dele, que a função de um bom livro não é permitir o refúgio do tédio de quem não sabe como proceder com tanta liberdade e enxerga na leitura um jogo de canastra cuja função é fazer o tempo passar para que logo se esteja reclamando que o Natal vem cada vez mais rápido. Não entende que um bom leitor jamais vai passar um livro adiante só porque já foi lido: um livro maravilhoso terminado acaba de dar mais uma razão para ficar. Ninguém, em sã consciência emocional, vai tratar Kafka como leitores da Agatha Christie a tratam (e com razão): como algo a ser enfiado numa lista e marcado ao lado com “lido” e nada mais, o que significa que não há sentido nenhum em reler, em buscar “aquele trecho”, porque é como um item colocado num papelete sobre o que precisa ser enfiado no carrinho do supermercado. Ninguém “relê” Agatha Christie, porque seus livros são descartáveis, são livros de férias na praia, livros para presentear o adolescente que os pais permitiram “ter seu próprio temperamento” e agora, tarde, descobriram que era apenas falta de educação deixar uma criança tonta ficar à própria sorte com estudos e leituras – Hercule Poirot vem para tentar salvá-lo da estupidez à qual se encaminha toda vez que é colocado diante da TV. Assim, ninguém rabisca livros que poderiam muito bem ser publicados pela Coquetel. Mas como não rabiscar A idade do serrote, de Murilo Mendes, que é um primor do cabo ao rabo? Como não rabiscar os Ensaios, de Montaigne? Quem é a pedra disfarçada de leitor que vai ler os Ensaios, considerar que o serviço está feito e passar o livro adiante sem manter uma cópia? Quem é o obsessivo-compulsivo que vai ler Apologia da história, não sentir necessidade de marcar nada, assumir que é excelente e mesmo assim doar para alguém? Existe uma abismal diferença entre olhar um livro pensando “ensine-me” e “entretenha-me”. Rabiscar um bom livro é quase um dever. Um não-leitor não entende isso porque para ele livros são como atrações de circo (adoro circos, desde que não haja animais sendo escravizados neles), e um livro lido é um serviço cumprido. 

Nem todas as minhas experiências com rabiscos de livros são boas. Há alguns anos, comecei a ler Introdução à sociologia, do Adorno (editora Unesp). Rabisquei o livro logo que veio: coloquei meu nome e a data nele, com caneta. Conforme prossegui a leitura, rabiscava uma coisa ou outra. Até perceber, já depois de algum estrago, que eu não estava gostando do livro. Não era péssimo, mas, com tanto material bom para ler, jamais seria um livro que eu salvaria de um incêndio na minha casa. Se não tivesse rabiscado o livro – se tivesse sido mais ponderada e esperasse pelo menos até a página 40 para ver se valia a pena mantê-lo comigo –, poderia vendê-lo. Inutilizei-o com sublinhados. Ocorreu o mesmo com O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais, de Lucien Febvre (editora Companhia das Letras). Comprei porque o tema me interessava: incredulidade, Rabelais, Idade Moderna. Febvre também sempre teve ótima fama. Recebi o livro, marquei-o como propriedade, comecei a rabiscar o pouco que achava que devia. Insisti. O estilo de Febvre é horroroso, com floreios poéticos piegas e muito uso de frases reticentes. Li mais um pouco, tentei marcar algumas outras coisas. Mas não consigo ler textos compridos em estilo ruim. Dão-me agonia da mesma forma como sofro para ler textos mal pontuados. Ali estava outro livro que eu não deveria ter marcado desde o início, porque me permitiria revendê-lo, passar para alguém que apreciasse historiografia nas nuvens. Errei ao maculá-lo. Mas aprendi, finalmente, como agir com livros desconhecidos que caem nas minhas mãos sem muito conhecimento de teor e forma. A imensa maioria dos livros que adquiri nos últimos anos vieram de lojas virtuais. (Apoio apego a livrarias pequenas prestes a serem engolidas por gigantes como Amazon e Saraiva, mas em São Paulo não tenho intimidade com nenhuma que satisfaça esse requisito; e mesmo que apareça alguma hipotética Livraria do Seu Pedro, desde 1952, não tenho a missão de salvar pequenas empresas quando a diferença de valor pelo mesmo produto é muito alta. Se a diferença for pouca, opto sempre pelo pequeno empresário.) E existe um probleminha com alguns livros comprados na internet cujos trechos não estão disponíveis para leitura prévia, que é o de você não saber exatamente o que vai receber em casa. Hoje, portanto, recebo minha caixa de livros e nem marco meu nome neles. Espero. Leio algumas páginas. Vou lendo, lendo, e em poucas dezenas de folhas já consigo perceber se é algo para manter, consumir de rabiscos, ou passar para outros. 

“Consumir de rabiscos”. É isso o que eu penso que as pessoas deveriam considerar a respeito de livros: material de consumo. Não é um quadro, não é a nega de cerâmica que o branquelo trouxe da Bahia para tornar sua casa mais “exótica”. É para ser estraçalhado, no bom sentido. É para ser lido, relido, marcado, repensado, consultado. Está ali para servir, mas sem ser subalterno. Não me entra nas dobras cerebrais que alguém leia um livro excelente e passe adiante. Como esse sujeito não sente falta do livro? Como não sente falta de viver outra vez aquela passagem, aquela descrição? Precisamos ver nossos bons calhamaços como dicionários, dos quais ninguém se desfaz porque são constante fonte de consulta. Imagine se vou passar os livros de Jacques Le Goff para frente como se fossem moedas. Minha cabeça é limitadíssima, como a de todo mundo, e vai chegar um momento – sempre chega para quem gosta de saber as coisas de fato – em que me perguntarei “mas como era mesmo aquela história que ele contava em A bolsa e a vida?”, levantarei do sofá, abrirei o armário, puxarei seu livrinho e terei, instantaneamente, a resposta para minha dúvida, além de uma ressurreição. Em minutos eu revivo Le Goff, não somente graças ao fato de possuir seu livro como ao fato de tê-lo rabiscado. 

Falemos, agora, entre leitores habituais. Leio em média três livros por mês, o que é considerável para quem não trabalha com pesquisa. Digamos que ano passado eu tenha mantido essa média, portanto eu teria lido 36 livros. E digamos que no ano anterior eu também tenha lido 36 livros. São 72 livros em apenas dois anos. Desses, suponhamos que 32 não eram “eternos”: eram livros não tão bons, livros não tão marcantes, livros que não me fariam falta se sumissem. Sobram 40 bons livros lidos em dois anos. Eu inquiro: alguém que tenha a mesma quantidade/qualidade de leituras que a minha e tenha preservado uns 40 livros de dois anos de leituras, alguém que mantenha esses livros, mas não os rabisque – em que estado de angústia ficará quando tentar lembrar de uma passagem recordada vagamente e que está num dos dez livros sobre evolução das espécies, por exemplo? Porque se o livro na estante não for tratado como um mero troféu – “vejam, ali está e eu o li” –, será buscado. Será fácil buscá-lo sem marcações? Não será. 

Há dois livros realmente bons que li este ano sobre evolução, e acabei fazendo uma leitura seguida da outra: As origens da virtude: um estudo biológico da solidariedade, do zoólogo Matt Ridley (editora Record), e A história do corpo humano: história, saúde e doença, do professor de biologia evolutiva humana de Harvard Daniel E. Lieberman (editora Zahar) (também conhecido como “professor descalço” por defender que deveríamos correr de pés nus, quando possível, por causa do modo como a evolução moldou nossos pés). Precisei escrever um artigo de conclusão de curso para a especialização que fiz em Direito Penal. Poderia escrever sem muita pretensão sobre qualquer assunto jurídico que a nota viria, e com ela a fácil aprovação (gostaria de ver quais os critérios usados pelo MEC para manter certas instituições funcionando), mas preferi me dedicar a algo que me interessasse e acabasse como um bom artigo para mim mesma. Escrevi sobre o aborto, trabalhei temas como fetos anencéfalos e morte cerebral. Lá pelas tantas lembrei de ter lido que o feto compete com a mãe por recursos dentro dela, gerando desajustes e funcionando como parasita. Quis a citação indireta desse trecho, mas não lembrava em que livro estava. Sabia que estava num dos dois que tinha lido no começo do ano. Vistoriei minhas marcações nas bordas e não achei nada no livro do Lieberman. Só podia estar no do Ridley. Estava. Na parte superior da página 32 eu havia escrito “a luta na gravidez” e “o feto como parasita” para fichar o que havia naquela página. Meus rabiscos facilitaram minha busca para o artigo, o que foi ótimo, mas eu não fico escrevendo artigos o tempo todo – só que esses rabiscos salvam minha tranquilidade mental e minha vontade de saber sempre. Ali estou eu, tomando sol na varanda enquanto leio uma National Geographic. Uma matéria sobre agrotóxicos me faz lembrar algo que li num livro. Vou para dentro, procuro o livro, começo a ler o que escrevi em suas beiradas ou o que sublinhei com “cobrinhas” – meu sinal para mim mesma para “trecho muitíssimo interessante” – e logo acho o que quero. Leio. Fico satisfeita. Reaprendi aquela coisinha. Volto para meu sol e minha revista. As conexões estão perfeitas e não preciso forçar meu cérebro a lembrar de todas as passagens importantes dos 40 livros bons que li nos últimos dois anos. Lido com a realidade e não passarei ansiedade por não conseguir achar onde li isso ou aquilo há alguns meses ou anos. Dentro de cada livro de minha biblioteca há uma pequena biblioteca, com capítulos e páginas catalogados conforme os assuntos. 

Não consegui convencer sobre a utilidade de um bom rabiscar? Logo ali darei um exemplo ainda mais prático, mas permitam-me falar de mais uma dádiva que a organização oferece ao rabiscador de livros. Há alguns anos li um livro que comprei no sebo, O comunismo, do historiador Richard Pipes (editora Objetiva). Um bom livro com uma visão mais liberal das revoluções socialistas, já que Pipes parece considerar o comunismo, tanto praticado (visão muito justa) quanto idealizado (visão talvez muito dura, já que há, sim, uns poucos sonhadores comunistas de boa vontade), uma catástrofe. Esses dias peguei o livro para “relê-lo”. Não o estou lendo por inteiro: estou lendo somente os trechos que pontuei no fichamento no próprio livro que fiz na primeira leitura. Quando um trecho marcado instigante é seguido por um não marcado, leio também o não marcado. Assim, consigo reler livros sem que precise tratá-los como se fosse a primeira vez. Há livros, claro, que lemos por completo algumas vezes durante a vida (no meu caso, principalmente literatura), mas há outros que bastam ser revividos pelas marcações. Marca-se o que é mais relevante e essencial: quando se tem pouco tempo – ou muito tempo, só que voltado para tantas outras coisas –, um livro rabiscado facilita muito a vida. Quem gosta de seriados muitas vezes não vê várias vezes certos episódios? Acredito que já assisti a quase todos os desenhos do Pernalonga, mas se estiver cansada e com vontade de rever algum, verei qualquer um dos episódios em que ele é maestro ou personagem de alguma música clássica (como em “Coelho de Sevilha”). E que mal há nisso? Com livros, o mesmo acontece. Você pode ler os Ensaios todos de uma vez, marcar os aforismos mais interessantes, deixá-lo na cabeceira e reler aqueles que marcou. Rabiscar livros não apenas organiza a leitura como presta um favor à releitura. 


Recentemente finalizei a leitura de Ética prática, do Peter Singer (editora Martins Fontes). Até então eu só tinha lido quatro ou cinco capítulos sobre assuntos que me eram caros: o estatuto ético dos animais, aborto, “o que há de errado em matar”. Todos os assuntos do livro, todavia, deveriam ser caros a todos nós: imigrantes, meio ambiente, que responsabilidade os que têm dinheiro (sim, você que está lendo, por exemplo; pare de fingir que é pobre porque isso é uma tremenda falta de respeito com quem é realmente pobre) têm com os que não têm (não, você não é pobre só porque está há dez anos sem trocar de carro; por favor, situe-se em seu ridículo), por que devemos agir moralmente. O livro é ótimo, então valeu cada rabiscada. O que estou fazendo agora que terminei de lê-lo e rabiscá-lo? Estou relendo o que marquei. Por quê? Porque é muito difícil apreender tudo de um livro de uma leitura só. A primeira leitura serviu para meu entendimento amplo de tudo, para que eu tentasse organizar os conhecimentos do livro. Agora posso reler o que está organizado de acordo com o meu gosto de ordem (não marco somente as passagens com as quais concordo, porque minha intenção é entender o texto, não revisá-lo para o autor conforme meu narcísico parecer). Muitas coisas na vida nós primeiro organizamos para depois tomá-las em seu verdadeiro sentido. Não vejo por que com o conhecimento seria diferente. 

Na primeira folha dos livros muitas vezes escrevo frases curtas que expressam muita coisa, e coloco a página onde estão ao final da citação. Em Ética prática há lá três trechos na primeira página, sendo um deles: “O status de igualdade não depende da inteligência. Os racistas que afirmam o contrário correm o risco de ser forçados a se ajoelhar diante do primeiro gênio que encontrarem. (p. 40)”. A importância desse trecho está em sua síntese de tudo que Singer trabalha na obra: o fato de um camundongo não apreciar ópera como você, o fato de um angolano não fazer os cálculos que você faz e o fato de um índio não saber ler não fazem com que você seja superior a eles em merecimento de tratamento compassivo – se se achar superior por essas coisas, precisará virar escravo dos inúmeros sujeitos muito mais inteligentes que você que estão por aí. Em seguida, outro excerto que sintetiza o pensamento ético de Singer: “Se um ser sofre, não pode haver nenhuma justificativa de ordem moral para nos recusarmos a levar esse sofrimento em consideração. (p. 67)”. E ainda: “O princípio da igual consideração de interesses não permite que os interesses maiores sejam sacrificados em função dos interesses menores. (p. 73)”, ou seja, é justificável que um esquimó, impossibilitado de exercer a agricultura, mate um animal para comer, prática que é totalmente imoral quando você, citadino, pensa que é justificável ceifar uma vida com interesses e senciência por mero prazer do paladar, da mesma forma como não se justifica sua insistência em comprar roupas de marcas de fast-fashion reconhecidamente responsáveis por trabalho análogo ao escravo só porque “são muito bonitas e baratas” – seu interesse menor, gastar pouco dinheiro com uma peça bonita, não justifica o sacrifício de um interesse maior, que é o de um trabalhador ser tratado no mínimo conforme o que apregoa a CLT. 

Livros que se transformam em cadernos por
praticidade: aos que não querem isso, que
comprem cadernos, desde que os usem

Agora vejamos alguns dos rabiscos explicativos e ordenados que fiz no decorrer das primeiras páginas do livro, rabiscos que já me auxiliaram, mas vão me auxiliar ainda mais no futuro, quando minha memória começar a apagar boa parte do que li: 

Reação ao livro nos países de língua alemã; 
Ética e Deus;
Kant e o código moral;
Sobre o relativismo;
Aos marxistas: “se toda moralidade é relativa, o que há de tão especial no comunismo?”;
Relativismo ético;
Universalidade da ética;
Kant;
Ética como reflexão sobre todos os interesses envolvidos;
O racismo se tornou “feio”;
Princípio da igual consideração de interesses;
“A raça é irrelevante para a consideração dos interesses, pois o que conta são os interesses em si.”;
Caso hipotético das duas pessoas feridas desigualmente e das duas doses de morfina;
Princípio da diminuição da utilidade marginal;
“Caso da perna e do dedo do pé”;
Uma suposta diferença entre o QI de duas etnias poderia justificar tratamentos desiguais para elas?;
Diferenças entre homens e mulheres, biologia ou cultura;
O papel da mulher no mercado de trabalho;
Diferenças entre os sexos e estar fora do padrão biológico;
É difícil mensurar a igualdade de oportunidades;
Fuga de cérebros;
O problema do “socialismo em um só país”

Isso tudo foi o que escrevi – organizei – em bordas e beiradas até a página 50. Não há como negar que é uma bela catalogação. Se daqui a três anos eu me lembrar de quando Singer comenta sobre o problema do socialismo em um só país – que é um problema que gera as tais fugas de cérebros, quando o governante socialista permite que as pessoas emigrem, pois muitos gênios anseiam ser bem remunerados por sua contribuição à sociedade em vez de receber quase o mesmo que varredores de rua – e quiser reler o que ele diz sobre isso, basta ir às beiradas. Se não houvesse marcações nelas, eu demoraria talvez horas para encontrar o que quero: não há capítulo com esse nome, não há subtítulo chamado “socialismo num só país”, nem índice remissivo no final do livro. Meus rabiscos salvam meu eu futuro de agonia. 

Hostilizado em países de língua alemã por debater
o tema da eutanásia, Singer teve seus óculos
arrancados e jogados ao chão, e eu sei onde
está esse trecho porque o marquei

Livros rabiscados são lindos para seu dono, mas emprestá-los é um erro, geralmente. A marcação feita por outra pessoa influencia nossa leitura, nossa atenção. Além do mais, às vezes pode soar pedante emprestar um livro rabiscado. Se hoje eu já não empresto livros rabiscados (nem os que não estão rabiscados, na verdade, porque sempre tive azar ao emprestar coisas), no passado seria pior ainda, porque houve época, ali nos meus 17 ou 18 anos, em que eu não somente fazia marcações nos livros: eu colocava minhas opiniões nas bordas. Achava o ápice da crítica atilada escrever “estúpido” ao lado de um parágrafo de que não gostara (não cheguei ao ponto-Schopenhauer de desenhar orelhas de burro ao lado de trechos de Hegel ou Fichte). 

O que vivo, agora, é uma situação engraçada: não sou mais uma pessoa sozinha como leitora numa casa. Tenho um namorado com quem compartilho coisas (muitos insistem que devo chamá-lo de marido; não sei por que se importam tanto com terminologias esses abelhudos). Todos os livros que compramos, compramos juntos. Dividimos água, luz, condomínio, feira – e livros. Ocorre que às vezes posso querer ler um livro que André comprou para ele. Não, não consigo não rabiscá-lo. O que faço é tentar ser o mais discreta possível: se um trecho me interessa, faço um leve traçado com grafite ao lado do parágrafo. Fiz isso com Nada a invejar: vidas comuns na Coreia do Norte, da jornalista Barbara Demick (editora Companhia das Letras), que pretendo resenhar em uma postagem em outro momento. Quem leu sobre ele foi o André, quem quis comprá-lo foi o André. Mas eu acabei lendo o livro antes. Se não fizesse um fichamentozinho, uma marcaçãozinha que me ajudasse, posteriormente, a achar o trecho em que Demick fala das pessoas comendo grama e não podendo reclamar do Grande Líder, por exemplo, eu ficaria ansiosa. Em casas de casais, talvez os rabiscos tenham que ser mais moderados. Para maiores marcações, recomendo que se compre um caderno só para se colocar espécies de frases-chave, como aquelas que elenquei acima no livro do Peter Singer, com a página ao lado. Por exemplo: 

Como dividir a Coreia após a II Guerra (p. 36);
Sistema de castas (p. 43);
O sistema filosófico do juche (p. 65);
Vitrines para estrangeiros, frutas falsas (p. 87)

Um caderno de 100 folhas vai durar para muitos livros desse jeito. Para mim essa ideia não dá muito certo porque tenho o hábito de ler deitada em 80% do tempo. Já vou para a cama ou para o sofá com o livro e uma lapiseira, que é para ir marcando e rabiscando o que me interessa (não me importo com a caligrafia, desde que fique legível). Mas é uma boa opção para quem quer manter seus livros limpos e costuma ler sentado (ou lê deitado, mas não faz cerimônia para levantar e escrever coisas no caderno; ou lê deitado e consegue escrever em cadernos mesmo deitado). 

Forma mais sutil de marcar trechos de livros
que poderão ser lidos por outra pessoa

Aos que leem e não marcam, não organizam, não sintetizam: não sei como vocês vivem. Ou leem tão pouco que a memória limitada basta para os pouquinhos livros anuais, ou leem como quem está na aventura do livro para passar o tempo entre as datas festivas, ou ainda não ficaram cientes da real condição de desespero em que deveriam estar por não manterem tão elementares conhecimentos organizados de forma a que estejam com fácil acesso. Não quero incentivar o desespero, a queima de cidades e bibliotecas por causa do pânico (“meu deus, Barbara, todo o conhecimento que li está espalhado por aí e não sei como começar a juntar!”). Mas acho que é hora de rever o modo como se lê, que é quase tão importante quanto aquilo que se lê. Seja o tipo de leitor que você gostaria de ter se fosse um bom autor.

Retornando


Senhores que me leem, que bom encontrá-los de novo. Sumi um pouco porque estava terminando rodopios com certos estudos formais. Não se equiparam aos estudos formais de vocês, certamente, porque eu entrei nessa por motivo de trabalho – nosso salário evolui quando apresentamos certificados e diplomas – e fiz inscrição em qualquer à distância que aparecesse pela frente. Por acaso gostei muito de estudar Direito Penal. Entrei por dinheiro – critico mercenários e agora dou esse espetáculo de franqueza; meu maior problema, contudo, sempre foi com os que alegam amor àquilo que fizeram só por pecúnia ou conveniência, atentem bem – e gostei dos assuntos sem querer. Assim, agora que terminei os tais estudos formais estou pronta para estudar o Direito Penal brasileiro do jeito informal, que é mais agradável, genuíno e ao meu tempo. Tomada pela presunção positiva que acossa os outros, continuo aguardando os "amo o que faço" aparecerem com leituras sérias sem que professores os tenham obrigado a isso – vá e leia um livro de Keynes à beira do mar, tire uma semana de férias para entender aquele ponto difícil de Kotler, fique ansioso para ver os julgamentos do STF na TV Justiça após o expediente – ou sem que sirva para a olimpíada do Lattes. Enquanto não houver linguista lendo Bakhtin no próprio aniversário sem nenhuma pretensão acadêmica ou suposto amante de música clássica trocando banquete gratuito em festinha da repartição para ouvir Brahms, poupem-me desse saco de balelas. Pronto, terminei meu micro-protesto que parece saído de uma letra de hip-hop. Volto logo.

sábado, julho 09, 2016

Rápidas e soltas 12: Escola sem partido, gênero, mulheres no jornalismo


A polêmica do momento é o avanço da aceitação do programa (transformado em projeto de lei) "Escola sem partido". O que leio? Dois lados. Quem está certo? Nenhum deles. Tenho a fortíssima impressão de que a reação mais comum a um extremismo é o surgimento de outro extremismo: oposto, mas igualmente estrondoso. Desponta uma opinião extrema que se transforma no pensamento de um grupo. Quem fará o contraponto? Raramente um grupo equilibrado, moderado, cauteloso. Possivelmente um grupo que vai propor o avesso de tudo que o primeiro propôs e também tacará fogo na civilização em nome do erguimento de uma nova. Acredito que muitas das minhas convicções precisam ser repensadas ou polidas – não faz tanto tempo que abandonei certos extremismos –, mas mesmo assim tenho me sentido, num meio dicotômico, uma pária. Não é diferente com o caso da escola sem partido. Em artigo para a morta-viva Revista de História da Biblioteca Nacional (aparentava ter morrido em novembro, implorou por doações para fechar as contas de 2015, não publicou nada desde dezembro e depois apareceu com uma edição solta em maio), Fernando de Araujo Penna critica a "criminalização da prática docente" e o que ele alega ser a proibição de o professor trazer para a aula assuntos do cotidiano. Foi isso o que ele entendeu do seguinte trecho do site que divulga o programa: “Você pode estar sendo vítima de doutrinação ideológica quando seu professor se desvia frequentemente da matéria objeto da disciplina para assuntos relacionados ao noticiário político ou internacional”. Não entendi a indignação. Penna é professor universitário. Há quanto tempo está afastado das escolas de ensino básico? Existe uma abismal diferença entre um professor de história levar para a sala de aula assuntos controversos do momento para gerar algum debate e um professor chegar com aquela cara pedante, que inúmeros professores de história gostam de fazer (rivalizam, nesse ponto, com os de filosofia, e a marca que o tempo deixa no rosto os fará serem enterrados com essa estranha expressão de pato sabido), e soltar para os alunos o que está longe de ser um “incentivo ao diálogo”: “viram o golpe à democracia que acabamos de viver? Agora vocês entendem o que aconteceu em 1964”. Esses mesmos professores que levam esquerdismo para a sala – lobo trajado de “formação cidadã e crítica” – só execram o autoritarismo alheio: o deles é salutar e com finalidade ética. Quando descobrem que outro professor está defendendo, nas aulas, ideias abraçadas pela direita, passam a querer ser censores. 

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Ensino básico não é universidade. Quer fazer uma aula mais autoral em que assuntos de grande porte serão discutidos entre adultos e com a relativa igualdade que uma discussão entre adultos proporciona? Estude e vá lecionar na universidade, professor. Pare de querer achar que o ensino fundamental é campo para você brincar de ser importante ao estilo Hegel versus Schopenhauer vamos-ver-quem-consegue-mais-inscritos, porque os alunos não têm a opção de não ir a suas aulas e é uma tremenda covardia querer seduzir crianças a aderir a um discurso porque o professor bacanão – o “roqueiro”, o que “fala mesmo”, o maconheiro politizado de dreads, o tatuado, o motoqueiro selvagem, o que parece saído do presídio, o que conversa “na língua da galera” – sabe que é persuasivo. Na dúvida se está abrindo um debate ou se está doutrinando, pense se outro professor com opinião oposta (desde que não aberrante, como seria a defesa da tortura e do assassinato em massa) teria o direito de levantar as opiniões dele numa aula para o seu filho. Ninguém merece chegar a casa e ser chamado de racista pelo filho porque o professor simplista disse que todos que são contra cotas raciais são racistas. Assim como eu não mandaria uma criança para a escola para que ela aprendesse que o Collor foi um homem bom que foi traído, eu também não quereria que ela aprendesse que o Lula foi um homem bom que foi traído. “Ah, mas não conseguiram provar nada contra o Lula até agora.” E contra o Collor? Em 2014 o STF encerrou o caso da investigação de Collor por falta de provas. Se na falta de provas presumimos a inocência de Lula – mesmo que esteja há muitos anos sendo delatado e que tenha inúmeros amigos íntimos corruptos –, devemos presumir a inocência de Collor, e o professor de história não tem que usar dois pesos e duas medidas na hora de persuadir meu filho de que um é Sócrates e o outro é cicuta. 

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Quanto à discussão sobre gênero em salas de aula, que os adeptos da Escola sem partido rejeitam, não há motivo para fingir que transgêneros não existem ou achar que é “natural” que outras crianças não saibam respeitá-los. Por mais que os pais considerem que “homens são homens e mulheres são mulheres”, os transgêneros estão no mundo e merecem ser tratados com urbanidade, concorde-se ou não com o que fazem com suas posturas e corpos. Falar sobre gênero na escola não é trocar a trigonometria por uma dinâmica de experimentação de papéis em que os meninos terão que vestir saias e passar batom enquanto as meninas lerão revistas sobre carros sentadas com pernas bem abertas. A escola não vai ensinar ninguém a trocar de gênero. Se esse tipo de abordagem tivesse aparecido nas aulas de sociologia e filosofia na minha infância e adolescência, por exemplo, teria sido muito mais fácil lidar comigo mesma num momento em que eu não sabia quem eu deveria ser. Eu adorava o universo masculino e queria tomar muitas coisas dele, mas também não estava disposta a abandonar o chamado universo feminino com tantas atribuições maravilhosas que estão no edital do concurso para ser mulher. Querendo viver nos dois âmbitos, fui expulsa dos dois clubes: as meninas não me queriam porque eu não era menina o suficiente e os meninos não me aceitaram porque eu não era, de fato e nem bem disfarçada, um menino. Revoltada com essa determinação de conduta tão taxativa – ou você é isso, ou é aquilo, não pode ser os dois –, fiquei em estado de graça quando descobri, no final do ensino fundamental, a proposta do feminismo de acabar com essa história de que por ser mulher tenho que falar assim, tenho que me vestir assado e ter um comportamento condizente com o gênero que me obrigaram a adotar. Também me apaixonei por figuras andróginas como David Bowie e Grace Jones, que tinham a sorte de poder usar calças e vestidos quando bem entendessem por causa da licença artística. Proibir que explicações sobre gênero apareçam na escola é impedir, na verdade, que crianças e adolescentes possam ser quem quiserem ser. Às vezes parece que pessoas como Marco Feliciano temem que falar sobre gênero possa transformar todos os garotos em travestis e todas as garotas em Thammy Miranda – uma visão estereotipada sobre o que significa entender que não precisamos nos portar como manda o peso dos séculos. Quando a primeira mulher apareceu de calças, havia uma questão de gênero ali. Quando uma mulher reivindica, em seu local de trabalho, que não é justo que ela tenha que usar salto para fazer a mesma coisa que um homem faz de tênis, há uma questão de gênero aí. Quando um homem, heterossexual, decide usar “roupas de mulher” porque acha que são mais bonitas, estamos falando de transgressão contra imposições de gênero. O que há de mais nisso? 

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Sempre tive receio de emitir julgamento sobre a sexualidade alheia por causa da postura. Pelo menos das pessoas que eu gosto. Havia esse rapaz. Ele era gentil, tinha mais amigas mulheres que amigos homens, nunca brincou de puxar a cueca dos outros. Diziam que ele era gay. Podia ser, é verdade, mas eu preferia não determinar isso. No fim, ele era gay. Eu estava errada em achar que não era? Não achei que não era por não querer que fosse, porque para mim tanto faz com quem as pessoas dormem e por quem seus sinos sexuais dobram, mas eu achei que não era gay porque considerava cansativo e de senso comum supor que só porque um rapaz é mais delicado isso significa que ele é homossexual. Questões hormonais podem influenciar o jeito de muitos homossexuais, mas isso não é regra. Lembro de uma amiga ter sido perguntada por colegas limitadas de um empreguinho ruim se era lésbica. O motivo que deram: porque ela usava tênis e mochila. Não é nenhum xingamento quando presumem que alguém é gay, mas essa presunção não costuma ser suave e complacente para o bem. É claro que reservamos maldades para nossos inimigos – não vejo problema em comentar em particular sobre um sujeito asqueroso que suponho viver no armário “ih, lá vai a bicha” –, mas acho estranho quando perseguimos nossos amigos ou os amigos de nossos amigos com julgamentos genéricos. Pior: quando difamamos alguém por uma hipotética sexualidade genuína não revelada. A maioria das pessoas que não são gays não querem que comentem que elas são. Uma amiga com mais de quarenta, solteira, diz que já acharam inúmeras vezes que ela era lésbica. Por quê? Porque ela é uma mulher mais velha solteira. Está proibido passar dos quarenta sem carregar parceiros do sexo oposto para o cinema, porque isso é sinal de “ser gay”. Um outro conhecido, homem, mas também mais velho, era alvo de comentários sobre ser gay porque nunca tinha sido visto com uma mulher. Mas ele adorava mulheres, elas é que o rejeitavam. Se sabia que suspeitavam que era gay, não sei, e perdi o contato com ele. Até espero que não saiba. 

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A sociedade comum não está preparada para destruir (nada de “desconstruir”, essa palavra medonha que deveria ser enterrada com “pró-ativo” e “problematizar”) os blocos de gênero a fim de deixar todo mundo mais à vontade, mas muitas vezes precisamos ter paciência e compreensão com isso. No último ano em que trabalhei numa creche, peguei uma turminha de dois anos. Havia um menino que sempre observava quando eu e minha colega de sala arrumávamos os cabelos das meninas. Um dia, ele pediu para que fizéssemos uma “maria-chiquinha” no cabelo dele. Minha colega ficou muito constrangida e esperando que eu ajudasse a nos livrarmos da situação. Ajudei: disse para ela fazer (ele tinha pedido a ela) porque não havia nenhum problema nisso. Envergonhada – e entendo a reação dela, que sempre viveu no interior e achava que era bom que Patati e Patatá existissem (esses palhaços insuportáveis, mercenários e forçados) –, ela fez. Quando isso aconteceu de novo, na hora de ir embora o menino ia ficar com uma senhora porque eu saía meia hora antes de a creche fechar. No dia seguinte, ela veio até mim com tom repressor você-pensa-que-estamos-em-San-Francisco e disse que o pai pedira para que nunca mais fizessem chiquinhas no cabelo do filho. Não fiz. Mas deixei para minha colega explicar a ele, que pediu outras vezes, que aquilo “era coisa de menina”. Eu não tinha que desafiar o pai num ponto tão sensível. É claro que um novo penteado na infância não faria com que o menino, quando adulto, fosse trazer Carlos e Juan para passar as noites em seu quarto fazendo guerra de travesseiros, mas o pai achava isso e eu precisei entender que no lugar dele e com a formação dele eu pensaria o mesmo. Mantive meu combate às regras de gênero em outras coisas: pedindo “mãe, por favor, pare de mandar sua filha de sandálias para a creche, não é confortável brincar de sandálias”, ou “mãe, deixe o vestido para a missa, mande sua filha de bermuda ou de calça”, ou escolhendo brincadeiras que envolvessem todos em papéis, como quando brincávamos de casinha e os meninos lavavam a louça enquanto as meninas saíam para trabalhar. Obviamente muitas dessas coisas me transformavam em “Barbara, a estranha”, só que sem poderes paranormais, perante muitas pedagogas antiquadas. Eu é que devo achar estranho que em pleno século XXI muitas creches sejam centrais de reprodução dos anos 40. Não é um bom jeito de brincar de máquina do tempo. 

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O maior motivo para eu ter assinado a Folha de S. Paulo digital foi para poder ler colunas. As notícias o Uol disponibilizava de graça (o texto não parece tão bom e a própria fonte é desagradável, mas é válido que você só tenha que olhar anúncios para poder ler a página). Só hoje percebi que quase só gosto das colunas de homens. Leio tudo que o Ruy Castro escreve (ele é tão atraente que me faz querer ler sobre assuntos que nunca me interessaram – a vida de Carmen Miranda, por exemplo – só porque ele é o biógrafo). Bernardo Mello Franco é uma joia. Toda segunda leio Gregório Duvivier e Pondé – geralmente para passar raiva com ambos, mas leio, porque são melhores que muito escritor mosca-morta. Cony é aquele que eu queria que fosse meu vizinho. João Pereira Coutinho é precioso, apesar de venerar o capitalismo. Demétrio Magnoli e Elio Gaspari têm uma inteligência assombrosa. Há outros que leio quando o primeiro parágrafo me chama a atenção. Há os que não leio, porque são enfadonhos, como Antonio Prata, Kim Kataguiri e André Singer. Da parte das escritoras mulheres, que já são em menor número, a única que vale a sentada é a Fernanda Torres. As outras, ou têm vitalidade, mas não têm inteligência, ou têm inteligência, mas não têm vitalidade. Algumas são confusas. Tati Bernardi às vezes quer ser um corpo, às vezes quer ser um cérebro, e os homens que não acompanharem essa instabilidade receberão críticas. Então ela desanda a escrever sobre assuntos chatíssimos como celulite, magreza, gordura, sexo no tanque, fetiche com comida; ofende a si mesma e a outras mulheres que, como eu, saem piores do que quando entraram na coluna. De repente, lembra que é um ser humano e tenta ser um pouco profunda, um pouco feminista, mas não convence. Passa a achar que não é engraçada o suficiente quando fala de assuntos mais sérios e volta a falar sobre chocolate, papada, peito caído. Com Mariliz Pereira Jorge é parecido, apesar de ela ser um pouco melhor. Passa um tempo falando de futilidades femininas que só trazem doença, física e mental. Faz protesto contra invejosos, fala de ter uma bunda linda brilhando no sol, reclama da celulite, provoca que vai ali comer uma costela de porco ao falar de vegetarianos. Então lembra que tem coisas importantes a dizer e começa a escrever sobre tudo que há de podre no Rio de Janeiro romantizado que há muito tempo deixou de ser bacana, critica o sofrimento por que passam animais em parques aquáticos, pede aos pais que não limitem os desejos de suas filhas nesse mundo machista que oprime mulheres. Quer falar de opressão à mulher e ditadura da beleza, mas também do quanto é amedrontador levar uma vida com um corpo mais ou menos e que a idade assusta quando cria braços flácidos. O que essas colunistas têm de relevante no geral? Por que alguém deve ler coisas que induzam ao pavor de envelhecer? Sinto falta de uma mulher escrevendo como todos os homens que citei acima. Mulheres inteligentes, mas divertidas, com sacadas irônicas, talento literário. Mulheres que acrescentem. A Folha não faria mal convidando a nem sempre justa, mas ótima, Vilma Gryzinski para compor o quadro de colunistas. 

domingo, junho 26, 2016

Quem convidar para a festa e quem expulsar dela


Meu ateísmo não é o melhor dos mundos. Não o adotei por querer, mas por dever cético. É claro que seria muito mais agradável saber que todos os grandes vigaristas do planeta serão julgados no momento da morte, e que toda essa gente hipócrita que nos presenteia à helênica, corriqueiramente, com palestras não requisitadas sobre ela mesma, mas que não faz nada de muito útil ou realmente revolucionário, vai se afogar no Aqueronte num dia de mormaço intenso. Isso se eu acreditasse nessas mitologias, e se a mitologia fosse de fato ao meu gosto: pode ser que um possível Deus fosse antiquado e condenasse quem bebe, tem um humor escrachado e não faz louvor em rituais. Nesse caso – minha danação eterna –, prefiro acreditar que o inferno é o lugar dos malditos em que vou beber no balcão não para tornar os outros mais interessantes (ou me tornar mais imune à chatice alheia), mas para atingir aquele nível de passarinho encantado sibilando valsas, que é como sou ao beber em casa, despreocupada por não ter que fingir tolerar nada. 

Duvidando de qualquer dessas histórias que são apenas isso mesmo – histórias –, considero que a vida é isso que está aí. E ponto. Eu vou acabar, você vai acabar, e tudo o que é nosso e considerávamos tão precioso servirá para fertilizar a terra. Esse entendimento pode gerar duas reações genéricas: uma delas, a de espanto metafísico, um desejo Woody Allen (do tempo dos bons filmes, que não eram como alguns outros dele que vemos numa semana e na outra já esquecemos a trama – indicativo de irrelevância; exemplo: Para Roma, com amor) de ser inoperante, porque existir não faz sentido, e passar a encarnar a Rê Bordosa com seu live fast, die young; a outra, de amor louco a essa efêmera coisinha que podemos aproveitar porque milhares de antepassados – humanos rudes, meio-macacos, seres recém saídos das águas, peixes, agrupamentos celulares – nos deram a oportunidade de participar desse evento que é a vida. Optei pela segunda alternativa. Acho-a justa. Sou diariamente grata à natureza e ao destino por ter pernas, lucidez, um emprego, dedos, visão, vontade de aprender: ou seja, sou grata pela vida – num sentido prático e sério, e não de quem acha que o melhor de todas as culturas são as danças circulares e os chás. Isso não me torna uma “pessoa positiva”: acho que as coisas são o que são, o que podemos e queremos mudar, que mudemos, o que não podemos mudar devemos deixar como está (por exemplo, estressar-se no trânsito é estupidez porque o estresse não vai fazer com que os carros fluam mais rápido). Mas isso me torna muito seletiva a respeito do que vale a pena fazer parte da parte da minha vida que controlo: minha intimidade e meus pensamentos. Assim, não quero ocupar nem minha intimidade, nem meus pensamentos com itens e sujeitos que nada me acrescentam ou que, pior, me diminuem. Venho fazendo uma seleção de tudo isso há anos. No concernente a itens, evito ter que ver, participar, ouvir falar de coisas desinteressantes que só vão ocupar espaço na minha memória limitada: se entrar muito entulho na minha cabeça, terei menos espaço para o que é valioso, ou mesmo as coisas valiosas ficarão pouco concentradas porque precisarão dar lugar a inutilidades. É o tipo de fórmula que pode nos levar a parecer agrestes: já pedi para interlocutores pararem de falar sobre determinados assuntos porque eu não ia conseguir prestar atenção, e, se prestasse, não gravaria a informação nem por cinco minutos. O tempo é muito precioso para que façamos com que nos falem de temas que não nos importam. (A alternativa a essa rusticidade quando encontramos alguém dado à tagarelice contínua – a.k.a. monólogo – é a introspecção: por fora, dizemos “hm”, “uhum” e “ah, é mesmo?”, por dentro estamos fazendo listas de compras, treinando a tabuada, lembrando a discografia do Killing Joke e planejando viagens. Se surpreendentemente o falante voraz parar sua conferência para nos fazer uma pergunta e não tivermos ouvido porque estávamos escolhendo que marca de aveia comprar mais tarde, podemos nos sair com “olha… não sei” ou fingir surdez com “o quê? desculpe, não entendi”.) No concernente a pessoas, evito inúmeros tipos, primeiro porque não gosto deles, segundo porque não tenho tempo para eles. Vejam, se tudo der certo, daqui a muitas décadas vou morrer. Até lá, terei lido tudo que quero ler? Terei aprendido tudo que gostaria de aprender? Terei visto todos os filmes que coloquei na Watchlist do IMDB? Terei ouvido todos os álbuns de black metal, jazz e cold wave que pretendi ouvir? Com certeza não. (Numa remotíssima hipótese de eu já ter esgotado tudo isso, digamos, aos 80 anos – “pronto, não há mais nada que eu precise ler, ver ou aprender” –, aí eu poderia explodir meus miolos, porque seria lamentável ter que passar as tardes vendo televisão por não haver mais nada para fazer enquanto a morte não chega.) 

Muito bem, se uma vida não bastará para fazer tudo que planejo – e já me conformei com isso, não é algo que falo quebrando grilhões na fuga do calabouço –, por que é que vou piorar essa situação colocando pessoas desagradáveis para ocupar minha solidão? Já disse, e repito: quando estou lendo um bom livro, estou lendo a melhor parte do que seu autor tinha para me oferecer. Às vezes o autor por completo é um patife. Um chato. Um pitoresco que jamais daria certo com o meu gênio. E eu não preciso do autor completo quando tenho o melhor dele inserido num livro: o livro dele me basta. Ao assistir a um filme, estou lidando com o melhor que seu roteirista, diretor, argumentador e tantos outros componentes puderam realizar: lido com pessoas, dependo de pessoas para que toda essa nobreza artística chegue a mim, mas trato com o que há de mais interessante nelas. O mesmo não acontece com as inúmeras figuras sem atrativos que tantos insistem em colocar para dentro de suas intimidades. Resultado: espíritos fedorentos estão trocando vapores em salões de festa, “jantar entre amigos da faculdade”, salas de estar, páginas pessoais. Não foi para esse teatrinho fajuto que me tornei a ponta de uma longa cadeia geracional de luta pela existência. Claro, todos atuamos um bocado porque precisamos disso para viver em sociedade e às vezes não atuar é uma tremenda falta de educação: a moça da padaria que te atende, trabalha nos finais de semana e ganha um salário exíguo não merece receber seu olhar de desprezo (trabalhei numa padaria por um mês, sei que mesmo o Zé Pintor é capaz de chegar para uma moça que está atrás de uma cesta de pão e achar que é superior a ela) só porque você, sujeito pelo qual os astros se movem, acordou de mau humor. Também não me lembro de nenhum “sou eu mesmo sempre” ter sido aprovado em entrevistas de emprego que incluem dinâmicas de grupo e farsas do tipo “meu maior defeito é o perfeccionismo”. O problema sucede quando atuamos mesmo onde não precisamos atuar, que é a nossa privacidade. Ninguém está obrigado a levar para casa pessoas que não têm com o que contribuir. Parece um manifesto contra a amizade e a favor do profundo egoísmo de só ficar com aquilo que é magnífico dos que nos cercam, mas não é. Ocorre que há defeitos e defeitos. Nossos amigos não podem nos suprir com utilidades o tempo todo, mas e no tempo em que não nos acrescentam nada, o que oferecem? Indignação com a feliz vida financeira alheia? Opiniões mancas de quem quer falar sobre qualquer assunto, mas tem preguiça de dar uma estudada antes de encerrar o caso? Apenas lembranças de histórias que já foram chafurdadas inúmeras vezes? Competições que só geram ansiedade desnecessária? Posso ajudar com alguns perfis que merecem ser expulsos da festividade única que é a nossa vida. Se você está num dos perfis, recomendo ir tomar um banho, fazer silêncio por três dias e refletir. Se você acha que não sou sequer um mosquito para recomendar o que cada um faz com sua vida, por que está lendo este texto? Jeez

O EXIBIDO – É um visualizador de oportunidades. Gosta de ter amigos de diversas profissões para sempre ter a quem recorrer num momento de necessidade. Gosta de dizer “tenho uma amiga cozinheira” quando a moda da Gastronomia está em alta e “tenho um amigo gay” desde que foi criado esse fetiche obtuso de que é o máximo ter um amigo gay. Gosta de ter amigos que fazem coisas “incríveis”, então você será visado se viaja para lugares exóticos ou se vive expondo trabalhos em feiras de arquitetura. Se você se tornar famoso, vai aproveitar para crescer em popularidade em cima da sua fama. 

O INVEJOSO – Mais comum do que se pensa, o invejoso pode ser o livro aberto da inveja ou ter artimanhas para esconder seus sentimentos pérfidos. Comportamento: não fica muito feliz quando algo bom acontece na sua vida (quando 10% disso ocorre na vida dele, é motivo para simpósio e champagne), se você consegue um emprego melhor já vai perguntando quanto é o salário (para comparar se você o ultrapassou e quantos reais a mais você tem de felicidade por mês), situações que você vê como boas na sua vida recebem um novo olhar do invejoso – você é mulher que trabalha fora e seu marido está alguns meses sem emprego e cuidando da casa: para vocês, ótimo, para o invejoso, “será que não seria bom que o Alberto trabalhasse fora? Não é estranho que você trabalhe e ele fique desempregado cuidando dos filhos em casa?” (é diferente de você achar algo ruim na sua vida e um amigo concordar; ou seu amigo abrir seus olhos sobre algo ruim que você não via) –, parece vibrar quando algo na sua bela vida dá errado e até acha que você tem o direito de ser feliz, desde que não ouse ser mais feliz que ele. 

O UMBIGO TAGARELA – Muitas pessoas assim passaram pela festa da minha vida. Chegaram como se trajassem Azzedine Alaïa, tomaram conta das jarras de ponche, roubaram o microfone dos rapazes da banda e falaram sobre suas vidas as coisas mais insossas que fariam um coala se tornar maratonista. Urinaram na piscina, trocaram a música do Depeche Mode “por outra muito melhor” e depois foram embora dizendo que foi o evento mais sensacional a que já foram e que “devíamos fazer outras vezes”. Não percebem que estão falando sozinhas no que não é uma conversa. Repetem histórias. Perguntam coisas somente quando querem ganchos para contar seus sonhos e experiências – “já foi a Zurique?” “sim, eu...” “pois é, eu adoro Zurique, quero ver se faço doutorado lá, porque na maior universidade deles há uma linha de pesquisa que...”. Voltam de viagens de três dias à Rússia fazendo análises antropológicas e achando que já podem escrever etnografias sobre o povo russo. Narram cada passo de suas rotinas. Você não fala nada nem em um vigésimo do tempo, mas é chamado de pessoa amiga, simpática, querida. O tagarela é um sanguessuga. 

O PROVOCADOR – Esse é comum desde que determinei que todos os comes e bebes seriam veganos. Não costumo começar nenhuma conversa sobre veganismo. Não tento “converter” ninguém, todo mundo acha que o sabor de pedaços e pus de animais é argumento para comê-los e eu acho isso o cúmulo do hedonismo imoral. Só falo que sou vegana para que cessem de me oferecer comidas. Mas o provocador gosta de aparecer com “desafios”. Suas feições são irônicas (tenho horror a quem dorme e acorda com expressão irônica) porque ele acha que ironia é, obrigatoriamente, sinal de inteligência. Ele aparece e diz, peremptório: “hoje li que algumas marcas de pneu levam cartilagem bovina, fiquei me perguntando se você pega ônibus por ser vegana”. Não é uma dúvida de alguém que ignora e quer saber. É uma provocação. O arzinho é outro. Ele não chega e fala o bom português camaradão. Ele insinua, porque acha que é o maioral, o que sabe das coisas. Chato, cansativo e bobo. 

O DAS INDIRETAS – Você tem o cabelo crespo. Ele diz, numa roda de conversa: “tem gente, por exemplo, que tem aquele cabelo crespo seco e deixa ele solto, por que não fazem um corte melhor ou amarram o cabelo?” Seu namorado é mais novo que você. Ele diz, falando sobre uma mulher mais velha que tentou seduzi-lo: “ah, não, é ridículo namorar uma velha, ela que tire o cavalinho da chuva”. Você está com uma barriguinha, mas numa relação amigável. Ele, magro, diz, quando vai comer um pedaço de bolo: “tenho que me cuidar, estou virando um porco”. Você é uma senhora, mas isso não te impede de usar saias curtas e decotes em festas. Você chega à festa e ele diz sobre uma senhora um pouco mais velha que está com trajes parecidos: “meu deus, lá vai ela achando que é Madonna”. Se você acusa o recebimento da indireta, recebe a contemporização falsa: “ah, mas você não é velha como ela; e a roupa dela é diferente”. Você não tem empregada doméstica nem diarista em casa. Depois de te visitar, ele comenta: “nossa, tenho que ligar para a Fátima, porque hoje em dia qualquer casa sem uma diarista vira um antro de ratos”. As indiretas costumam ser sobre assuntos fúteis. Mas quem quer na festinha da própria vida alguém que sente prazer em sentir desprezo pelos “amigos”? Precisamos que nos elevem (mesmo com críticas, desde que bem intencionadas), não que nos menosprezem.

O QUE SE RECUSA A APRENDER – Interessantemente, nunca gosta muito das nossas recomendações. É avesso a admitir que pode aprender coisas incríveis com pessoas normais como você. Aquele disco que você recomendou? Não achou tão bom. Aquele livro? Era “bonzinho”, mas há melhores. Jamais dirá: “esse autor que você me recomendou se tornou um dos meus preferidos, obrigado” ou “não consigo parar de ouvir aquela música que você me mostrou”. Mas ele gosta muito de recomendar as coisas que ele “descobriu por si”. Às vezes é apenas a recomendação de uma outra pessoa, que pessoalmente ele também trata com certo desdém. Odeia admitir que admira os amigos próximos, porque é tão calhorda que acha que ao elogiar alguém “comum” está se rebaixando. Admirável é o jornalista que recomendou ler Gertrude Stein, não vocêzinho que é metido a intelectual e disse que Mary McCarthy é uma escritora portentosa. Por ser um tipo de arrogante, não merece ódio, mas pena. 

O FÚTIL – Gosta de se atolar na vida das pessoas – dos chefes, dos colegas de trabalho, dos colegas de curso, dos vizinhos – para extrair qualquer coisa curiosa. Gosta de comentar sobre o carro que o vizinho comprou, mas não porque é fã de automóveis, e sim porque em cima disso vai se perder nas questões em série: “como comprou? Por que comprou? Mas com o que ganha poderia comprar? Vai se endividar, só pode”. Faz comentários como “Lucinda é bonita demais para Túlio, devia arranjar outro namorado”, por mais que Lucinda e Túlio sejam muito felizes juntos. Repara se as pessoas têm furos ou manchas nas roupas. Não é idoso e diz aberrações como “Joana está saindo com um moreninho que é até bonito” – quando o “moreninho” é um negro, sem dúvida. Acha que velhos precisam se vestir como estereotipados velhos, gordos têm que se vestir como gordos e chama qualquer excêntrico de “esquisito”. Sente vergonha quando está com alguém “mal vestido”. Adora dinheiro e pessoas com dinheiro. Acha que viver é uma eterna ambição financeira. É difícil falar com ele sobre livros, filmes, música, a menos que sejam os do momento. 

Basicamente, essas são as personas das quais me esquivo. Há outras. E também há aquelas coisas que nos deixam boquiabertos, mas que não são de tamanho suficiente para um rompimento de amizade ou afastamento, como quando um amigo nos cobra os dez centavos que gastamos a mais num café ou nos presenteia com algo sem sentido (uma porcaria barata e feia, porque ele não quis gastar tempo nem dinheiro com o presente). E quem convidar para a festa? Acho que, no fundo, todos nós sabemos quais pessoas nos fazem bem e quais nos fazem mal. O motivo de mantermos tanta gente pavorosa transitando na nossa varandinha e dando pitaco no que fazemos é de ordem cultural: fomos ensinados pelo mundo que a solidão é algo ruim, que todo mundo tem amigos e que as redes sociais só funcionam justamente porque temos um círculo de contatos. Você deve ter contatos. Se não tiver, talvez não saiba lidar com isso, e talvez acabe agravando a situação geral da depressão, um dos grandes males do século. Para mim, é algo difícil de entender: “estou aqui, nesse bar, com essa pessoa modorrenta que não para de falar de si mesma, quando poderia estar em casa vendo um filme; e mais tarde, certamente, tiraremos uma foto para mostrar para todo mundo que estamos por aí, que estamos nos mexendo”. Esse teatro íntimo patético pode ser evitado. Se não sobrar ninguém, isso não será novidade: pessoas louváveis e elegíveis como amigas são raríssimas. Não é à toa que os filósofos se debatem há milênios sobre o problema da amizade: ela é tão excepcional na sua forma verdadeira que aquele que encontra um bom amigo pode se dizer afortunado – é o que diz qualquer filósofo que preste algum bocado. Quem não encontra não precisa se entristecer. Ninguém disse que uma festa não pode ocorrer porque há apenas um convidado nela.