sábado, julho 09, 2016

Rápidas e soltas 12: Escola sem partido, gênero, mulheres no jornalismo


A polêmica do momento é o avanço da aceitação do programa (transformado em projeto de lei) "Escola sem partido". O que leio? Dois lados. Quem está certo? Nenhum deles. Tenho a fortíssima impressão de que a reação mais comum a um extremismo é o surgimento de outro extremismo: oposto, mas igualmente estrondoso. Desponta uma opinião extrema que se transforma no pensamento de um grupo. Quem fará o contraponto? Raramente um grupo equilibrado, moderado, cauteloso. Possivelmente um grupo que vai propor o avesso de tudo que o primeiro propôs e também tacará fogo na civilização em nome do erguimento de uma nova. Acredito que muitas das minhas convicções precisam ser repensadas ou polidas – não faz tanto tempo que abandonei certos extremismos –, mas mesmo assim tenho me sentido, num meio dicotômico, uma pária. Não é diferente com o caso da escola sem partido. Em artigo para a morta-viva Revista de História da Biblioteca Nacional (aparentava ter morrido em novembro, implorou por doações para fechar as contas de 2015, não publicou nada desde dezembro e depois apareceu com uma edição solta em maio), Fernando de Araujo Penna critica a "criminalização da prática docente" e o que ele alega ser a proibição de o professor trazer para a aula assuntos do cotidiano. Foi isso o que ele entendeu do seguinte trecho do site que divulga o programa: “Você pode estar sendo vítima de doutrinação ideológica quando seu professor se desvia frequentemente da matéria objeto da disciplina para assuntos relacionados ao noticiário político ou internacional”. Não entendi a indignação. Penna é professor universitário. Há quanto tempo está afastado das escolas de ensino básico? Existe uma abismal diferença entre um professor de história levar para a sala de aula assuntos controversos do momento para gerar algum debate e um professor chegar com aquela cara pedante, que inúmeros professores de história gostam de fazer (rivalizam, nesse ponto, com os de filosofia, e a marca que o tempo deixa no rosto os fará serem enterrados com essa estranha expressão de pato sabido), e soltar para os alunos o que está longe de ser um “incentivo ao diálogo”: “viram o golpe à democracia que acabamos de viver? Agora vocês entendem o que aconteceu em 1964”. Esses mesmos professores que levam esquerdismo para a sala – lobo trajado de “formação cidadã e crítica” – só execram o autoritarismo alheio: o deles é salutar e com finalidade ética. Quando descobrem que outro professor está defendendo, nas aulas, ideias abraçadas pela direita, passam a querer ser censores. 

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Ensino básico não é universidade. Quer fazer uma aula mais autoral em que assuntos de grande porte serão discutidos entre adultos e com a relativa igualdade que uma discussão entre adultos proporciona? Estude e vá lecionar na universidade, professor. Pare de querer achar que o ensino fundamental é campo para você brincar de ser importante ao estilo Hegel versus Schopenhauer vamos-ver-quem-consegue-mais-inscritos, porque os alunos não têm a opção de não ir a suas aulas e é uma tremenda covardia querer seduzir crianças a aderir a um discurso porque o professor bacanão – o “roqueiro”, o que “fala mesmo”, o maconheiro politizado de dreads, o tatuado, o motoqueiro selvagem, o que parece saído do presídio, o que conversa “na língua da galera” – sabe que é persuasivo. Na dúvida se está abrindo um debate ou se está doutrinando, pense se outro professor com opinião oposta (desde que não aberrante, como seria a defesa da tortura e do assassinato em massa) teria o direito de levantar as opiniões dele numa aula para o seu filho. Ninguém merece chegar a casa e ser chamado de racista pelo filho porque o professor simplista disse que todos que são contra cotas raciais são racistas. Assim como eu não mandaria uma criança para a escola para que ela aprendesse que o Collor foi um homem bom que foi traído, eu também não quereria que ela aprendesse que o Lula foi um homem bom que foi traído. “Ah, mas não conseguiram provar nada contra o Lula até agora.” E contra o Collor? Em 2014 o STF encerrou o caso da investigação de Collor por falta de provas. Se na falta de provas presumimos a inocência de Lula – mesmo que esteja há muitos anos sendo delatado e que tenha inúmeros amigos íntimos corruptos –, devemos presumir a inocência de Collor, e o professor de história não tem que usar dois pesos e duas medidas na hora de persuadir meu filho de que um é Sócrates e o outro é cicuta. 

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Quanto à discussão sobre gênero em salas de aula, que os adeptos da Escola sem partido rejeitam, não há motivo para fingir que transgêneros não existem ou achar que é “natural” que outras crianças não saibam respeitá-los. Por mais que os pais considerem que “homens são homens e mulheres são mulheres”, os transgêneros estão no mundo e merecem ser tratados com urbanidade, concorde-se ou não com o que fazem com suas posturas e corpos. Falar sobre gênero na escola não é trocar a trigonometria por uma dinâmica de experimentação de papéis em que os meninos terão que vestir saias e passar batom enquanto as meninas lerão revistas sobre carros sentadas com pernas bem abertas. A escola não vai ensinar ninguém a trocar de gênero. Se esse tipo de abordagem tivesse aparecido nas aulas de sociologia e filosofia na minha infância e adolescência, por exemplo, teria sido muito mais fácil lidar comigo mesma num momento em que eu não sabia quem eu deveria ser. Eu adorava o universo masculino e queria tomar muitas coisas dele, mas também não estava disposta a abandonar o chamado universo feminino com tantas atribuições maravilhosas que estão no edital do concurso para ser mulher. Querendo viver nos dois âmbitos, fui expulsa dos dois clubes: as meninas não me queriam porque eu não era menina o suficiente e os meninos não me aceitaram porque eu não era, de fato e nem bem disfarçada, um menino. Revoltada com essa determinação de conduta tão taxativa – ou você é isso, ou é aquilo, não pode ser os dois –, fiquei em estado de graça quando descobri, no final do ensino fundamental, a proposta do feminismo de acabar com essa história de que por ser mulher tenho que falar assim, tenho que me vestir assado e ter um comportamento condizente com o gênero que me obrigaram a adotar. Também me apaixonei por figuras andróginas como David Bowie e Grace Jones, que tinham a sorte de poder usar calças e vestidos quando bem entendessem por causa da licença artística. Proibir que explicações sobre gênero apareçam na escola é impedir, na verdade, que crianças e adolescentes possam ser quem quiserem ser. Às vezes parece que pessoas como Marco Feliciano temem que falar sobre gênero possa transformar todos os garotos em travestis e todas as garotas em Thammy Miranda – uma visão estereotipada sobre o que significa entender que não precisamos nos portar como manda o peso dos séculos. Quando a primeira mulher apareceu de calças, havia uma questão de gênero ali. Quando uma mulher reivindica, em seu local de trabalho, que não é justo que ela tenha que usar salto para fazer a mesma coisa que um homem faz de tênis, há uma questão de gênero aí. Quando um homem, heterossexual, decide usar “roupas de mulher” porque acha que são mais bonitas, estamos falando de transgressão contra imposições de gênero. O que há de mais nisso? 

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Sempre tive receio de emitir julgamento sobre a sexualidade alheia por causa da postura. Pelo menos das pessoas que eu gosto. Havia esse rapaz. Ele era gentil, tinha mais amigas mulheres que amigos homens, nunca brincou de puxar a cueca dos outros. Diziam que ele era gay. Podia ser, é verdade, mas eu preferia não determinar isso. No fim, ele era gay. Eu estava errada em achar que não era? Não achei que não era por não querer que fosse, porque para mim tanto faz com quem as pessoas dormem e por quem seus sinos sexuais dobram, mas eu achei que não era gay porque considerava cansativo e de senso comum supor que só porque um rapaz é mais delicado isso significa que ele é homossexual. Questões hormonais podem influenciar o jeito de muitos homossexuais, mas isso não é regra. Lembro de uma amiga ter sido perguntada por colegas limitadas de um empreguinho ruim se era lésbica. O motivo que deram: porque ela usava tênis e mochila. Não é nenhum xingamento quando presumem que alguém é gay, mas essa presunção não costuma ser suave e complacente para o bem. É claro que reservamos maldades para nossos inimigos – não vejo problema em comentar em particular sobre um sujeito asqueroso que suponho viver no armário “ih, lá vai a bicha” –, mas acho estranho quando perseguimos nossos amigos ou os amigos de nossos amigos com julgamentos genéricos. Pior: quando difamamos alguém por uma hipotética sexualidade genuína não revelada. A maioria das pessoas que não são gays não querem que comentem que elas são. Uma amiga com mais de quarenta, solteira, diz que já acharam inúmeras vezes que ela era lésbica. Por quê? Porque ela é uma mulher mais velha solteira. Está proibido passar dos quarenta sem carregar parceiros do sexo oposto para o cinema, porque isso é sinal de “ser gay”. Um outro conhecido, homem, mas também mais velho, era alvo de comentários sobre ser gay porque nunca tinha sido visto com uma mulher. Mas ele adorava mulheres, elas é que o rejeitavam. Se sabia que suspeitavam que era gay, não sei, e perdi o contato com ele. Até espero que não saiba. 

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A sociedade comum não está preparada para destruir (nada de “desconstruir”, essa palavra medonha que deveria ser enterrada com “pró-ativo” e “problematizar”) os blocos de gênero a fim de deixar todo mundo mais à vontade, mas muitas vezes precisamos ter paciência e compreensão com isso. No último ano em que trabalhei numa creche, peguei uma turminha de dois anos. Havia um menino que sempre observava quando eu e minha colega de sala arrumávamos os cabelos das meninas. Um dia, ele pediu para que fizéssemos uma “maria-chiquinha” no cabelo dele. Minha colega ficou muito constrangida e esperando que eu ajudasse a nos livrarmos da situação. Ajudei: disse para ela fazer (ele tinha pedido a ela) porque não havia nenhum problema nisso. Envergonhada – e entendo a reação dela, que sempre viveu no interior e achava que era bom que Patati e Patatá existissem (esses palhaços insuportáveis, mercenários e forçados) –, ela fez. Quando isso aconteceu de novo, na hora de ir embora o menino ia ficar com uma senhora porque eu saía meia hora antes de a creche fechar. No dia seguinte, ela veio até mim com tom repressor você-pensa-que-estamos-em-San-Francisco e disse que o pai pedira para que nunca mais fizessem chiquinhas no cabelo do filho. Não fiz. Mas deixei para minha colega explicar a ele, que pediu outras vezes, que aquilo “era coisa de menina”. Eu não tinha que desafiar o pai num ponto tão sensível. É claro que um novo penteado na infância não faria com que o menino, quando adulto, fosse trazer Carlos e Juan para passar as noites em seu quarto fazendo guerra de travesseiros, mas o pai achava isso e eu precisei entender que no lugar dele e com a formação dele eu pensaria o mesmo. Mantive meu combate às regras de gênero em outras coisas: pedindo “mãe, por favor, pare de mandar sua filha de sandálias para a creche, não é confortável brincar de sandálias”, ou “mãe, deixe o vestido para a missa, mande sua filha de bermuda ou de calça”, ou escolhendo brincadeiras que envolvessem todos em papéis, como quando brincávamos de casinha e os meninos lavavam a louça enquanto as meninas saíam para trabalhar. Obviamente muitas dessas coisas me transformavam em “Barbara, a estranha”, só que sem poderes paranormais, perante muitas pedagogas antiquadas. Eu é que devo achar estranho que em pleno século XXI muitas creches sejam centrais de reprodução dos anos 40. Não é um bom jeito de brincar de máquina do tempo. 

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O maior motivo para eu ter assinado a Folha de S. Paulo digital foi para poder ler colunas. As notícias o Uol disponibilizava de graça (o texto não parece tão bom e a própria fonte é desagradável, mas é válido que você só tenha que olhar anúncios para poder ler a página). Só hoje percebi que quase só gosto das colunas de homens. Leio tudo que o Ruy Castro escreve (ele é tão atraente que me faz querer ler sobre assuntos que nunca me interessaram – a vida de Carmen Miranda, por exemplo – só porque ele é o biógrafo). Bernardo Mello Franco é uma joia. Toda segunda leio Gregório Duvivier e Pondé – geralmente para passar raiva com ambos, mas leio, porque são melhores que muito escritor mosca-morta. Cony é aquele que eu queria que fosse meu vizinho. João Pereira Coutinho é precioso, apesar de venerar o capitalismo. Demétrio Magnoli e Elio Gaspari têm uma inteligência assombrosa. Há outros que leio quando o primeiro parágrafo me chama a atenção. Há os que não leio, porque são enfadonhos, como Antonio Prata, Kim Kataguiri e André Singer. Da parte das escritoras mulheres, que já são em menor número, a única que vale a sentada é a Fernanda Torres. As outras, ou têm vitalidade, mas não têm inteligência, ou têm inteligência, mas não têm vitalidade. Algumas são confusas. Tati Bernardi às vezes quer ser um corpo, às vezes quer ser um cérebro, e os homens que não acompanharem essa instabilidade receberão críticas. Então ela desanda a escrever sobre assuntos chatíssimos como celulite, magreza, gordura, sexo no tanque, fetiche com comida; ofende a si mesma e a outras mulheres que, como eu, saem piores do que quando entraram na coluna. De repente, lembra que é um ser humano e tenta ser um pouco profunda, um pouco feminista, mas não convence. Passa a achar que não é engraçada o suficiente quando fala de assuntos mais sérios e volta a falar sobre chocolate, papada, peito caído. Com Mariliz Pereira Jorge é parecido, apesar de ela ser um pouco melhor. Passa um tempo falando de futilidades femininas que só trazem doença, física e mental. Faz protesto contra invejosos, fala de ter uma bunda linda brilhando no sol, reclama da celulite, provoca que vai ali comer uma costela de porco ao falar de vegetarianos. Então lembra que tem coisas importantes a dizer e começa a escrever sobre tudo que há de podre no Rio de Janeiro romantizado que há muito tempo deixou de ser bacana, critica o sofrimento por que passam animais em parques aquáticos, pede aos pais que não limitem os desejos de suas filhas nesse mundo machista que oprime mulheres. Quer falar de opressão à mulher e ditadura da beleza, mas também do quanto é amedrontador levar uma vida com um corpo mais ou menos e que a idade assusta quando cria braços flácidos. O que essas colunistas têm de relevante no geral? Por que alguém deve ler coisas que induzam ao pavor de envelhecer? Sinto falta de uma mulher escrevendo como todos os homens que citei acima. Mulheres inteligentes, mas divertidas, com sacadas irônicas, talento literário. Mulheres que acrescentem. A Folha não faria mal convidando a nem sempre justa, mas ótima, Vilma Gryzinski para compor o quadro de colunistas. 

domingo, junho 26, 2016

Quem convidar para a festa e quem expulsar dela


Meu ateísmo não é o melhor dos mundos. Não o adotei por querer, mas por dever cético. É claro que seria muito mais agradável saber que todos os grandes vigaristas do planeta serão julgados no momento da morte, e que toda essa gente hipócrita que nos presenteia à helênica, corriqueiramente, com palestras não requisitadas sobre ela mesma, mas que não faz nada de muito útil ou realmente revolucionário, vai se afogar no Aqueronte num dia de mormaço intenso. Isso se eu acreditasse nessas mitologias, e se a mitologia fosse de fato ao meu gosto: pode ser que um possível Deus fosse antiquado e condenasse quem bebe, tem um humor escrachado e não faz louvor em rituais. Nesse caso – minha danação eterna –, prefiro acreditar que o inferno é o lugar dos malditos em que vou beber no balcão não para tornar os outros mais interessantes (ou me tornar mais imune à chatice alheia), mas para atingir aquele nível de passarinho encantado sibilando valsas, que é como sou ao beber em casa, despreocupada por não ter que fingir tolerar nada. 

Duvidando de qualquer dessas histórias que são apenas isso mesmo – histórias –, considero que a vida é isso que está aí. E ponto. Eu vou acabar, você vai acabar, e tudo o que é nosso e considerávamos tão precioso servirá para fertilizar a terra. Esse entendimento pode gerar duas reações genéricas: uma delas, a de espanto metafísico, um desejo Woody Allen (do tempo dos bons filmes, que não eram como alguns outros dele que vemos numa semana e na outra já esquecemos a trama – indicativo de irrelevância; exemplo: Para Roma, com amor) de ser inoperante, porque existir não faz sentido, e passar a encarnar a Rê Bordosa com seu live fast, die young; a outra, de amor louco a essa efêmera coisinha que podemos aproveitar porque milhares de antepassados – humanos rudes, meio-macacos, seres recém saídos das águas, peixes, agrupamentos celulares – nos deram a oportunidade de participar desse evento que é a vida. Optei pela segunda alternativa. Acho-a justa. Sou diariamente grata à natureza e ao destino por ter pernas, lucidez, um emprego, dedos, visão, vontade de aprender: ou seja, sou grata pela vida – num sentido prático e sério, e não de quem acha que o melhor de todas as culturas são as danças circulares e os chás. Isso não me torna uma “pessoa positiva”: acho que as coisas são o que são, o que podemos e queremos mudar, que mudemos, o que não podemos mudar devemos deixar como está (por exemplo, estressar-se no trânsito é estupidez porque o estresse não vai fazer com que os carros fluam mais rápido). Mas isso me torna muito seletiva a respeito do que vale a pena fazer parte da parte da minha vida que controlo: minha intimidade e meus pensamentos. Assim, não quero ocupar nem minha intimidade, nem meus pensamentos com itens e sujeitos que nada me acrescentam ou que, pior, me diminuem. Venho fazendo uma seleção de tudo isso há anos. No concernente a itens, evito ter que ver, participar, ouvir falar de coisas desinteressantes que só vão ocupar espaço na minha memória limitada: se entrar muito entulho na minha cabeça, terei menos espaço para o que é valioso, ou mesmo as coisas valiosas ficarão pouco concentradas porque precisarão dar lugar a inutilidades. É o tipo de fórmula que pode nos levar a parecer agrestes: já pedi para interlocutores pararem de falar sobre determinados assuntos porque eu não ia conseguir prestar atenção, e, se prestasse, não gravaria a informação nem por cinco minutos. O tempo é muito precioso para que façamos com que nos falem de temas que não nos importam. (A alternativa a essa rusticidade quando encontramos alguém dado à tagarelice contínua – a.k.a. monólogo – é a introspecção: por fora, dizemos “hm”, “uhum” e “ah, é mesmo?”, por dentro estamos fazendo listas de compras, treinando a tabuada, lembrando a discografia do Killing Joke e planejando viagens. Se surpreendentemente o falante voraz parar sua conferência para nos fazer uma pergunta e não tivermos ouvido porque estávamos escolhendo que marca de aveia comprar mais tarde, podemos nos sair com “olha… não sei” ou fingir surdez com “o quê? desculpe, não entendi”.) No concernente a pessoas, evito inúmeros tipos, primeiro porque não gosto deles, segundo porque não tenho tempo para eles. Vejam, se tudo der certo, daqui a muitas décadas vou morrer. Até lá, terei lido tudo que quero ler? Terei aprendido tudo que gostaria de aprender? Terei visto todos os filmes que coloquei na Watchlist do IMDB? Terei ouvido todos os álbuns de black metal, jazz e cold wave que pretendi ouvir? Com certeza não. (Numa remotíssima hipótese de eu já ter esgotado tudo isso, digamos, aos 80 anos – “pronto, não há mais nada que eu precise ler, ver ou aprender” –, aí eu poderia explodir meus miolos, porque seria lamentável ter que passar as tardes vendo televisão por não haver mais nada para fazer enquanto a morte não chega.) 

Muito bem, se uma vida não bastará para fazer tudo que planejo – e já me conformei com isso, não é algo que falo quebrando grilhões na fuga do calabouço –, por que é que vou piorar essa situação colocando pessoas desagradáveis para ocupar minha solidão? Já disse, e repito: quando estou lendo um bom livro, estou lendo a melhor parte do que seu autor tinha para me oferecer. Às vezes o autor por completo é um patife. Um chato. Um pitoresco que jamais daria certo com o meu gênio. E eu não preciso do autor completo quando tenho o melhor dele inserido num livro: o livro dele me basta. Ao assistir a um filme, estou lidando com o melhor que seu roteirista, diretor, argumentador e tantos outros componentes puderam realizar: lido com pessoas, dependo de pessoas para que toda essa nobreza artística chegue a mim, mas trato com o que há de mais interessante nelas. O mesmo não acontece com as inúmeras figuras sem atrativos que tantos insistem em colocar para dentro de suas intimidades. Resultado: espíritos fedorentos estão trocando vapores em salões de festa, “jantar entre amigos da faculdade”, salas de estar, páginas pessoais. Não foi para esse teatrinho fajuto que me tornei a ponta de uma longa cadeia geracional de luta pela existência. Claro, todos atuamos um bocado porque precisamos disso para viver em sociedade e às vezes não atuar é uma tremenda falta de educação: a moça da padaria que te atende, trabalha nos finais de semana e ganha um salário exíguo não merece receber seu olhar de desprezo (trabalhei numa padaria por um mês, sei que mesmo o Zé Pintor é capaz de chegar para uma moça que está atrás de uma cesta de pão e achar que é superior a ela) só porque você, sujeito pelo qual os astros se movem, acordou de mau humor. Também não me lembro de nenhum “sou eu mesmo sempre” ter sido aprovado em entrevistas de emprego que incluem dinâmicas de grupo e farsas do tipo “meu maior defeito é o perfeccionismo”. O problema sucede quando atuamos mesmo onde não precisamos atuar, que é a nossa privacidade. Ninguém está obrigado a levar para casa pessoas que não têm com o que contribuir. Parece um manifesto contra a amizade e a favor do profundo egoísmo de só ficar com aquilo que é magnífico dos que nos cercam, mas não é. Ocorre que há defeitos e defeitos. Nossos amigos não podem nos suprir com utilidades o tempo todo, mas e no tempo em que não nos acrescentam nada, o que oferecem? Indignação com a feliz vida financeira alheia? Opiniões mancas de quem quer falar sobre qualquer assunto, mas tem preguiça de dar uma estudada antes de encerrar o caso? Apenas lembranças de histórias que já foram chafurdadas inúmeras vezes? Competições que só geram ansiedade desnecessária? Posso ajudar com alguns perfis que merecem ser expulsos da festividade única que é a nossa vida. Se você está num dos perfis, recomendo ir tomar um banho, fazer silêncio por três dias e refletir. Se você acha que não sou sequer um mosquito para recomendar o que cada um faz com sua vida, por que está lendo este texto? Jeez

O EXIBIDO – É um visualizador de oportunidades. Gosta de ter amigos de diversas profissões para sempre ter a quem recorrer num momento de necessidade. Gosta de dizer “tenho uma amiga cozinheira” quando a moda da Gastronomia está em alta e “tenho um amigo gay” desde que foi criado esse fetiche obtuso de que é o máximo ter um amigo gay. Gosta de ter amigos que fazem coisas “incríveis”, então você será visado se viaja para lugares exóticos ou se vive expondo trabalhos em feiras de arquitetura. Se você se tornar famoso, vai aproveitar para crescer em popularidade em cima da sua fama. 

O INVEJOSO – Mais comum do que se pensa, o invejoso pode ser o livro aberto da inveja ou ter artimanhas para esconder seus sentimentos pérfidos. Comportamento: não fica muito feliz quando algo bom acontece na sua vida (quando 10% disso ocorre na vida dele, é motivo para simpósio e champagne), se você consegue um emprego melhor já vai perguntando quanto é o salário (para comparar se você o ultrapassou e quantos reais a mais você tem de felicidade por mês), situações que você vê como boas na sua vida recebem um novo olhar do invejoso – você é mulher que trabalha fora e seu marido está alguns meses sem emprego e cuidando da casa: para vocês, ótimo, para o invejoso, “será que não seria bom que o Alberto trabalhasse fora? Não é estranho que você trabalhe e ele fique desempregado cuidando dos filhos em casa?” (é diferente de você achar algo ruim na sua vida e um amigo concordar; ou seu amigo abrir seus olhos sobre algo ruim que você não via) –, parece vibrar quando algo na sua bela vida dá errado e até acha que você tem o direito de ser feliz, desde que não ouse ser mais feliz que ele. 

O UMBIGO TAGARELA – Muitas pessoas assim passaram pela festa da minha vida. Chegaram como se trajassem Azzedine Alaïa, tomaram conta das jarras de ponche, roubaram o microfone dos rapazes da banda e falaram sobre suas vidas as coisas mais insossas que fariam um coala se tornar maratonista. Urinaram na piscina, trocaram a música do Depeche Mode “por outra muito melhor” e depois foram embora dizendo que foi o evento mais sensacional a que já foram e que “devíamos fazer outras vezes”. Não percebem que estão falando sozinhas no que não é uma conversa. Repetem histórias. Perguntam coisas somente quando querem ganchos para contar seus sonhos e experiências – “já foi a Zurique?” “sim, eu...” “pois é, eu adoro Zurique, quero ver se faço doutorado lá, porque na maior universidade deles há uma linha de pesquisa que...”. Voltam de viagens de três dias à Rússia fazendo análises antropológicas e achando que já podem escrever etnografias sobre o povo russo. Narram cada passo de suas rotinas. Você não fala nada nem em um vigésimo do tempo, mas é chamado de pessoa amiga, simpática, querida. O tagarela é um sanguessuga. 

O PROVOCADOR – Esse é comum desde que determinei que todos os comes e bebes seriam veganos. Não costumo começar nenhuma conversa sobre veganismo. Não tento “converter” ninguém, todo mundo acha que o sabor de pedaços e pus de animais é argumento para comê-los e eu acho isso o cúmulo do hedonismo imoral. Só falo que sou vegana para que cessem de me oferecer comidas. Mas o provocador gosta de aparecer com “desafios”. Suas feições são irônicas (tenho horror a quem dorme e acorda com expressão irônica) porque ele acha que ironia é, obrigatoriamente, sinal de inteligência. Ele aparece e diz, peremptório: “hoje li que algumas marcas de pneu levam cartilagem bovina, fiquei me perguntando se você pega ônibus por ser vegana”. Não é uma dúvida de alguém que ignora e quer saber. É uma provocação. O arzinho é outro. Ele não chega e fala o bom português camaradão. Ele insinua, porque acha que é o maioral, o que sabe das coisas. Chato, cansativo e bobo. 

O DAS INDIRETAS – Você tem o cabelo crespo. Ele diz, numa roda de conversa: “tem gente, por exemplo, que tem aquele cabelo crespo seco e deixa ele solto, por que não fazem um corte melhor ou amarram o cabelo?” Seu namorado é mais novo que você. Ele diz, falando sobre uma mulher mais velha que tentou seduzi-lo: “ah, não, é ridículo namorar uma velha, ela que tire o cavalinho da chuva”. Você está com uma barriguinha, mas numa relação amigável. Ele, magro, diz, quando vai comer um pedaço de bolo: “tenho que me cuidar, estou virando um porco”. Você é uma senhora, mas isso não te impede de usar saias curtas e decotes em festas. Você chega à festa e ele diz sobre uma senhora um pouco mais velha que está com trajes parecidos: “meu deus, lá vai ela achando que é Madonna”. Se você acusa o recebimento da indireta, recebe a contemporização falsa: “ah, mas você não é velha como ela; e a roupa dela é diferente”. Você não tem empregada doméstica nem diarista em casa. Depois de te visitar, ele comenta: “nossa, tenho que ligar para a Fátima, porque hoje em dia qualquer casa sem uma diarista vira um antro de ratos”. As indiretas costumam ser sobre assuntos fúteis. Mas quem quer na festinha da própria vida alguém que sente prazer em sentir desprezo pelos “amigos”? Precisamos que nos elevem (mesmo com críticas, desde que bem intencionadas), não que nos menosprezem.

O QUE SE RECUSA A APRENDER – Interessantemente, nunca gosta muito das nossas recomendações. É avesso a admitir que pode aprender coisas incríveis com pessoas normais como você. Aquele disco que você recomendou? Não achou tão bom. Aquele livro? Era “bonzinho”, mas há melhores. Jamais dirá: “esse autor que você me recomendou se tornou um dos meus preferidos, obrigado” ou “não consigo parar de ouvir aquela música que você me mostrou”. Mas ele gosta muito de recomendar as coisas que ele “descobriu por si”. Às vezes é apenas a recomendação de uma outra pessoa, que pessoalmente ele também trata com certo desdém. Odeia admitir que admira os amigos próximos, porque é tão calhorda que acha que ao elogiar alguém “comum” está se rebaixando. Admirável é o jornalista que recomendou ler Gertrude Stein, não vocêzinho que é metido a intelectual e disse que Mary McCarthy é uma escritora portentosa. Por ser um tipo de arrogante, não merece ódio, mas pena. 

O FÚTIL – Gosta de se atolar na vida das pessoas – dos chefes, dos colegas de trabalho, dos colegas de curso, dos vizinhos – para extrair qualquer coisa curiosa. Gosta de comentar sobre o carro que o vizinho comprou, mas não porque é fã de automóveis, e sim porque em cima disso vai se perder nas questões em série: “como comprou? Por que comprou? Mas com o que ganha poderia comprar? Vai se endividar, só pode”. Faz comentários como “Lucinda é bonita demais para Túlio, devia arranjar outro namorado”, por mais que Lucinda e Túlio sejam muito felizes juntos. Repara se as pessoas têm furos ou manchas nas roupas. Não é idoso e diz aberrações como “Joana está saindo com um moreninho que é até bonito” – quando o “moreninho” é um negro, sem dúvida. Acha que velhos precisam se vestir como estereotipados velhos, gordos têm que se vestir como gordos e chama qualquer excêntrico de “esquisito”. Sente vergonha quando está com alguém “mal vestido”. Adora dinheiro e pessoas com dinheiro. Acha que viver é uma eterna ambição financeira. É difícil falar com ele sobre livros, filmes, música, a menos que sejam os do momento. 

Basicamente, essas são as personas das quais me esquivo. Há outras. E também há aquelas coisas que nos deixam boquiabertos, mas que não são de tamanho suficiente para um rompimento de amizade ou afastamento, como quando um amigo nos cobra os dez centavos que gastamos a mais num café ou nos presenteia com algo sem sentido (uma porcaria barata e feia, porque ele não quis gastar tempo nem dinheiro com o presente). E quem convidar para a festa? Acho que, no fundo, todos nós sabemos quais pessoas nos fazem bem e quais nos fazem mal. O motivo de mantermos tanta gente pavorosa transitando na nossa varandinha e dando pitaco no que fazemos é de ordem cultural: fomos ensinados pelo mundo que a solidão é algo ruim, que todo mundo tem amigos e que as redes sociais só funcionam justamente porque temos um círculo de contatos. Você deve ter contatos. Se não tiver, talvez não saiba lidar com isso, e talvez acabe agravando a situação geral da depressão, um dos grandes males do século. Para mim, é algo difícil de entender: “estou aqui, nesse bar, com essa pessoa modorrenta que não para de falar de si mesma, quando poderia estar em casa vendo um filme; e mais tarde, certamente, tiraremos uma foto para mostrar para todo mundo que estamos por aí, que estamos nos mexendo”. Esse teatro íntimo patético pode ser evitado. Se não sobrar ninguém, isso não será novidade: pessoas louváveis e elegíveis como amigas são raríssimas. Não é à toa que os filósofos se debatem há milênios sobre o problema da amizade: ela é tão excepcional na sua forma verdadeira que aquele que encontra um bom amigo pode se dizer afortunado – é o que diz qualquer filósofo que preste algum bocado. Quem não encontra não precisa se entristecer. Ninguém disse que uma festa não pode ocorrer porque há apenas um convidado nela.

quarta-feira, junho 15, 2016

Rápidas e soltas 11: Duvivier e Millôr, Cosac Naify, Temer


Novamente Gregório Duvivier quer adaptar Millôr Fernandes, o múltiplo, a seus esquadros politicamente corretos. Não é a primeira vez que vem, em coluna, insinuar que Millôr tinha um humor atilado, revolucionário, "crítico", contra-hegemônico. Talvez queira adorar Millôr, mas sabe que não pode porque o humorista-tradutor-autodidata não se encaixa em seu novo espírito de censor que se confunde com amor ao coitado do próximo. Para poder adorar Millôr sem ser apedrejado pela esquerda que promove justiçamentos virtuais, Gregório resolveu "esquecer" o desenho de muitas das facetas de Millôr. "Esqueceu" que já nos anos 70 e 80 Millôr criticava o vocabulário politicamente correto. "Esqueceu" que Millôr criticava o comunismo e o socialismo por seu autoritarismo inerente. "Esqueceu" que Millôr tinha asco do Chico Buarque porque, como dito no Roda Viva, desconfiava "de todo idealista que lucra com o seu ideal". "Esqueceu" que Millôr repudiava outro grupo além dos médicos, dos políticos e dos psicanalistas: o das feministas (aquelas que difamaram o "feministo" Gregório quando ele apareceu numa capa de revista defendendo o aborto: para elas, em outras palavras e de acordo com seu jargão de clube, "roubando protagonismo"). "Esqueceu" que Millôr falava coisas sobre as mulheres – e as meninas de treze anos – que provocariam gritos de seios pelados na Avenida Paulista. Enfim, o Millôr que Gregório louva não existe. Para que Millôr pudesse deixar de ser o desbocado que era e se tornasse o cristão promotor de lava-pés que Duvivier quer que ele seja, seria preciso cortar, queimar e enterrar mais da metade de sua obra. A gente lê A Bíblia do caos e se pergunta se aquele que escreve e aquele que Gregório elogia em colunas esquerdistas é o mesmo sujeito. 

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Algumas de Millôr que foram compiladas no Millôr definitivo: a Bíblia do caos: “Murilo Mendes, mineiro e poeta, sempre com aquele ar de quem compra queijo-de-minas em Amsterdã”; “A boca é o aparelho excretor do cérebro”; “Esnobar/ É exigir café fervendo/ E deixar esfriar”; “Quando um intelectual para de falar parece que está desempregado”; “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!”; “Todo mundo tem uma porção de amigos que detesta e um ou outro inimigo de que gosta”; “Hay gobierno? Soy contra. No hay gobierno? También soy”; “Sempre tive o bom senso de não me aliar nem a grupos de escoteiros nem a grupos políticos, ou mesmo intelectuais e artísticos. Todos os grupos (sobretudo os altamente filantrópicos), ao fim e ao cabo, são apenas agências de emprego para seus membros”; “Uma vida passada entre quadros não faz um conhecedor de arte (vide vigias de museu)”. 

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Comecei a ler Millôr quando estava na sétima ou oitava série. Tomava emprestados alguns livros dele da biblioteca municipal. (Na mesma época, eu lia Agatha Christie com voracidade. Hoje, na estante da minha casa em São Paulo, só faço questão de ter O caso dos dez negrinhos.) Desde sempre gosto de humor e Millôr é muito fácil de ler. Mas mesmo naquele tempo eu já me horrorizava com algumas coisas: os ataques à psicanálise, o endeusamento de mulheres bonitas como as melhores mulheres (não à toa Katharine Hepburn dizia que as mulheres feias entendiam mais dos homens do que as bonitas), o tratamento rude dado às feministas, a crítica a qualquer coisa, seja porque fosse muito conservadora ou muito revolucionária. Millôr era bom, mas não escapava de vaias: como muitos humoristas, usa sarcasmo para encobrir a ignorância sobre certos assuntos. É mais fácil zombar daquilo que se desconhece do que tentar entender e perder a piada. O lema de muitos: "não entendo nada sobre isso, então vou tirar sarro".

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As coisas boas sobrevivem ao tempo. E me parece que somente as boas pessoas valorizam as coisas boas que sobrevivem ao tempo. Quando vejo gentes se debatendo para ir ao encontro de novidades (filmes, música, livros), eu me questiono se isso é amor ou é temporada. Uma novidade pode ser boa, é claro, apesar de ser muito mais fácil que não seja. Mas resistirá ao apelo por modernidade máxima de seus atuais discípulos? Todas aquelas pessoas que ouviam euro dance nos anos 90 e alegavam que aquele era o ritmo de uma era, que aquilo era para dançar ou morrer – nunca mais as encontrei ouvindo AB Logic ou 2 Brothers On The 4th Floor (eu, aliás, ouço). E para onde vão todos os medonhos livros de listas de “mais lidos” após dez ou vinte anos, já que perdemos contato com a maioria deles? 

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Há somente dois seriados que acompanhei por completo: Friends (pela comédia; as cenas de amor são para ir buscar algo na geladeira ou trocar o novelo do tricô) e Sex and the city (pela tremenda empáfia: que mulheres são essas vivendo desse jeito?). Podem me julgar à vontade. Também me julguei. Para me julgar menos, eu colocava legendas em inglês, porque então pensava: “pelo menos estou aprendendo algo”. E aprendi muito. Foi graças a Samantha Jones que entendi o que David Bowie queria dizer com “suck, baby, suck/ give me your head”, de Cracked actor – até então, eu não captava o que era “give a head” para alguém, até porque na época eu ainda não conhecia o ótimo Urban Dictionary (que não é apenas um lugar para conhecimento, mas para diversão: entrar lá e acompanhar as palavras de cada dia é se perder). Recentemente baixei Seinfeld, que tenho visto aos poucos. Mas não entendo se sobra tempo – e para quê – na vida de quem trabalha, dorme, come e acompanha os diversos seriados que surgem a cada estação. E também não entendo como esse tipo de maratonista deprimente se julga no supremo direito de criticar quem assiste a diversas novelas. A falta de critério é muito similar, a fuga para um lugar falso e bobo como uma constante é muito similar. Para mim, sempre foi difícil respeitar quem vê muita televisão: quem mora na rua me parece menos fracassado que isso. Alguns respeitáveis me disseram que Downton Abbey é bom. Talvez eu veja algum dia. 

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Ainda não consegui superar a morte da Cosac Naify, a editora que era como uma xícara de porcelana cheia de café (descafeinado) numa noite fria, como um bolo de fubá com goiabada recém-saído do forno, como o cair da tarde no inverno, como andar de trem na República Tcheca. A Cosac nos proporcionava maravilhas. Existirá outra editora como ela? Tenho sentido a dor da saudade toda semana, porque às terças-feiras a Amazon faz promoção de livros da Cosac a partir do meio-dia (com o fechamento da loja virtual da editora, os livros passaram a ser vendidos pela Amazon) e toda semana tenho aproveitado para comprar o que me interessa. Na quarta os livros já estão aqui. Eu abro a caixa e são só encantos. Quem era o curador dessas obras? Quem escolhia o papel de dentro, o papel de fora, as fotografias, a diagramação, a cor do texto? Quem quase nos mata de sentimento afetivo toda vez que a gente abre um livro da Cosac para ficar estupefato? Eu até sinto vergonha de pagar o valor módico que estou pagando por essas pequenas delicadezas artísticas: os Contos completos de Tolstói, três livros lindos de chorar, numa caixinha graciosa por menos de cem reais é uma mixaria (que é uma palavra que nem combina com a Cosac). Como gosto muito do universo infantil, também compro, de vez em quando, livros infantis da editora: dá vontade de arranjar uma criança educadinha na rua e contar todas as histórias para ela de dentro de uma cabana montada no tapete da sala. Não há dia ruim que resista a ir para debaixo do edredom com Ter um patinho é útil. Quem folheia (sem ler – estou falando, no momento, apenas de apreciar a beleza física dos livros) as Novelas exemplares, do Cervantes, e não se sente emocionado com o trabalho concedido àquele volume não é digno de empatia. 

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Dilma Rousseff é culpada duas vezes, no mínimo: por fazer um governo tão ruim e por nos legar um substituto tão incompetente. Para Temer, eu poderia usar palavras obscuras tiradas de um vocabulário prolixo, mas nenhuma delas teria tanta perfeição de vestimenta quanto: bundão. Bundão porque toma decisões e volta atrás. Não que as decisões sejam acertadas (algumas são, outras, não) e que ele não devesse voltar atrás, mas basta alguém se manifestar – e em São Paulo, é incrível, há manifestação sobre alguma coisa quase todos os dias, seja de taxista, de artista, de feminista, de corintiano ou de sindicato – e tecer críticas um pouco mais severas ao governo que ele coloca o rabo entre as pernas e muda o rumo. “Ah, mas pelo menos nesse ponto ele é democrático, ele está ouvindo o clamor das ruas.” Não é por democracia que ele volta atrás, é por medo. Medo de ser detestado, medo de ser desrespeitado (não chegou a alegar que estavam destratando seu psicológico?), medo de falhar em seu governo provisório. Se espera admiração, não entende muito do espírito das massas. Afinal, quem é que idolatra gente frouxa?

domingo, junho 05, 2016

Textos dos outros: A esquerda e a universidade - Hélio Schwartsman (Folha)


Antes da coluna, um breve comentário meu.

Nas vezes em que discuti sobre universidade pública paga com esquerdistas, ouvi o mesmo argumento, que eles dão como se fosse o encerramento glorioso da discussão: “se alguns tivessem que pagar para estudar, perderíamos a ideia da universidade pública e gratuita para todos”. Se isso pode ser chamado de um argumento completo – eu acho que é apenas o antebraço de um argumento, porque está faltando muita coisa para ter nexo –, é, pelo menos, muito ruim. Que sentido faz o rapaz que sempre estudou em colégios particulares caríssimos ir para a universidade pública sem pagar nada por isso – já que ele pode pagar? Eu certamente não me identifico com os dois grandes blocos posicionais políticos, porque, contra a direita, eu não defendo o Estado Mínimo imediato num ambiente de absurda desigualdade social, e, contra a esquerda, eu não acho que precisamos ser todos o mais iguais possível: uma certa desigualdade é que move o mundo das ideias, infelizmente (ou os românticos acham que as pessoas estudam tanto para entupir o Lattes só por amor ao conhecimento?), e o real problema é quando a desigualdade é avassaladora em vez de natural e saudável. Com exceção das licenciaturas e um ou outro curso marginalizado (como Enfermagem e Biblioteconomia), em que a concorrência para entrada é baixa, grande parte dos acadêmicos das outras áreas provém de famílias com excelente renda. Estudam gratuitamente às custas do governo durante o ensino superior, depois se formam e não retribuem ao Estado o que lhes foi fornecido, porque obviamente não são obrigados: o recém-médico quer montar consultório ou trabalhar em hospitais de renome; não pensa em passar uns anos atuando em postos de saúde e no pronto-socorro de hospitais públicos. Se alguns estudantes precisam de incentivo financeiro para prosseguir com os estudos – como faria a jovem pobre que veio do interior, está morando sozinha num quartinho barato e não pode trabalhar para se custear porque seu curso de Economia é em período integral? –, outros podem pagar, tranquilamente, para se beneficiar do ensino superior público a que sempre almejaram. É lamentável – e estranho, como pontua o colunista Hélio Schwartsman – que a esquerda não perceba essa questão tão essencial. E ela não condiz, afinal, com um dos interessantes lemas esquerdistas: “de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme sua necessidade”? 

*

A coluna, de 31 de maio: 

"O fato de que (...) sejam 'gratuitos' também os estabelecimentos de ensino superior significa tão somente que as classes altas pagam suas despesas de educação às custas do fundo de impostos gerais". Se interpretarmos a frase acima segundo o "Zeitgeist" (espírito do tempo) atual, concluiremos que ela partiu de um neoliberal, ou, pior, de um membro do governo Temer – ambos incapazes de esconder seu ranço direitista.

Seria uma boa aposta. O novo ministro da Educação, afinal, já insinuou que seria favorável à cobrança de mensalidades para alguns tipos de curso em universidades públicas. No mais, estaria no DNA da direita tentar destruir conquistas sociais como a "universidade pública gratuita e de qualidade".

Como o mundo é sempre mais complicado do que nossas palavras de ordem, sinto-me obrigado a revelar que a frase não tem como autor um entusiasta do Estado mínimo como Milton Friedman ou Friedrich Hayek, mas o insuspeito Karl Marx. Ela consta da "Crítica ao Programa de Gotha", de 1875, em que o pai do comunismo faz comentários às teses que os social democratas alemães defenderiam no congresso do partido.

E as críticas do pensador alemão não param por aí: "Isso de 'educação popular a cargo do Estado' é completamente inadmissível. (...) Longe disso, o que deve ser feito é livrar a escola tanto da influência por parte do governo como por parte da igreja".

Como todos os filósofos que pretenderam criar sistemas, Marx cometeu alguns equívocos graves, mas isso não tira dele o mérito de ter sido um grande sociólogo e um arguto observador da realidade. Ao criticar a "universidade pública gratuita", ele só viu o que ela de fato representa: um subsídio que os mais pobres dão aos mais ricos – algo que não combina muito com as ideias socialistas. Seria interessante tentar entender como a esquerda contemporânea ficou tão míope nessa matéria.

quinta-feira, maio 26, 2016

Textos dos outros: A poética da cultura, III - Marshall Sahlins (do livro "Esperando Foucault, ainda", Cosac)


Antes do texto, breves comentários meus. 

Quando estava numa das faculdades que tentei fazer, Ciências Sociais, Foucault era uma sensação, principalmente nas disciplinas ministradas por professores da área de História, que pareciam querer se travestir dele. Fazer um trabalho acadêmico sem citar alguma coisa de Foucault era como ministrar uma palestra sobre frutas e não citar a banana. O micro-poder e o "tudo é poder, escancarado ou simbólico" parecia capaz de explicar qualquer coisa a que quiséssemos nos referir em artigos científicos. Cheguei a ouvir uma professora dizer para um aluno cheio de referências bibliográficas: "sabe o que está faltando e pode melhorar o seu trabalho? Foucault". 

Eu era jovem e influenciável. Por muito tempo achei que Foucault estava trajando roupas nobres e monárquicas que somente eu não enxergava. Depois que passei a ter horror a prolixos desnecessários e teóricos do tudo, comecei a repudiar o que Foucault representava e as pessoas que ele havia influenciado. Procurei por livros que o criticassem de uma maneira acadêmica que eu não seria competente para adotar. Quase nada havia. No meio do quase nada, um livro do Baudrillard que está esgotado há umas duas décadas: Esquecer Foucault (Rocco). Por estar esgotado, mesmo sendo pequenininho custava uma fortuna na Estante Virtual (muitos vendedores de livros antigos supervalorizam livros que não são mais publicados, mesmo que não exista procura), mas comprei, esperando esclarecimentos classudos para as minhas críticas birrentas. Descobri que quem não aprecia o estilo de escrita de Foucault não tem como gostar do estilo de Baudrillard, tão ou mais fresco. Escrito com a caneta do pedantismo francesinho, Esquecer Foucault é difícil de entender, se é que é para ser entendido: nem maçante é a palavra correta para defini-lo. O outro livro do universo do quase nada é o do esquecido erudito carioca José Guilherme Merquior (esquecido, provavelmente, por causa de seus envolvimentos políticos), que estou esperando chegar da Estante Virtual porque também não é mais publicado: Michel Foucault ou o niilismo de cátedra (Nova Fronteira). A obra, que só saberei se é boa depois da leitura, é chamada por Merquior de "antipanegírico". O neologismo é acertado, já que esse francês tem, até hoje, as botas lambidas por universitários e intelectuais preocupados em nomear os bois, mesmo que estejam numa matilha. 



Esperando Foucault, ainda é um livro ao mesmo tempo sério e humorístico do antropólogo americano Marshall Sahlins. Lançado na coleção Portátil da infelizmente finada Cosac Naify, pode ser lido em uma tarde sem filhos. Achei-o por acaso nas promoções dos livros da Cosac que a Amazon tem feito. Nem tudo me interessou nele, mas a parte central, que é a crítica ao delírio pós-modernista do qual Foucault faz parte, é perspicaz e sem rodeios. Num dos curtos textos, Sahlins comenta o modismo dos novos tempos de considerar que tudo pode ser uma cultura, e que qualquer dessas "culturas" merece estudo. Na Universidade de Chicago, um colega de Sahlins ofereceu um curso chamado "blues de Chicago, estudo intensivo de uma cultura". Se o blues de Chicago podia ser chamado de cultura, o futebol americano de Michigan, apreciado por Sahlins, também merecia o mesmo status. Provocador, ele escreveu no quadro de avisos do departamento que ministraria o curso. 

"Devido à impossibilidade da Presença pura, o material do curso consistirá em transmissões de vídeo – consideradas, entretanto, em sua textualidade. Não há pretensão alguma de enunciar uma narrativa-mestra ou totalizada sobre o futebol de Michigan. Quer-se apenas tematizar certas aporias da Power-I formation – ou seja, da subjetividade pós-moderna."

Era uma piada, é claro. O que Sahlins considerou "assustador"? A quantidade de alunos, mesmo pós-graduandos, que solicitaram a inscrição no curso. Qualquer semelhança com o que ocorre no caso que resultou no ótimo Imposturas intelectuais*, de Alan Sokal e Jean Bricmont (Record, esgotado, mas que pode ser baixado AQUI), sobre o qual qualquer hora quero escrever umas palavrinhas, não é apenas coincidência. 
*Aos que têm pouco tempo, mas gostam de livros realmente interessantes que façam alguma diferença num universo de meras árvores mortas processadas, recomendo a leitura, pelo menos, da introdução e do capítulo primeiro, sobre Jacques Lacan. Quem puder ler o livro inteiro, ótimo. Para quem não puder, essas partes já são suficientes para entender a proposta. 

Agora, o texto que tive o prazer de digitar para disponibilizar na internet: A poética da cultura, III

*

A corrente obsessão foucaulti-gramsci-nietzscheana com o poder é a encarnação mais recente do incurável funcionalismo da antropologia. Como seus antecedentes estrutural-funcionalistas e utilitaristas, a hegemonização é homogeneização  a dissolução de formas culturais específicas em efeitos instrumentais genéricos. Tudo o que era preciso saber sobre, digamos, as relações jocosas prescritivas  sua "raison d'être" même  era que contribuíam para a manutenção da ordem social, do mesmo modo que as cerimônias totêmicas ou a magia agrícola organizavam a produção alimentar. Agora, porém, no lugar da "solidariedade social" ou da "vantagem material", o "poder" é o buraco negro intelectual para o qual todo e qualquer conteúdo cultural acaba sendo sugado. Repetidamente fazemos essa barganha idiota com as realidades etnográficas, abrindo mão do que sabemos sobre elas a fim de compreendê-las. Como disse Sartre sobre um certo marxismo vulgar, somos impelidos a tomar o conteúdo real de um pensamento ou ato como mera aparência, e, tendo dissolvido esse particular em um universal (no caso, no interesse econômico), comprazemo-nos em acreditar que reduzimos a aparência à verdade. Max Weber, criticando certas explicações utilitaristas dos fenômenos religiosos, observou que o fato de uma instituição ser relevante para a economia não significa que ela seja economicamente determinada. Mas, se seguirmos Gramsci e Foucault, o atual neofuncionalismo do poder afigura-se ainda mais completo: como se tudo o que pudesse ser relevante para o poder fosse poder.

Assombrosa, então, vem a ser a variedade de coisas que os antropólogos podem agora explicar em termos de poder e resistência, hegemonia e contra-hegemonia. Digo "explicar" porque o argumento consiste inteiramente em categorizar a forma cultural em pauta em termos de dominação, como se isso desse conta dela. Eis aqui alguns exemplos, extraídos dos últimos anos de American Ethnologist e Cultural Anthropology:

1. Apelidos em Nápoles: "prática discursiva empregada para construir uma representação particular do mundo social, [o ato de conferir apelidos] pode tornar-se um mecanismo para reforçar a hegemonia de grupos nacionalmente dominantes sobre grupos locais que ameaçam a reprodução do poder social" [Fora!: não se sabe o que há em um nome, quanto mais em um apelido...].

2. Poesia lírica beduína: esta é contra-hegemônica [Viva!].

3. Moda feminina em La Paz: contra-hegemônica [Viva!].

4. A categorização social de escravos libertos dominicanos como "camponeses": hegemônico [Fora...].

5. O sistema andino de fiestas no período colonial: hegemônico.

6. A "espiritualidade" construída das mulheres bengalesas de classe média, tal como expressa em sua dieta e vestimenta: nacionalismo hegemônico e patriarcado.

7. Certos pronomes vietnamitas: hegemônicos.

8. Lamento funerário dos índios Warao, Venezuela: contra-hegemônico.

9. Construção de casas na base do "faça-você-mesmo" por trabalhadores brasileiros: uma prática aparentemente contra-hegemônica que introduz uma hegemonia ainda pior.

10. O humor físico e escatológico dos homens desempregados da classe trabalhadora mexicano-americana: "uma ruptura opositiva na hegemonia alienante da cultura e da sociedade dominantes".

11. Senso comum: "pensamentos e sentimentos de senso comum não necessariamente tranquilizam uma população inquieta, mas podem incitar à rebelião violenta, ainda que contida".

12. O conceito de cultura como totalidade sem falhas e o de sociedade como entidade de fronteiras bem marcadas: ideias hegemônicas que "mascararam efetivamente a miséria humana e abafaram as vozes dissidentes".

"Uma hiperinflação de significância" seria outra maneira de descrever esse novo funcionalismo que traduz o aparentemente trivial no politicamente retumbante por meio de uma retórica que, tipicamente, lança mão de um dicionário de nomes e conceitos modernosos, muitos deles franceses, uma verdadeira La Ruse* do pós-modernismo. Evidentemente o efeito final, ao invés de amplificar a significância dos apelidos napolitanos ou dos pronomes vietnamitas, trivializa termos como "dominação", "resistência", "colonização", e mesmo "violência" e "poder". Privadas de referência real-política, essas palavras tornam-se puros valores, cheios de som e fúria, que não significam nada... exceto o falante.

* Jogo de palavras entre Larousse, o dicionário, e "la ruse", "a manha" ou "a astúcia". [N. T.]

Em SAHLINS, Marshall. Esperando Foucault, ainda. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 

Há, ainda, uma resenha de Lilia Moritz Schwarcz sobre o livro: AQUI.

segunda-feira, maio 16, 2016

Rápidas e soltas 10: Temer, Doria Jr., Ainda saltos altos, Aborto


Quando faço críticas à esquerda e à direita brasileiras, baseio-me nesse corporativismo do “quem está errando?”, quando o certo seria perguntar “mas o que estão fazendo?” É isso que devemos, na maior parte do tempo, pautar quando falamos de políticos, porque o partido ao qual alguém é filiado não deveria servir como atenuante na hora de definir a pena inicial. Mas isso é algo a se pensar a respeito do Brasil. Aqui é que um partido social-democrata se une ao DEM (antigo PFL, cujas origens todos conhecemos) e um partido “que sempre foi oposição e a voz do povo” se une ao PMDB e ao PP de Maluf. Esquerda e direita politicamente teorizadas não fazem nenhum sentido com a esquerda e a direita praticadas. Enfim, estou chovendo no molhado. 

*

Petistas que se sentem arruinados com a saída provisória daquela que chamavam, antiquadamente, de “Dilmãe”, dizem que Temer não pode assumir “porque não foi eleito”. É verdade, Temer não foi eleito e nem seria eleito caso se candidatasse sozinho. Mas Dilma só se aliou a ele e seu partido porque isso angariaria votos. Com a pequena diferença entre ela e Aécio no segundo turno, se não fosse a aliança com Temer, Dilma não teria vencido as eleições. Isso nos leva à conclusão de que Temer foi muito útil para que a presidente, que agora descansa, pudesse se reeleger. O vice decorativo não foi tão decorativo. 


Não entendo de política e sistema eleitoral tanto quanto eu gostaria (dezenas de assuntos me agradam e não consigo me dedicar plenamente a todos), mas na minha opinião o correto seria que Dilma e Temer fossem cassados juntos. O programa de governo que foi divulgado em campanha e depois não foi implantado pertenceu à chapa deles. Temer não demonstrou, em nenhum momento, discordância sobre as pedaladas e os créditos suplementares praticados pela titular – foi conivente e cúmplice. Com a chapa cassada ainda este ano, teríamos novas eleições. Gilmar Mendes, ministro do STF que muitos execram simplesmente por ser tão legalista (coisa que muito juiz é por dever – o que deveria nos conduzir a uma crítica mais forte às leis que aos juízes que apenas têm a obrigação de aplicá-las), disse que a possível cassação de Temer é algo para se discutir após o término da investigação sobre os crimes de responsabilidade de Dilma. Nesse ritmo, mesmo que Temer venha a ser cassado com ela, isso aconteceria somente no ano que vem. Acontecendo somente no ano que vem, adeus eleições diretas. Falar em reforma política nunca pareceu tão necessário. Nem nunca pareceu tão utópico, se observarmos quem votaria a possível reforma – os “representantes do povo” eleitos pelo povo. Cada vez mais questiono o benefício da democracia. Para mim, é como alguém dizer que a Coca-Cola é algo excelente porque a maioria das pessoas opta por tomá-la – mesmo que faça mal à saúde e represente “as grandes corporações” que sobrevivem de manipulação propagandística (não é em vão que marcas de imenso porte como ela investem fortunas em publicidade). A democracia tornou presidente das Filipinas um homem que defende a matança de criminosos (usuários de drogas são, lá, criminosos) e debocha do estupro. Em 1989, depois de uma missionária australiana ser feita refém com outras mulheres em uma rebelião presidiária, ter sido estuprada e morta, ele disse, enquanto prefeito da cidade onde ocorreu o crime: “Quando vi seu rosto, pensei: 'que merda, que lástima!' Estupraram-na e fizeram fila para isso. Era tão bonita que o prefeito deveria ter sido o primeiro”. Esse homem foi eleito presidente pela maioria dos filipinos. Aqui, também temos casos aberrantes eleitos pelo povo: Bolsonaro, seu filho, Eduardo Cunha, toda a bancada evangélica que defende a internação dos homossexuais, os débeis do PCdoB que apoiam a Coreia do Norte, deputados que fazem vista grossa sobre o que ocorre na Venezuela (pessoas passando fome e oposição sendo assassinada em manifestações – os mesmos deputados que rechaçam o gás de pimenta dos policiais brasileiros parecem achar “merecido” que manifestantes sejam mortos no país hermano). A quem serve esse modelo em países pobres e/ou de pouca educação em que as pessoas são fantoches? Um povo sem instrução só pode fazer uma democracia perversa. 

*

João Doria Jr., candidato pelo PSDB à prefeitura de São Paulo, disse em entrevista qual seria sua primeira medida como prefeito: voltar a aumentar a velocidade permitida nas Marginais. Já se provou que a diminuição do limite evitou mortes e possibilitou que mais carros pudessem transitar pelo espaço num dado tempo, mas Doria Jr., que tem pressa e acha que a questão do limite de velocidade é urgente para uma cidade como São Paulo, pensa que é isso que ele tem que apresentar ao eleitor. A violência e os alagamentos são coisas secundárias. O que importa é que o playboy – ninguém deve se sentir culpado por ter meramente nascido em um lar de ricos, mas agir como se a sociedade lhe devesse sandálias de ouro é algo para se envergonhar – possa chegar mais rápido a seus jantares de negócios. 

*

“Julia Roberts subiu os degraus do famoso tapete vermelho do Festival de Cinema de Cannes descalça, um ano depois que várias mulheres foram impedidas de entrar em uma première do festival por não estarem de salto alto.” (Estadão) Li essa matéria poucos dias depois de ler que uma mulher tinha sido demitida por se recusar a usar salto alto no trabalho, já que não havia justificativa de que os saltos fossem imprescindíveis para a realização do serviço (tanto é que os homens, na mesma função, não usavam salto). Sei que muita gente acha salto uma coisa linda, que muitas mulheres têm horror a suas baixas estaturas e por isso usam salto e que esse estilo de sapato está associado ao glamour. Mas é simplesmente ridículo que mulheres se submetam a certos tipos de salto, na maioria das vezes por desejo (e não por exigências empregatícias), para viver o cotidiano. Que tipo de esclarecimento postural tem uma pessoa que por vontade própria calce algo desconfortável que se tem pressa de tirar ao final do dia? Não sou contra o estilo, a beleza, as passarelas. Leio revistas de moda desde que sou criança, acho incríveis as propostas da Stella McCartney e as cores predominantes (vermelho e preto!) da Dolce & Gabbana, vivo arrancando páginas da Harper's para colocar na minha pasta quero-costurar-isso/preciso-encontrar-isso-num-brechó. Mas beleza não chama, necessariamente, desconforto. Podemos ser belas, estilosas – e confortáveis. Ninguém precisa sofrer para estar bonita. Para roupas e acessórios, aplico a mesma regra que aplico ao clima: se estou pensando demais a respeito, é porque não está agradável. Estou pensando que minha blusa está apertada e por isso fico a “folgando” o tempo todo? Deve ser uma blusa errada. Estou pensando no quanto esse sapato me aperta? É sinal de que o sapato não presta. Tenho que tomar quinze cuidados toda vez que vou me abaixar com esta saia? Tchau, saia, ou apenas sirva para ensaio em fotos. 

*

Não estou imune aos erros do discurso coletivizante de rebanho. Ao ouvir tantas feministas dizendo que “o aborto deve ser permitido por lei porque muitas mulheres já o praticam clandestinamente”, reproduzi essa bobagem. Depois fiquei arisca a respeito desse argumento e fui ler o que diziam os contrários ao aborto (repito: é sempre bom lermos o que aqueles que discordam de nós têm a dizer, até porque muitas vezes eles nos obrigam a melhorarmos nossas assertivas). Um jurista disse o óbvio: então tudo que é praticado fora da lei deve deixar de ser crime? Vamos descriminalizar o roubo, o estelionato, o homicídio. Em resumo, a abordagem “todo mundo já está fazendo” não vale nada. O sujeito que é contra o aborto não quer saber se mulheres pobres estão matando fetos desde sempre. Para ele, um feto é uma vida que precisa ser preservada, até mesmo de sua depositária. O que é importante fazer é contrariar esse sujeito em sua crença de que uma porção de células sem sistema nervoso, capaz de gerar interesses e dor, é uma “vida”. Se declaramos que alguém está morto e apto para doar órgãos após a morte cerebral, não faz sentido que achemos que aquele que não tem vida cerebral precisa de proteção estatal. Claro, sou favorável ao aborto somente até esse ponto em que o embrião não é capaz de sentir nada, em que é apenas um agrupamento celular (como minhas unhas o são). Radicais do “meu corpo, minhas regras” que acham que um bebê de seis meses poderia ser abortado “pelo direito da mulher de decidir” não têm meu apoio. Nem o apoio de nações civilizadas. Os inúmeros países europeus que permitem o aborto estabelecem limites: a média consensual é de 14 semanas. Por que não copiamos essas nações? Porque nosso Estado não é laico e as religiões dominam espaços públicos. Portugal, França e Itália, países católicos, permitem o aborto. No mapa das leis do aborto (é excelente vê-lo e explorá-lo: AQUI), o Brasil está em vermelho, junto a países atrasadíssimos da África. Alguma esperança de que deixem de tratar punhadinhos de células como indivíduos? Nenhuma, da minha parte, já que mesmo o governo provisório de Temer fez inúmeras alianças com lideranças evangélicas. Se Dilma, mulher e autointitulada esquerdista, não fez nada por esse avanço – sequer levantou o mérito da questão –, que diremos de um interino que tem a indecência intelectual de cogitar colocar um criacionista para cuidar da Ciência no país? Num país tão pobre e populoso, crianças indesejadas devem continuar vindo ao mundo para satisfazer os anseios de retrógrados. Onde costumam nascer? Em comunidades pobres. O que geram com seu nascimento indesejado? Mais pobreza. 

*

Falo tanto de controle de natalidade que podem achar que considero a ideia uma solução mágica. E considero, mesmo. Um filho tende a ser melhor educado, nutrido, amado que quatro. Quando um casal pobre tem quatro filhos, a tendência é que a pobreza aumente. Dificilmente o casal conseguirá transformar sua família numa grande história de superação da miséria econômica e educacional (tanto é que quando algo assim acontece vira matéria especial de jornal). Esquerdistas fanáticos dizem: “o problema não são os pobres que têm filhos, pois eles já têm bem menos filhos que no passado!; o problema é o governo que não dá assistência!” Sim, os pobres têm menos filhos que no passado. Antes, eram nove ou dez por família. Agora são três ou quatro. Mas três ou quatro ainda é demais para quem não tem condições nem de cuidar de si mesmo. Isso que defendo não é sintoma de horror aos pobres. É sintoma de horror à pobreza, que é um dever moral.

quarta-feira, abril 27, 2016

Salto alto é uma questão feminista


Resumo minha atual situação com o feminismo: ele tem vivido a terceira onda e eu me satisfaço em adotar as reivindicações da segunda porque considero que a terceira defende o ódio (esse sentimento que forma placa nas artérias e impede que o sangue chegue ao cérebro), o relativismo cultural (um homem branco europeu que diz para sua mulher que ela não fica bonita usando amarelo merece ser tão ou mais combatido que um abusador muçulmano), o direito penal máximo em alguns casos (uma mulher bêbada beijada à força só será vingada se seu “estuprador” for para a cadeia), o direito penal mínimo em nome do esquerdismo (um negro pobre que cometa latrocínio não merece ir preso, nem pagar multa: ele precisa é de assistência social e um curso técnico gratuito) e o Direito da Mulher como um sofá onde deitam fracassadas para si mesmas (“engordei e não consigo um namorado fixo, é hora de defender o feminismo”). Rejeito todas essas bandeiras. E não tenho nenhuma paciência ou piedosa vontade de perder tempo ouvindo histórias de quem destruiu a própria vida numa grande festa machista e agora, após expulsão, resolve que eu e todas as outras mulheres somos suas irmãs contra todos os homens malvados e sexistas da Terra. Uma coisa é o esclarecimento, é a aquisição da capacidade de discernir. Outra coisa é achar que o feminismo é uma igreja evangélica disposta a receber de braços abertos quem viveu na farra e nas drogas e de repente, sem dinheiro e amigos, resolve “se arrepender” – porque não tem mais dinheiro e amigos. Se você foi traída por um homem ou “trocada” por outra mulher, não é feminismo grupal – o desejo de estar num meio, junto a pessoas – que você precisa procurar, mas uma conversa franca com a sua solidão fúnebre e com a sua autoestima. Acho o feminismo um movimento bonito demais para abrigar emoções torpes como a raiva histérica e a frouxidão. E jamais apoiarei o feminismo corporativista de causas banais: aquele em que Hillary Clinton pode interromper Bernie Sanders num debate, e o fato de ele acusar a interrupção – “espera aí que eu ainda estou falando” – é visto como “machismo”; esse feminismo que permite às mulheres serem mal-educadas porque não quer igualdade, mas privilégios. 

Interessantemente, a proposição “você não deixa de ser feminista por usar salto alto” é uma bandeira tanto do delírio da terceira onda quanto do feminismo liberal, individualista. Isso sempre me intrigou. Venho combatendo a obsessão pelo salto alto desde que me conheço como sujeitinho crítico de coerções indumentárias, e não consigo entender por que cargas d'água tantas feministas, mesmo de correntes tão opostas, insistem em defender essa mutilação em forma de calçado. “Barbara, é apenas um tipo de calçado.” Não, não é apenas um tipo de calçado, é um sofrimento em forma de calçado, uma estupidez em forma de calçado. Que sentido faz alguém usar, no cotidiano, algo que prejudique o andar, que peça às menos desenvoltas umas passadas esdrúxulas (algumas andam como galinhas, outras andam se equilibrando enquanto tremem os calcanhares), que faça mal à coluna, que destrua o músculo das panturrilhas e cause joanete? O que leva uma mulher, com vergonha da própria altura ou achando que usar calçados baixos a torna “menos feminina”, a optar pelo desconforto em nome de uma beleza tão tola? É claro que a maioria de nós quer ser bonita e eu não critico a busca pela beleza – desde que ela não seja doentia nem cause sofrimento. E então eu volto a uma pauta muito cara aos diversos feminismos: “a mulher deve ser livre para ser o que quiser, usar o que quiser, e isso é feminismo”. Discordo. Uma mulher que destrói a própria saúde, seu conforto, sua liberdade de transitar com tranquilidade, em nome de um artifício de beleza, não está sendo feminista. Ninguém defende que uma mulher tenha a liberdade de querer apanhar do marido, então por que achamos normal defender que uma mulher use, todos os dias, por vontade pessoal, algo que é tão imensamente antinatural e torturante? Não está certo que a beleza apareça muitíssimo antes do bem-estar. 

“Então você acha que saltos deveriam ser abolidos?” Acho que certos tipos de saltos deveriam ser abolidos não pela lei ou pelas empresas, mas pelas pessoas, que criam a demanda para a indústria de calçados. Uma mulher não precisa (ou não deveria precisar) usar salto alto para provar seu valor ou para mostrar que “é muito feminina” mesmo estando no mercado de trabalho. Fico em estado de graça quando encontro mulheres em posição de comando usando calçados baixos, mocassins, tênis (com sapatilha não fico "em estado de graça" porque acho um calçadinho muito feio, cafona, mas é claro que o ponto aqui não é meu gosto fashion), porque a maioria delas parece precisar provar que não perdeu a feminilidade mesmo sendo altíssimas chefes. Resgatemos a crítica feminista do portar-se em sociedade, tão forte na segunda onda: o salto alto faz parte disso. Uma mulher de vestido justo e salto alto é uma mulher que está no seu lugar e não faz movimentos que não condizem com sua feminilidade, é uma mulher “dominada”. É claro que muitos homens riem desse tipo de análise, mas aí eu os convido a comprar um salto agulha (não precisa ser dos mais altos) e usá-lo por algumas semanas, diariamente. Pode ser dentro de casa, umas três horas por dia em horários em que é preciso se levantar e fazer coisas. “Mas como é que muitas mulheres usam e não reclamam?” Não reclamam porque na cabeça manipulada delas o valor da estética é maior que a dor causada pelo calçado que leva a essa suposta beleza, ou seja: “eu me sinto bem sofrendo para ficar mais bonita”. Vi, com estes olhos que a terra há de comer depressa, inúmeras professoras da educação infantil usando saltos – educação infantil, onde muitas vezes você precisa correr para salvar uma criança de um acidente ou sentar na areia para fazer uma atividade que preste (se um dia eu montar uma creche, o uniforme será camiseta de algodão, calça legging e tênis – quem não gostar que vá arranjar um cargo administrativo, porque salto alto e roupinha justa não combinam com atividade pedagógica com pequenos). O feminismo não evoluiu para que achemos normal que uma mulher opte pelo sofrimento em nome da “feminilidade”. Sobre mulheres que optam, é bom que nos perguntemos duas coisas: 1. é da vontade dela? 2. causa sofrimento desnecessário? Eu dou meu total apoio se uma mulher optou por ser dona de casa sendo respeitada pelo marido, mesmo que o papel da dona de casa tenha representado, no passado, uma condição subalterna. Ser dona de casa porque se quer e ser dona de casa porque se é obrigada ou porque nunca lhe foi apresentada outra alternativa são situações muito diferentes. Em relacionamentos igualitários, acho que mais casos de donos de casa deveriam acontecer, principalmente quando esses casais montam família: é bom que um dos pais esteja em casa para cozinhar, cuidar das crianças de verdade (colocar em frente à TV não é “cuidar da verdade”, queridos), montar uma horta, fazer compras (aliás, dos meus sete anos para cá meu pai tinha sido "do lar", e era muito bom tê-lo para cuidar de mim, preparar as refeições, organizar o vasto quintal, reformar a casa). Não envolvendo obrigação e sofrimento, é ótimo que uma mulher possa ser dona de casa, se quiser. Não havendo obrigação e sofrimento, é ótimo que uma mulher passe uma lâmina nos pelos das axilas e no excesso entre as pernas (sou totalmente contra as depilações de gemidos a que muitas mulheres se submetem, mas isso fica para outra vez). Já certos tipos de salto, mesmo que optados, jamais serão indolores e confortáveis. Eles são a representação da submissão a um padrão mórbido, por mais que a dona do salto seja uma Primeira-Ministra ou a nova administradora de uma empresa tradicionalmente guiada por homens. Sempre digo, inspirada em Schopenhauer, que devemos aprender a lidar com o sofrimento porque a vida é feita dele. Isso não tem nada a ver com provocar sofrimento em vão. Causar o próprio sofrimento sem necessidade legítima é preocupante. 

Por fim, uma cena que sempre cito quando falo de saltos. Há anos, quando eu assistia ao seriado House com a minha mãe, o protagonista deixou de contratar uma médica porque ela estava usando um salto muito alto. A justificativa: a candidata devia ser muito insegura para se submeter a trabalhar com um salto daqueles. House, um personagem machista, nessa se saiu melhor que muitas feministas modernas que pensam que para serem íntegras é preciso defender as mulheres em tudo. Um feminismo que age como uma mãe coruja. E mães corujas, nós sabemos, costumam ser uma catástrofe para o bom desenvolvimento de seus filhinhos.

segunda-feira, abril 18, 2016

Rápidas e soltas 09: Papudos, Falsos leitores, Congresso


Uma pessoa conhecida com quem simpatizo, mas que é muito papuda, havia adquirido uma semiconsciência sobre o desnecessário sofrimento animal e decidido: “não vou mais comer mamíferos”. Continuaria comendo galinhas, peixes, pus de mamíferos (leite e derivados), mas não comeria mamíferos assassinados. Achei pouco, achei preguiçoso, mas achei alguma coisa, e alguma coisa é sempre melhor do que nada. Questionei sobre galinhas e essa pessoa havia dito que “não tinha se comovido o suficiente com a situação das galinhas”. Não entendo como alguém vê uma galinha crescendo à base de hormônios, trancada numa gaiola com área de uma folha A4, sem poder socializar com outras galinhas, sem ciscar e tomar luz solar e não se comove com isso. É uma compaixão seletiva de rebanho: “há gente em considerável número se comovendo?; isso é pauta de algum grande e notável grupo?; se sim, comovo-me, se não, deixo para lá porque isso não agrega pontos ao meu status”. Não entrei nesse mérito, todavia, porque deixar de comer mamíferos já era uma boa atitude inicial e essa pessoa conhecida disse: “por enquanto não vou comer mamíferos, pois acho que devemos ir aos poucos”. Alguém que caminha aos poucos pode até demorar, mas um dia chega a algum lugar. Num recente encontro com essa pessoa, uma surpresa desagradável: ela “às vezes come carne bovina aos finais de semana”. A desculpa: “pois acho que devemos ir aos poucos”. Eu não sabia que ir aos poucos significava regredir tão severamente. Eu não sabia que ir aos poucos significa programar uma fraqueza. Uma coisa é você, humano sujeito a erros, determinar que não vai mais comer carne, um dia cair em tentação, comer, e depois se perguntar “por que fiz isso?” e sentir arrependimento. Isso é fraqueza, a isso muitos estão sujeitos e, apesar de eu não concordar com a licença moral (“hoje decido me dar o direito de ser imoral”), entendo a situação. Mas a fraqueza, como tal, raramente acontece, e ela sempre gera vergonha. Ninguém “programa” uma fraqueza moral “para os finais de semana”, quando “não é justo” que as pessoas ao redor possam saborear uma boa carne de mamífero morto na minha frente enquanto “eu apenas passo vontade”. Comer peixe, frango, ovos e todos os derivados do leite, que é uma atitude absurdamente conveniente e mandriona, não bastou. O próximo passo talvez seja fritar uma bisteca e se justificar (porque os hipócritas sempre precisam se justificar, já que a prática não tem contato com o discurso): “é que eu acho que precisamos ir aos poucos”. Em nome do “precisamos ir aos poucos”, logo essa pessoa achará adequado ir a um rodízio de carnes. Uma frase de Alfred Adler cai bem ao caso: “É mais fácil lutar por princípios que viver de acordo com eles”. 

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Tenho uma agenda muito bonita que comprei de uma marca chamada Teca. Embaixo da página de cada dia há um espaço em branco onde costumo anotar citações que me agradam, citações que encontro em compilações (Dicionário universal Nova Fronteira de citações, com seleção do Paulo Rónai, por exemplo) ou que leio por acaso em livros. Lembro quando eu tinha doze anos, ia cheia de moedas para a biblioteca pública da cidade e pedia para fotocopiar as seções “Entre aspas”, da Reader's Digest, e uma seção de máximas que a Superinteressante publicava todo mês. Com pouco dinheiro, mas vendo uma gigante impressora na biblioteca, eu pedia para colocarem quatro revistinhas da Reader's juntas porque assim eu teria quatro seleções de citações numa econômica folha só. Quando não tinha dinheiro nenhum, o que era comum, passava a tarde na biblioteca copiando as citações que me interessavam. Penso que todos deveríamos possuir um caderninho de citações. Elas nos lembram que devemos melhorar nossa conduta, elas são capazes de reduzir em poucas palavras um tratado inteiro sobre princípios, elas nos transformam em “categorizadores” de situações cotidianas. É sempre terno viver algum contratempo e recordar uma máxima que se encaixa nele (parece que o fato de existir uma citação para o contratempo o torna mais pacificado, mais humano), assim como é bom reler uma máxima instrutiva que nos traz de volta à realidade do que planejamos como estilo de vida, mas havíamos esquecido. Anoto minhas citações preferidas por esses motivos: para catalogar o que vivo com outros e para me policiar a ter uma conduta proba. Não estou falando de querer uma vida impecável “moralista”, estou falando de procurar ter um comportamento cotidiano que tenha coerência com aquilo em que creio acreditar. Citações de gênios de tantas épocas podem nos ajudar a melhorar e a sermos admirados por nós mesmos. Devemos procurar ser a pessoa que mais admiramos. Isso (de termos a nós mesmos na mais alta estima de caráter), é claro, não precisa ser do conhecimento de ninguém. Há poucas coisas mais chatas do que alguém que toma nosso tempo, sem permissão, para exibir o quanto é fabuloso. 

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Eu sempre disse que nosso amor ao conhecimento, aos livros, só é genuíno se for como o do tarado que “lê” a Playboy. Porque ninguém precisa obrigar o tarado a comprar sua revista, ele não “lê” sua revista somente para tagarelar seu conteúdo com os outros, ele não acrescenta pontos ao Lattes por conhecer todas as edições entre 1986 e 2004. O tarado não quer saber se a comunidade acadêmica, seu círculo de amigos ou o pessoal do trabalho vai achar importante e classudo que ele tenha tanto “saber” a respeito dos corpos nus de centenas de mulheres. Ele faz o que faz para si. Esse foi o jeito fácil e didático que encontrei de criticar mercenários que fingem amar a leitura, mas tratam livros como sapatos que a gente compra justamente para servir às vistas alheias (em casa, na solidão que revela quem nossos pés realmente querem ser, usamos chinelos ou andamos descalços). Esse foi o jeito que encontrei de repudiar com graça quem se orgulha de ter chumbo grosso no seu currículo de leituras, mas que, se não precisasse da serventia do calhamaço para escrever uma monografia ou palestrar entre coleguinhas que também gostam de exibir seus calçados, jamais teria comprado Geertz ou Walter Benjamin para ler no sofá, de pijamas, numa tarde de domingo. Eis que num livro de citações um dos meus escritores preferidos, Albert Camus, apareceu resumindo tudo isso numa sentença simples e sagaz: “Nenhum homem é hipócrita nos seus prazeres.” É claro que eu não admiro “leitores” da Playboy. Mas sua motivação é muito mais sincera e sua intenção é muito mais franca que a de muitos leitores que leem trabalhos maravilhosos por motivos vis. 

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Ontem à noite passei algumas horas assistindo a um filme de horror. Era a sessão na Câmara dos Deputados para votar se o processo de impeachment deveria ser aceito e prosseguir seu curso. Como já escrevi algumas vezes, sou contrária ao governo Dilma, seja porque considero crime as coisas de que a acusam, seja porque achei sua última campanha absurdamente nojenta na modalidade vale-tudo (depois, recebemos a óbvia revelação: a presidente acabou fazendo todas as monstruosidades que disse que seus adversários fariam). Mas eu me oponho a seu governo legitimamente eleito pelo voto popular assim como me oponho a esse Congresso que – pasmem, esquerdistas romantizadores do bom selvagem povo – também foi legitimamente eleito pelo voto popular. Foi o povo (esse oprimido, esse trabalhador, esse feminil, esse negro, esse condenado à vida marginal que lhe foi dada como única opção) que colocou todos aqueles canalhas no poder; foi o povo, mal instruído e modorrento, que elegeu todos esses evangélicos burlescos que querem fazer do Brasil uma quase versão da Idade Média, só que neopentecostal; foi o povo, que o movimento negro diz ser de maioria negra, que votou para que deputados decidissem assuntos concernentes ao país tendo como referência seus filhos, netos, esposas (quase todos nomeados, como se recebessem citação e beijos no Programa do Gugu); foi o povo, “que não aguenta mais ver político corrupto massacrar os trabalhadores”, que permitiu que deputados enforcassem uma mentirosa de um partido fraudulento e corrupto para salvar a pele de alguém que vem enriquecendo com a coisa pública desde o escândalo do PC Farias. “Ah, mas o povo não tem culpa da própria ignorância estrutural e milenar, advinda de sua exploração.” Então o povo, admitamos de uma vez, não tem capacidade de votar. A democracia num país sem instrução só serve aos ricos e poderosos. O dono da Friboi, que doa milhões a partidos políticos variados e depois recebe bilhões do BNDES, adora a democracia. Cunha idolatra a democracia. Renan Calheiros acha que a democracia é o que há, e que tudo que está fora dela está eivado de abominações. Coronéis legitimamente eleitos pelo voto popular afagam a democracia. Os deputados ruralistas, da bancada da bala, da bancada evangélica glorificam a democracia. Essa sessão do Congresso de domingo foi fruto da democracia. Quando a democracia elege para cargos políticos candidatos que sempre se inspiraram no fascismo, ainda assim estamos vivendo uma democracia. Bolsonaro não deu um golpe para estar onde está: ele foi democraticamente eleito, tanto pelo povo empresarial que ri dos torturados pela ditadura militar quanto pelo povo que mesmo na merda pensa que é certo colocar crianças no mundo para afugentar o tédio da existência e acha bonito quem fala grosso. Então, por favor, parem de romantizar o povo. Parem de selecionar quando a voz do povo é a voz de Deus – ou seja, quando a Dilma vence eleições – e quando o povo é levado, por forças alheias às suas vontades, a votar em deputados que não representam ninguém. Como bem lembrou Eduardo Bolsonaro, o povo votou, no ano de 2005, em referendo, para que não houvesse proibição no comércio de armas de fogo e munição no Brasil. O povo, que a esquerda do desarmamento diz representar. O povo, quando consultado, é favorável à pena de morte – esse povo que a esquerda insiste em dizer que é de esquerda. O Congresso estúpido e vergonhoso é a cara do povo brasileiro: estúpido e vergonhoso. Não deixa de ser, é lamentável, um Congresso muito democrático

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Está para nascer alguém que seja tão cínico quanto o Eduardo Cunha. Mas pensemos juntos. Lembram quando o Lula assumiria a Casa Civil para poder ser investigado a mando do STF em vez de a mando do Sérgio Moro? Lembram que lulopetistas – fanáticos tão abomináveis quanto “bolsomiteiros” – diziam que Lula não teria vantagem nenhuma recebendo foro privilegiado e sendo julgado pelo STF? Esses benzinhos são os mesmos que reclamam sobre a profanação moral da justiça brasileira em manter Cunha solto e ainda presidindo uma sessão sobre o impeachment da presidente. Ué, mas Cunha tem foro privilegiado, é julgado pelo STF. Por que o STF é legítimo quando chamado a julgar Lula-Ministro, mas sequer é citado quando esquerdistas se revoltam com o privilégio free as a bird de Cunha? Parece que tanto Lula quanto Cunha sabem que o STF é leniente, na perfeita adjetivação do jornalista José Nêumanne Pinto ao enfrentar o ministro Marco Aurélio de Mello no Roda Viva, há poucas semanas. No Brasil, é dever moral não buscar harmonia com a esquerda ululante ou a direita ululante. Ambas são doentes. Ambas são delirantes. Ambas procuram um Grande Líder para adorar. Meu ateísmo não permite essa celebração de homens e partidos como deuses. 

quinta-feira, março 31, 2016

Veganos nas Américas: Santiago (Chile)


E continuo viajando quando posso. Não há segredo: não sendo pobríssimo, tendo disciplina, algum inglês, vontade de fato (e não o exaustivo “um dia quero ir para a França” repetido todo ano há anos por quem nunca se esforça para transformar essa tagarelada em realidade) e noção de prioridade, todo mundo pode viajar para outros países. Noção de prioridade, que é o tópico com o qual mais lido quando outras pessoas me olham como privilegiada porque viajo (mesmo pessoas que têm salário melhor que o meu, interessantemente): isso significa colocar o que é importante na frente do que é trivial. Parece simples, mas a aplicação costuma ser falha. Atentem, meus caros: eu poupo no que me é tolo para gastar no que me alegra. Não tenho carro, nem sei dirigir. Nunca fui a uma manicure – fazer minhas próprias unhas é terapêutico e carinhoso comigo mesma: melhor do que entregar minhas mãos para alguém que vai falar mal de mim quando eu sair do salão. Há anos corto meu cabelo – aquilo que consideraram desastroso há muito tempo não era inaptidão, mas propósito. Só tive um celular e só vou trocá-lo quando estragar – tenho saudade do tempo em que podíamos, todos, estar inacessíveis e dispostos a ouvir reclamações: “tô ligando pra você há quatro dias/ sempre aquela voz metálica repete/ deixe seu recado/ ou ligue depois”. Passei a imensa parte da minha existência sem plano de saúde: primeiro, porque éramos pobres; depois, por achar desnecessário; então, aderi alguns meses a um plano; saí do emprego e do plano; no momento voltei a estar sem plano por opção temporária – não que seja algo para se orgulhar; ocorre que estar sem plano, para mim, é como a lei da inércia. Não acho que o final de semana foi inventado para a gente sair de casa como um dever. Não acho que comer fora deva ser mais frequente do que cozinhar. Não tenho filhos. Saí da casa dos meus pais para vir morar com meu namorado e não queremos uma segunda morada ou uma sobressalente casa na praia. Mas eu economizo nessas coisas para gastar “à vontade” no que importa: viajo, compro livros com frequência, tenho uma máquina fotográfica de uma marca especializada em máquinas fotográficas e uma adega de uma marca especializada em adegas, compro orgânicos sempre que possível, ajudo protetores de animais. Não sendo rica, preciso optar. Se eu passasse a frequentar salões semanalmente, se eu quisesse comprar e manter um carro, se eu entrasse em pânico e achasse que preciso de um plano que me coloque no melhor quarto caso eu seja hospitalizada, se eu tivesse filhos, se eu pagasse aluguel, se eu trocasse de celular todos os anos e quisesse aderir aos modismos de todas as estações – se eu passasse a viver esse tipo de vida, eu não poderia viajar para a Alemanha ou comer tomate sem agrotóxico. Viajo, portanto, não por privilégio, mas porque isso está entre as minhas prioridades. Para atender prioridades, sacrificamos gastos com trivialidades. E felizmente a maioria das trivialidades às quais me referi não faz minha cabeça, então não sinto falta por não vivê-las. 

Em novembro do ano passado fomos para Santiago, Chile. O mote foi um show da banda turca She Past Away que ocorreria lá (do cenário contemporâneo, uma das minhas bandas preferidas). Foi a primeira vez que visitei um outro país da América do Sul, e era um pouco engraçado pensar que o Brasil estava logo ali e que para os chilenos aquilo tanto fazia. Ir para o Chile pode ter uma viagem mais curta do que a visita a certos estados brasileiros: 4h de avião. Minhas duas primeiras notáveis impressões: como os tetos dos prédios são baixos (os apartamentos parecem um amontoado de caixinhas de fósforo) e como colocam abacate em tudo. Não tenho nada contra o abacate, mas pedaços de abacate dentro de um cachorro-quente (vegano, évidemment) me parece um exagero ou uma modernidade à qual meu conservadorismo não poderá se adaptar. Para qualquer restaurante que você olhe – ético ou não – há algum prato com abacate. Eu sugeriria que trocassem essa base culinária por batatas, mas isso, é claro, se trata de puro arbítrio porque eu adoro batatas, e acho que elas são densas candidatas a criar a infraestrutura na qual se apoiaria toda uma gastronomia forte. Pareço estar falando de uma nova modalidade de governo. Estou apenas falando de batatas. 


(She Past Away - Gerçekten Özleyince: quem diz que "hoje em dia não se faz mais boa música" está ouvindo as rádios erradas.)

She Past Away, Santiago (Chile), Nov./2015

She Past Away, Santiago (Chile), Nov./2015

Descobri pelo caminho da dor que o abacate é para os chilenos o que a mandioca é para Dilma Rousseff. Fomos a um restaurante vegano, comemos dois pratos e pedimos cachorros-quentes para levar. Entre os ingredientes: “palta”. Tentamos deduzir o que era palta, e pelo contexto deduzimos que poderia ser batata palha, tão vezeira em cachorros-quentes. Mais tarde, com fome no hotel, abrimos as embalagens e encontramos pães recheados com mais palta do que salsicha. “Palta” é como os chilenos chamam o abacate (sim, eu também esperava que seu nome por lá fosse avocado). Se essas misturas são o futuro, nada é mais coerente do que eu voltar a fazer tricô (para quem não sabe, a maior parte da lã vendida em armarinhos é acrílica, ou seja, não provém de maus tratos a ovelhas: você pode ser vegano e tricoteiro). 

Fomos para o alto de um jardim para ver o
panorama; nos prédios, andares baixos

Resto do que devia ter sido
um agitado hotel/restaurante

Do trajeto para o Chile, recomendo que pelo menos um dos trechos da viagem seja feito durante o dia, pois do avião, próximo ao aeroporto, podemos ver a Cordilheira dos Andes, que é primorosa. Tirei inúmeras fotos da janelinha do avião: há partes em que a Cordilheira se assemelha a um bolo de chocolate cheio de açúcar de confeiteiro, há outras em que é possível ver, bem lá longe, pequenas vilas, e às vezes vemos lagos verdes – de um verde muito bonito – aos pés das montanhas. Perder essa vista é indesculpável. Voar em cima de algo tão sublime é maravilhoso. 

Trecho da Cordilheira dos Andes

Um dos lagos

Um bolo com açúcar? 

As cores são essas, mesmo



Tínhamos feito reserva num hotel barato na região central de Santiago. Esse hotel teve um problema de última hora no aquecimento e estava fora de funcionamento para hospedagens, então fomos transferidos para uma versão de “alto padrão” da mesma rede, sem custo adicional, em um bairro habitado pela classe média de Santiago: Las Condes, onde já moraram Augusto Pinochet, Salvador Allende e onde mora Michelle Bachelet. Se você tiver boas condições financeiras, é um excelente lugar onde se hospedar: calmo, arborizado, cheio de passarinhos cantando e pessoas andando com cachorros, além de vistas para as montanhas. Nós só nos hospedamos lá por sorte. Mas mesmo que você não se hospede nessa região, é um bom lugar por onde passear. Se a trilha sonora da parte comercial da cidade remete a cacofonias comerciais, perambular por Las Condes faz lembrar baladas ternas da Cat Power, como He war

Eu seria totalmente incompetente para criar um site sobre viagens narrando as minhas experiências. “Veganos na Europa” – e agora “Veganos nas Américas” – serve para recomendar os bons restaurantes que visitei em outros países, mas também acaba por ser um pretexto para falar essa coisinha mínima sobre o que me chama atenção dentro de cada cidade. Não visito todos os pontos turísticos e já troquei museus de arte importantes por caminhadas em bairros desconhecidos – eis uma viajante que está mais à procura de novos ares do que de roteiro fechado. Em Santiago, o único lugar cultural em que pagamos para entrar foi o Museu Pré-Colombiano, porque já saí do Brasil determinada a conhecê-lo (aliás, indico a visita). As outras “atrações” que visitamos eram gratuitas porque nas ruas: praças, jardins, parques públicos, construções. Não visitei catedrais, museus de arte, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos (talvez na próxima), a casa de Pablo Neruda (não tenho interesse nele). Às vezes tenho a impressão de que minhas viagens com o André são mais sobre horas de caminhadas e conhecimento de novos restaurantes do que sobre visitar cinco atrações por dia. Cada um tem seu jeito de fruição em viagens. Nosso jeito é terminar o dia com os pés latejando sob a mesa de algum restaurante vegano que sirva cerveja ou vinho. 

Tambor de madeira da Cultura Asteca, Museu
Pré-Colombiano (ou "Colombino")

"Mulher com pequeno animal nos
braços", Cultura Chavín

Mulheres e a sua importância para a
fertilidade da terra



RESTAURANTES VEGANOS

Com a popularização da internet, quase ninguém mais tem desculpa para desconhecer alguma coisa por ausência de acesso à informação. Às vezes me perguntam: “mas onde você acha receitas de bolo sem ovos?” Internet. Qualquer coisa que você coloque na internet com a palavra “vegano” atrás terá dezenas de receitas. Feijoada vegana, bife acebolado vegano, sorvete vegano. “E como você encontra restaurantes veganos em países desconhecidos?” Pelo HappyCow. Pesquiso sobre os restaurantes, copio o endereço, coloco no Google Maps e peço as direções para o local, com o hotel como ponto de partida e fazendo aparecer, por exemplo, as estações de metrô que ficam na região. Dou um print no mapa e salvo num tablet. Antes de ter tablet, eu imprimia os mapas. 

EL ÁRBOL

É um restaurante ovolactovegetariano, mas eu quis visitá-lo por ter várias opções veganas e ser muito elogiado. Em qualquer viagem priorizo restaurantes veganos, pois gosto de dar dinheiro para quem realmente se esforça para acabar com qualquer tipo de exploração animal, mas em certas cidades com poucas opções veganas costumo acrescentar à lista de mapas um ou outro local ovolacto. Gostei de tudo que comi – a maior parte saudável –, exceto uma entradinha de torradas e vinagrete em que havia coentro em vez de salsa no molho. Questão pessoal: até rúcula é mais saborosa que coentro. Os sucos são ótimos (peça sem açúcar), há opções de cervejas e vinhos (recomendo com louvor a cerveja feita em Valdivia, a Kunstmann) e as comidas preenchem páginas no cardápio. Pedimos sanduíches, arroz com tofu agridoce, petiscos de tofu temperado e torta. A torta era dispensável: muito doce. 

Entrada do El Árbol

Suco de abacaxi com hortelã; e tofu temperado

Arroz branco e tofu agridoce

Sanduíches

Parte do quadro de bebidas

Kunstmann, cerveja de Valdivia

Torta de chantilly

BUNKER

Foi onde pedimos os cachorros-quentes de abacate. Fora essa paltamania, gostei bastante do prato que almoçamos e amei o bolo crudívoro que comemos na sobremesa. Não sou nenhuma idólatra de doces (já fui: não existia ficar um dia sem pelo menos um docinho), mas gostaria muito de viver num mundo em que a maior parte dos doces fossem crudívoros. Bolos, tortas e trufas crudívoras são um pedaço do céu alaranjado num final de tarde fresco em meio ao silêncio. Vai comer em algum lugar vegano e existe opção de doce crudívoro? Peça. Nunca me arrependi. (Para quem não sabe, alimentos crudívoros só levam coisas cruas como frutas, castanhas e folhas: sem farinha, sem açúcar, sem nada que tenha sido refinado ou esquentado.) Tentamos voltar lá para comer hambúrgueres, mas estava fechado e havia apenas um classudo gato na janela. O lugar, todavia, é um pouco amedrontador para alguém que, como eu, tem horror a justiceiros sociais. O Bunker usa a língua do x (que sabichões que não estudam gramática chamam de “a língua inclusiva de gêneros”) – “meninxs”, etc. – e acha errado separar banheiros masculinos e femininos. É verdade, num restaurante pequeno isso pode dar certo, mas eu não quero encontrar um homem usando o mesmo banheiro que eu em uma rodoviária. Por todos os lados, avisos de que não toleram homofobia, racismo, etc. É verdade, também não tolero. O problema é que justiceiros sociais tendem a ter uma visão muito diferente do que sejam essas coisas: alguém contrário ao sistema de cotas raciais, por exemplo, é, para eles, racista. Tentei esquecer o desconforto por estar num lugar que possivelmente me considera culpada pelo massacre de pobres, índios e negros e foquei minha atenção na comida. Era muito boa. A moça que nos atendeu, todavia, era ranzinza. Talvez porque ache que mulheres empoderadas não têm a obrigação de serem simpáticas. Chilenos falam espanhol de forma acelerada e demos a entender que não estávamos entendendo muito bem o que a atendente dizia. Ela não fez questão de explicar com maior lentidão. Fizemos o pedido sem saber exatamente o que viria. Uma outra moça que atendia outras mesas, contudo, era muito prestativa. Uma mulher que ficava no balcão e imagino ser a dona do lugar também era simpática. Na questão do atendimento, fomos azarados. Ponto negativo nas bebidas: sem cerveja e sem vinho. 

Bunker Vegano

Batatas, seitan, salada e suco

Área de sobremesas

Torta crudívora de amendoim e frutas

SHAKTI – COCINA DE VANGUARDA

Lugar pequeno. Cardápio muito reduzido. Mas tudo muito saboroso. Ao voltar a Santiago, é certeza que voltaremos lá. Sucos saborosos, comidas caprichadas. Acho que os donos são um casal: ela atende, ele cozinha. Recomendo o cannelloni bicolor e o cuscuz (vai coentro e coentro em espanhol é cilantro: cuidado, se não gosta, peça sem). O cardápio pode sofrer alterações com as temporadas. 

Sucos

Cannelloni bicolor

Cuscuz

PLANTA MAESTRA

Gostaria de declarar que reggae me causa mal estar físico. É um gênero musical que me incomoda tanto que ao ser obrigada a ouvi-lo perco, temporariamente, meu senso de humanidade. Gosto de bandas com influência reggae – Bad Brains, The Clash, Police –, mas me sinto muito mal com o reggae na sua versão “pura”. Tenho horror a reggae. Muito bem, há dois Planta Maestra em Santiago e nos dois só toca reggae no seu estilo mais horrível. Sei que pareço dramática, mas não tenho intenção nenhuma de voltar a um lugar com esse tipo de programação. “A comida não salva o local?” Na minha opinião, não. André não achou que fosse fantástica, mas também não achou ruim e voltaria. A lasanha de molho vermelho era pouco saborosa e estava fria. As empanadas eram uma massa básica com um recheio preguiçoso. Para beber, chá ou um suco ralo. Junto ao pedacinho de “restaurante” – parece-se mais com uma lanchonete – há um mercadinho. Por ele o lugar pode valer a pena, já que há vários itens veganos empacotados (molhos, temperos, biscoitos) e uma pequena seção de hortifrúti. A única boa coisa que eu trouxe de lá foi uma sacola para compras estruturada e forte. Pode não ser tão ruim para quem gosta de reggae. Se for seu caso, arrisque. De minha parte, não gosto de ter refeições em estado depressivo induzido por música ruim. 

Mercadinho de uma das unidades
do Planta Maestra

Lasanhas frias que não empolgam

PS: o show do She Past Away foi num lugar pequeno e com pouca gente (o lugar estava lotado por ser pequeno). Mas foi sensacional. Todo mundo que estava lá parecia adorar a banda e estar muito feliz por vê-la tocando no Chile.